Lugares para sentir medo

Lugares para sentir medo (texto de Carol Schettini)

1- na praia

Irene está na praia. Acabou de sair do mar. Aproveita o corpo molhado para misturar o sal da água com o óleo do bronzeador. Seu filho, Pedrinho, está na beirada fazendo um castelo na areia. Irene olha para o lado. Vê andando três mulheres. Mulheres coloridas, saias vermelhas, blusas verdes, lenços amarelos contrastando com o bege da areia e o azul do céu. Ciganas. Ciganas, meu Deus. A pele de Irene não está mais quente do sol. Irene gela. Cubos de gelo passam sob sua epiderme, criando uma mulher de cera. Irene não gosta de adivinhações. Não gosta. Não admite sequer borra no café. Lembra quando brincou de escolher desenhos com sua prima e queria ver uma árvore, tudo que aparecia era uma boca. As ciganas seguem pela praia, refletindo no seu dourado, o sol. Passam na barraca de um, na de outro. Estão caminhando como gladiadoras no meio de uma guerra. O vento sopra areia em volta delas, criando uma atmosfera de filme de faroeste. Irene agarra Pedrinho. Solta Pedrinho. Agarra. Solta. Agarra. Segura a bolsa. Nunca vão ler minha mão. Não vão levar meus anéis. Irene nunca gostou de adivinhações. Irene sequer joga baralho. Tem certeza que se cortar as cartas em busca de um quatro de paus, sairá um enforcado. Com a bolsa, a canga, o menino nos braços, Irene corre para dentro do mar. Mamãe, olha a onda. Vou afogar. Não preocupa. Afogar no mar é sorte. 

2- na cidade 

Cibele está dirigindo há mais ou menos meia hora. Bem mais de meia hora. Uns quarenta e cinco minutos, talvez, já que ouviu Suspicious Minds dez vezes seguidas. Segue reto quando dá de cara com um morro. Que estranho! Antes de sair de casa, consultou o google, fez e refez o trajeto hum mil e duas vezes para não ter que passar em nenhum elevado. Cibele não sobe com carro em morros. Desde que errou o caminho uma vez e parou no alto de uma favela. O traficante só a deixou escapar porque seu sobrenome lembrava o da mocinha da novela e ele era grande fã da atriz. Cibele tenta ir em frente, mas seu pé não obedece. Mesmo no carro automático, seu pé pisa o freio, não acerta o acelerador. Cibele para o carro no meio da avenida. Motoristas irritados passam a seu lado fazendo gestos que, pode garantir, não fariam dentro de uma igreja ou mesmo na frente de suas mães. Ré não dá. Mão única. Se ainda fosse a atriz do traficante do morro; ela, sim, fez uma cena em que dava um cavalo de pau e saía de costas sem bater em ninguém. Cibele não é uma boa motorista. Ela desliga o carro e respira. Passa a mão no volante não uma, mas duas, três, quinze vezes. Passa a mão no patuá preso no retrovisor. Aperta uma, duas, quinze vezes quinze vezes.  Joga a cabeça para trás, pega a chave, desce do carro. Sobe a pé. O guincho que busque o carro. A culpa não é minha. É do Google Earth.

