A voz de deus – Yan

1.

A vinheta anuncia que o Geral Alerta volta ao ar. O apresentador Bocão Borzani ajeita a gravata, franze a testa e pede para a produção colocar na tela a pesquisa feita ao vivo com os telespectadores, cujo título é: “Você é a favor de protesto com tumulto?”. Atrás de Borzani, que usa paletó largo para disfarçar a barriga e colarinho alto para disfarçar o queixo duplo, são transmitidas imagens aéreas e terrestres da concentração de manifestantes que vai do Teatro Municipal ao outro extremo do Viaduto do Chá. O não começa na frente, mas logo o sim toma uma dianteira de 500 votos. 

“Não sei se o pessoal aí de casa entendeu mesmo. Não é contra protestar, isso é direito constitucional nosso”, Borzani diz e sacode a mão direita aberta no ar, o polegar e o mindinho subindo e descendo. “Eu tô falando de quebra-quebra, depredação de patrimônio público, obstrução de via pública, deixar você preso mais tempo no trânsito na volta pra casa”.

A diretora do programa, fã de Glauber Rocha que nunca conseguiu emprego no cinema, percebe a maquiagem derretida revelando as rugas do apresentador e sinaliza para chamar outro intervalo. As respostas favoráveis a protesto com balbúrdia têm quase dois mil votos a mais que as contrárias. A diretora grita no ponto de Borzani, que leva a mão ao ouvido, gira a cabeça e olha para o V.T. ao lado da câmera como quem abre a porta de casa e encontra a família do vizinho. 

“Você concorda com esse tipo de protesto? Eu sou contra, sou contra até pelo avesso. E ó, se a voz do povo é a voz de deus, nessas horas é melhor que deus seja mudo”, ele diz e esbugalha os olhos para a câmera, sua voz afina e falha. “Ou não? Ou eu tô errado? Hein, velho?”. A diretora avisa que vai cortar a transmissão.

“Tá pau a pau”, Borzani emposta a voz, “mas tem muito mais gente dizendo que sim. Bom, nós vamos pra um rápido intervalo e já voltamos com o comandante da polícia militar na linha”.

2. 

Uma mulher de vestido preto, cruz no pescoço e avental de renda branca entra com uma bandeja, deixa um prato sobre a escrivaninha, avisa que outro doutor do trabalho ligou e sai. Borzani olha para o prato, faz movimentos circulares com o copo ao perceber o gelo derretido e bebe tudo de uma golada. Estão espalhadas sobre a mesa K7s do começo de sua carreira como repórter em uma rádio do interior do estado. Na parede estão emoldurados seu diploma, fotos com políticos e famosos, com seus filhos e as ex-mulheres. O computador toca Preciso me encontrar, na voz de Candeia. Uma mulher de vestido preto e pérolas no pescoço entra, tira o vestido, fica de calcinha de renda branca e diz:

“E aí, B.B., tô bonitinha?”.

Borzani tira os olhos das fotos e os põe na mulher, afunda na cadeira, encara o chão e cobre o rosto com os braços. Diz que não está no clima. A mulher faz força para afastar a cadeira da frente do computador e se senta de pernas abertas no colo dele, que vira o rosto e sacode a mão direita aberta no ar, o polegar e o mindinho subindo e descendo.

“Já te falei que isso é fase, amanhã ninguém mais se lembra e você continua sendo a voz do povo”, a mulher diz. “Poxa, tanto tempo te esperando separar e agora que você é meu no papel, nada de me consumar”. A voz de charme da mulher o faz lembrar das ligações de sua filha mais nova no dia dos pais. Com uma barrigada, ele expulsa a mulher da cadeira e range os joelhos ao se levantar.

“Fase porra nenhuma, são trinta anos de carreira, Bebel. Bandalheira, vandalismo, marginalzinho – sempre foi batata. Mas agora o povo quer que eu enfie minha voz no rabo”.

“Já nem lembro o que é isso”, Bebel diz e põe o vestido. “Quer saber, azar o seu. A trouxa aqui se depilou, tá se esfregando na sua cara e você só no uísque e pão com ovo, uísque e pão com ovo, uísque e pão com ovo”.

“Foi presente do Protágoras e eu quase nunca tomo”, ele grita para as costas de Bebel e completa quando ela bate a porta, “só quando eu tô triste”.

