
Joseph Brodsky é um dos poetas mais legais do século 20. Quem não gosta de Brodsky bom sujeito não é. Pra começar, nasceu exatamente um ano antes do Bob Dylan. Ou seja, era geminiano. Portanto mudou fácil da Rússia pros EUA, do judaísmo pro cristianismo, de São Petersburgo para Nova York, de Akhmátova para Auden, do russo para o inglês. Outro raro representante do clube dos bilíngues – já era um poeta aclamado entre seus pares (como o amigo Dovlátov) na Rússia, antes de aprender inglês em um gulag. Deportado por subversão, foi acolhido pela comunidade de russos e ingleses emigrados (como o amigo Auden) e deu aulas em universidades americanas até morrer, aos 55, como Poeta Laureado e Prêmio Nobel. O discurso abaixo foi lido um ano depois do Nobel, em um congresso sobre literatura e exílio em Viena e está na ediçãozinha linda Sobre o Exílio (Ayiné).
























PROPOSTA
É isso o que vai fazer: vai contar uma história em que seu personagem esteja exilado.
Não necessariamente ele precisa estar fora do pais. Mas se quiser, pode.
De todo modo, ele está fora de sua zona de conforto.
Está fora de sua casa. Está fora de sua escola. Fora de sua cidade.
Longe da família, longe dos amigos, longe de qualquer pessoa que o conheça e possa ajudá-lo.
Você vai narrar um dia na vida do seu personagem no exílio.
Onde ele está? Como é a sensação de não reconhecer nada ao redor, não conhecer ninguém?
Ele está com fome, com medo, e logo vai precisar de um lugar pra virar um teto.
Acabou de chegar ao exílio. E aí, o que ele faz?
Não adianta ficar choramingando sobre o que seu personagem deixou pra trás. Pode até ocorrer uma que outra lembrança, tensionando a narrativa para trás. Mas o que vai fazer sua narrativa andar é caminhar para o futuro – para onde vai seu exilado?
Brodsky chegou a NY com uma máquina de escrever, um livro de Keats e duas garrafas de vodca, além de duas mudas de roupas. O que seu personagem leva na bagagem?
O que ele procura? Quem ele procura? Quem ele acha?
Se vira, você não é caixote.
Use cenas, use diálogos, use a primeira ou a terceira pessoa.
Não pare de se mover: você só tem 24 horas e 9 mil toques.