3- em casa

Jorge pega as duas taças de vinho para levar à cozinha quando nota o celular em cima da mesinha ao lado do sofá. O celular não é dele. É de Helena. No primeiro movimento, larga as taças de volta e segura o objeto na mão como se fosse uma granada, de forma rápida e enérgica. Uma sorte ela ter esquecido. E se ela aparecer? Lembra do dia em que ela leu uma mensagem, deu uma risadinha de lado. O que foi? Bobagem. Mas, o que foi? Nada. Nada? Uma amiga me enviou um emoji engraçadinho. Jorge sabia que não era uma amiga e não era um emoji engraçadinho. Quer ver? Ela entregou o celular a ele. A senha é sorte em números 76783. Jorge não segurou o celular. Sentiu seu coração palpitar como uma bomba d’água desregulada. Do mesmo modo que está palpitando agora. Naquele dia, ele não quis ver. Seria um ciumento ridículo. Sua última namorada o traiu com um ser desqualificado. Não podia começar um novo relacionamento em que toda a tontura, náusea, dor de cabeça viriam à tona. Na verdade, a culpa era da sua professora de português do oitavo ano. Se não tivesse sido obrigado a ler Dom Casmurro, não estava vendo Capitu dando sorrisinho para ele enquanto Helena lia uma mensagem qualquer. Bentinho até podia ser um corno, ele não era. O que eu faço?  Estou com o celular dela na mão. Jorge sabe a senha. Mas, se ela descobrir que eu mexi? Se descobrir que abri as mensagens, os números, os contatos, que olhei tudo e olhei e procurei e não encontrei nada? Posso encontrar alguma coisa. Ou nada. Helena e seu sorrisinho. Helena jogando o cabelo pra lá e pra cá, balançando o corpo. Helena, a Capitu do século XXI. Helena fingindo entregar o celular a ele enquanto segura o objeto com superbonder nos dedos. Jorge senta na beirada do sofá. O celular apita. Ele espia. Seu coração palpita um pouco mais, um tom acima, um outro movimento, um som triunfal. Com os dedos tremendo, não acerta a primeira tentativa. Tecla 76786. Sorte em números é a senha. Presta atenção! 76783. Tenta de novo. Uma carta de amor! Para ele. 

4 – no cartório

João aguarda do lado de fora do cartório. Depois de cinco anos, finalmente, vai se livrar dela. Cíntia está atrasada, como sempre. Um dos motivos que os levou até ali. Um dos menores, na verdade. João lembra do conselho do seu amigo Felipe. Nada de ficar esperando por ela e procurando detalhes do que levou os dois a combinarem de assinar o divórcio. João se apega ao conselho do amigo. Tem medo de mudar de ideia. Medo que faz com que sua mão formigue. Sente calor. Ele segura uma caneta. Bic, daquelas normais, nem dourada é. Do mesmo jeito que segurava a caneta para anotar os pedidos no bar na primeira vez em que a viu entrar correndo, fugindo da chuva, na rua Augusta. Cuidado com a engenharia reversa, cuidado! Concentra, João, concentra. Divórcio. Os gritos, os choros, o silêncio, a falta de assunto. O soco na parede. Nada de dar um passo para trás. Medo de lembrar daquele dia. Da chuva, do sorriso, da caneta caindo ao chão. João fecha os olhos. Suas mãos molhadas de suor. A caneta escorrega e cai. João abre os olhos e vê Cíntia correndo em direção ao cartório. Está chovendo.  João corre em direção contrária. Não foi o medo que fez ele fugir.  Nem a chuva. Foi andar para trás e ver. O amor.

5- no cemitério

A ladainha começa. Por que ela vai ser enterrada aqui? Janete quer saber. A amiga, agora morta, sempre lhe disse que iria repousar junto a sua mãe, em outro cemitério. Estava lotado. Não cabia mais nada, nem cinzas. Ora, só por que ficou por último, perdeu seu lugar? É a vida. Quem chega primeiro. Janete sai de fininho. Pé ante pé. Um pouquinho para trás, um outro pouquinho e dá no pátio. Seu coração bate em um pagodinho de bar. Respira para fora, soprando em cadência rápida. Janete desce até a administração do cemitério. Pode alguém perder seu lugar em cova?! É o fim! O fim do fim! O rapaz da secretaria confirma que seu nome está anotado para ser enterrada junto a seu marido. Mas… eita, um mas, vai ter que dividir espaço com uma parente do morto. Que parenta? O mocinho dá explicações. Janete não aceita. Tem que tirar tudo de lá. Não dividiu o marido em vida, vai dividir o marido morto?! Continua soprando cada vez mais rápido. Qualquer coisa, a senhora pode ser colocada ao lado dele, tem uma vaga. Janete não aceita essa hipótese absurda. Tem medo de dormir sozinha. Nunca em seus mais de oitenta anos de vida, jamais, ouviu? jamais dormi sozinha. Janete enxerga tudo escuro, dá batidinhas nos olhos, respira, respira, desmaia, morre. Sufocamento, diz o laudo. Medo, diz Janete.

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