Bolo de morango

Mané melhor padeiro de Auriflma – mas só era bom de pão. Seu Nico se aproveitou desse fato, há 25 anos montou confeitaria na esquina. A gente da cidade era pá pum, passava no seu Mané pra pegar pãozinho e zarpava pra descolar uma rosquinha uma broa um bolinho de milho na concorrência. O que irritava mané era os escancarados: os que pingavam primeiro na confeitaria e daí chegavam com sacolinha e com cara de pau pra garantir salgado.
Mané tentou tudo quanto é jeito, não adianta, não tem mão pra doce, errava o ponto, deixava o bolo sovar, as fatias húngaras ficavam secas, os bolos de chuva queimavam mesmo em dia de tempestade.
Seguiu tentando mais de um ano até cansar e disse: aqui eu vendo pão. Pão francês, baguete, croassã, pão de verdade. Pão de trigo água e fermento.
Mané avesso a novidades irritou quando os clientes demandaram folheados com creme de avelã e outras frescuras. Eu faço é pão, do jeito de fazer pão igual ao que Jesus Cristo multiplicou. Desde aquele tempo que pão é assim e quem quiser diferente que coma em casa.
Mas seu Nico foi é ligeiro, pegou o bonde andando e tratou de implementar coisa diferente no cardápio, trazendo um sobrinho que cursava gastronomia na capital e agora voltava porque os pais o pegaram – aí minha nossa sinhora – fumando maconha com os amigos.
A casinha antiga de platibanda bege desbotando, com o “Niconfeitaria” em fonte azul tava agora duplicada. O proprietário comprou a casa do ladinho, mandou trazer arquiteto lá de Presidente Prudente. Agora tinha parede que imitava madeira e chão de piso frio brilhando de branco. Tinha mesinha e cadeira pra comer lá mesmo e garçonetes servindo sorrisos e cafés especiais. Mané fez que não ligou, mas ficou com vergonha da sua portinha cinza que abria-fechava fazendo barulho, seu balcão encardido, sua cozinha de eletrônicos de duas décadas.
A reinauguração da concorrente deixou o homem cabisbaixo. Nem levantou cedo no domingo pra regar as plantas que colecionava com dona Alzira, sua esposa há 43 anos. Mentiu gripe, mas na verdade era dor de cotovelo. Os clientes iriam comprar o pão no local reformadinho, tinindo de novo, com cardápio variado. O que ia acontecer com sua padoquinha, que ainda seguia firme no pingado com pão na chapa?
Teve ideia de fazer propaganda com foto, botar no autidor e na Auri-fama, a revistinha local que cobria as novidades (quase nenhuma) da cidade. Já na segunda feira foi atrás de publicitário. Tudo certo, mediante pagamento prévio ele ia ter ideias pra fazer crescer o negócio. Traz uma moça bonita que chama atenção das pessoas. A filha do Zeca da lotérica? Ih, pegou barriga, tá inchada. Vai a Jessica mesmo, sobrinha neta do prefeito, que assim espalha mais rápido e todo mundo fica já sabendo. A menina topou, no colégio iam saber que ela era a mais bonita da cidade, escolhida pra modelo. Agora precisava era de um cenário. Pode deixar que eu edito um fundo branco no fotoshope, disse o estagiário da agência animado com seu primeiro trabalho. Na frente da Jessica (maquiada e de cabelo escovado no salão) ficaria um pão italiano recém assado, maior que o costume, pra mostrar que aqui ninguém economiza em ingrediente não. O publicitário desgostou. Pão não é suculento, ninguém tem vontade de pão. Tinha que ser um doce. Mané ficou aflito, mas topou, tava pagando pelo serviço do moço, queria que tivesse destaque, atrair mais olhares que uma reforma e um caputino. Trouxe os doces pro fotógrafo. Nada ficava bom nos teste de câmera. O bolo de fubá esfarelava, o sonho vazava creme para os lados, uma meleca, o pudim não tinha consistência boa pra fotografia. Passaram minutos discutindo e testando opções, até que o fotógrafo teve uma ideia.
Agora no autidor da Padaria do Mané tinha a Jessica com um bolo de morango bonito e grandão, comprado lá na confeitaria do seu Nico.

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