Ela, já adolescente, perguntará, na tentativa de fazer parte da conversa dos adultos.
– Não, Tatiana Brito. De Xangô. Ele é de Xangô. Já visse alguém de Xangai aqui?
Aurora vai devolver subindo o volume e vergando a confiança da filha a cada fim de frase.
-Dormir, né? Que é o melhor que tu faz.
Melhor é palavra que terá significados bem particulares na casa de Aurora. Piores do que na sua ou na minha. É melhor não comer o pudim. É melhor começar pela salada, melhor nem pegar a carne. É melhor trocar o suco de laranja por água. Isso só no quesito dieta. Dieta que se aplicará com exclusividade ao pessoal que tem útero, como a mãe vai passar a dizer, a riso frouxo, para provocar a caçula; única portadora de um entre os três filhos do casal: Neto, Rafael e Tatiana na ordem decrescente. Decrescerá com a ordem a atenção dispensada a cada um deles. Neto será a promessa de futuro da família. Quase como em New York, New York, só que ao contrário. Se Neto não conseguir, ninguém conseguirá. A Tatiana restará a tarefa de ser bonita. Neto naturalmente não terá tempo para, nem necessidade de. E Rafael já o será sem esforço – uma barroquinha, que é como Aurora chamará as covinhas na bochecha do menino, uma sobrancelha farta bem traçada, uma boca esperta que lembrará o avô. E no mais, Rafael será responsável pela graça da casa, um alívio cômico com braços e pernas. Os três nascerão em agosto, mas somente Tatiana será de virgem. Sistemática, apegada, chata. Aurora repetirá à exaustão.
Tatiana acatará a ordem da mãe naquela noite e em todas as outras que vierem antes ou depois dela. Dormir será mesmo o melhor a fazer na casa dos Brito. Ela cobrirá a colcha com a toalha, como faz quando sangra para não ouvir de Aurora o que Aurora sempre terá a dizer. Vai ninar o próprio medo ao som Perdão, Senhor, a sua favorita dos sábados de catequese. Exagerará na fé e nos olhos fechados tentando compensar o constrangimento do jantar. Acordará no dia seguinte ainda rezando na torcida de que Aurora tenha saído mais cedo pra ginástica ou pro clube. E se ela não tiver ido, ou se se tiver, se disser isso ou aquilo, se mandar ou desmandar, sempre e para sempre, Tatiana vai obedecer bem obedecidinho.
A não ser que ela esteja cansada hoje. A não ser que o medo tenha tido uma insônia daquelas. E que sangrar já não lhe faça mais vergonha. A não ser que as toalhas sujas estejam cheias de ideias pra dar. E que para cada pudim ou carne entregue aos irmãos, a composição corporal tenha se adaptado como pode – 15% de gordura para 85% de massa mágoa. A não ser que para Tatiana, Rafael nunca tenha passado de um bobo alegre com boca de susto e bochechas furadas. E que Neto esteja muito mais perto do Brasil do que de Nova York. Neto, a eterna promessa. Que ela tenha acabado de se dar conta da omissão do pai, que até aqui nem apareceu no texto, que balançou a cabeça concordando a cada ataque da mãe. A não ser que hoje o tempo vire, e que Aurora, quem sabe, possa sentir o peso do machado de Xangô.
Isso se Perdão, Senhor não fosse tão arrastadinha. Se não tivesse nela o efeito do Zolpidem que Aurora toma toda noite enquanto solta o coque alto. Isso se ela não anotasse a lista dos livros que chegam pra Neto, os que que lerá quando chegar a sua vez. Ou se não passasse o minoxidil do pai nas sobrancelhas sempre que tinha oportunidade. Isso se ele não tivesse gritado agorinha um boa noite azedo, mas que pra ela soou doce como uma laranja mimo.
Dormir, né? Que é o melhor que a gente faz.