Espanta uma mosca sobre o prato e encara a garrafa que ganhou do grande zagueiro do Palmeiras, craque nacional que apoiou o atentado de uns milicos linha-dura no Riocentro, trancou seus caminhos no auge da carreira e morreu de câncer de próstata pouco tempo depois. Borzani bebe até restar menos de dois dedos de uísque, espatifa a garrafa em um Troféu Imprensa – categoria formador de opinião – e dorme na cadeira apoiando o queixo na papada e as mãos na barriga. Sonha com o dia em que entrevistou o Papa:

“O que Vossa Santidade tem a dizer aos brasileiros, o povo mais crente do mundo?”.
“Per Brasile, niente. Ma per te, ho un messaggio di Dio”.

Ele dá um sorriso fiel para a câmera, os olhos cheios de lágrimas, volta-se ao velhinho e espera as bênçãos de sua santa língua, igual à do nonno.
“Vaffanculo, figlio mio”, o Papa diz e faz o sinal da cruz no ar com o dedo do meio.

Borzani acorda com a cabeça doendo e batidas na porta do quarto. Constata que o presente de Protágoras é paraguaio. Gira a maçaneta e encontra o sorriso esticado de um assessor do dono da emissora, que tem o aperto de mão delicado dos puxa-sacos. O homem diz que todos sentem sua falta, a audiência não é a mesma, a concorrência está abrindo e fechando todas as portas desde seu sumiço.

“Eu não quero ver uma câmera de novo. O que eu falo não se escreve mais, o povo não quer saber de mim. Ou não? Ou eu tô errado? Hein, velho?”.

O assessor pede perdão e diz que ele está, sim, errado. Pega o celular do bolso, faz uma ligação, repete coisas como positivo; sim, senhor; e de forma alguma, senhor. Estica mais o sorriso quase a rasgar o rosto e lhe estende o celular com o dono da emissora na linha. 

“Alô. Eu sei, seu Al-makki. Sim, eu ainda tenho colhão, mas é falar em estúdio e ele sobe até o esôfago”.

“Ô, Borza”, diz uma voz que se gastou com charutos e lances em leilões, “vê se me escuta. Essa merda de mês vai entrar pra história do país? Talvez. Agora, daqui a um ano ninguém vai lembrar da sua cagada. Continua mostrando o que você sabe: filho matando pai, marido matando mulher, viatura perseguindo bandido na marginal. Em dois meses a audiência vai subir e o seu salário também”.

Borzani desliga o telefone e morde o pão com ovo gelado.

3.

De terno e queixo bem cortados, Borzani posa sério para câmeras. Atrás dele, um pôster com uma foto sua de sorriso raso, a ponte estaiada de fundo e um número de três dígitos em verde e amarelo. Seus cabelos acaju estão penteados para trás e a maquiadora fez questão de pintar seus lábios de rosa-presunto para criar contraste com o branco-presunto da pele do rosto. Uma repórter da Tribuna de Tarso levanta a mão, pede a palavra e pergunta:

“Candidato, o senhor é, citando suas próprias palavras, um velho conhecido da população que sempre defendeu a mesma bandeira. Portanto, a sua passagem por 7 partidos nos últimos 4 anos não pode ser interpretada como contraditória pelos eleitores?”.

“Dona Patrícia Raabe”, Borzani sorri como quem dá um arroto estreito. “A senhora dorme e acorda pensando em mim, só pode. Tanto que nem tem tempo de fazer as unhas”.

“Eu só faço o meu trabalho”, ela diz e dobra as falanges para dentro da barra do vestido preto. “Como meu colega, aliás, o senhor deveria saber”.

“Colega, uma banana. O que você faz é que é a contradição do jornalismo, manipulação pra dividir o país. Pois pode ficar tranquila”, diz para as câmeras, “porque eu não tenho e nunca tive medo do que o povo acha de mim”.

Ele deixa a coletiva e dentro do carro seu assessor lhe passa um celular.

“Borza, meu irmão”, diz uma voz que se gastou de gritar glória em falsete. “A congregação já está te esperando, hein. O povo de Deus sempre integrou sua audiência e vai com você pra guerra, na paz do Senhor”.

“Amém, pastor. Vamos provar que santo de casa faz milagre”.

O assessor pega o celular e o guarda no bolso do paletó. Pergunta:

“Azedou?”.

“Ele não gostou que falei santo. Caguei”, Borzani diz e sacode a mão direita aberta no ar, o polegar e o mindinho subindo e descendo. “O importante é o rebanho dele ouvir minha voz na urna. Ou não? Ou eu tô errado? Hein, velho?”.

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