Leandro Reis
1.
Tenho um sonho recorrente. Começa como uma tosse seca, constante, vindo de longe, como se não eu não estivesse aqui, como se eu ainda vagasse na planície. Saio da minha barraca e vejo a noite de estrelas inverossímeis, ampliando nossa solidão. O bando pernoita nas bordas do lago, entorpecido no cansaço e no nada gigantesco que é a vista daquelas estrelas. Eu penso: o mundo é o sonho de um cego. Vou acordar com aquela frase intacta, isso eu já sei no sonho, com a certeza do sonho. Volto a ouvir o barulho, ritmado, duas tosses secas do outro lado do lago. À medida que ando pela margem, as botas pesadas do barro acumulado na sola, vejo minha imagem refletida na água e penso que é a aquela imagem que me sonha, que estou morto como as estrelas. O som agora já se distingue, a tosse são os latidos dos cachorros de Folha Larga, presos no tronco de árvore que guarda sua barraca. Está afastado de nós porque ninguém é confiável perto de dinheiro e armas. Guardo tudo comigo para afastá-los de si mesmos, ele dizia sem disfarçar o sarcasmo, e nós gostávamos disso nele. Talvez Folha Larga nunca dormisse, ou dormisse apenas quando andava lado a lado conosco na planície, cultivando o silêncio. Os cachorros continuam a latir e eu continuo a caminhar na direção deles. Se estava acordado, é o que penso analisando o sonho, Folha Larga não quis se defender, porque havia tempo depois que passaram a roer as cordas, depois que rasgaram como uma fatia muito fina de carne o tecido branco da barraca e avançaram, as silhuetas pretas como dois tumores, cheios de morte. Tudo que eu via era graças a luz daquelas estrelas exageradas, o sonho sem disfarçar que sonhava ele mesmo. E o grito, um só berro, um berro pulmonar de Folha Larga atravessando o lago. Pelo rasgo saem os cachorros, ainda ansiosos mas felizes, passando entre as mandíbulas a macheza de Folha Larga, como o bastão de uma corrida de quatrocentos metros. Atrás de mim se acendem as barracas e as tochas, refletindo no lago. Era o inferno desenhado, como dizem, os homens se aproximando tremulando junto com as chamas. Pelo mesmo rasgo da barraca sai agora Folha Larga, a pélvis esburacada jorrando um líquido negro. Os homens tentam se aproximar, mas é estacionam diante de uma barreira invisível, não conseguem se mexer, como se todos nós sonhássemos aquele sonho juntos, paralisados na cama, e se todos ali já não estivessem mortos eu acreditaria que sim, que dividíamos aquele pesadelo. O corpo de Folha Larga perde sangue em enxurradas, no entanto sua postura é a mesma, apesar das pernas um tanto trêmulas. Sua feição não existe ou está oculta na luz avermelhada que tingiu a noite. Não posso ver se na sua cara já se instalou o horror, como no episódio a que vocês se referem, o horror do fim. Ele saca o revólver, não sei se chega a atirar, porque desperto antes. Se o conheci bem, devia estar rindo.
2.
Foi uns cinco anos antes que a fama se alastrou pela planície. Não se sabia quando ou por que, havia a certeza que o bando de Folha Larga despontaria no horizonte, escoltado pelo sol branco, as peles rachadas e as caras dos homens cobertas de areia e pó, como estátuas de sal, ou carregando as tochas tremulando no escuro, riscando o céu de cicatrizes. Eu ansiava por isso, pela chegada de Folha Larga. Dizia-se que eram homens mortos, só cadáveres podiam resistir vagando pela planície, ou demônios. Se assim fossem, não tinham sombra, e o Pai os esperava na cerca de seis às seis, porque caso fossem gente deviam ter sombra e assim ele atiraria e mataria todos, o último sendo Folha Larga, uma morte no crepúsculo. Mas eles vieram à noite, e ainda que as chamas sombreassem seus corpos, não foi além de um vulto que o Pai deve ter visto antes de tombar em cima do arame farpado, ficando pendurado até o bando de Folha Larga encerrar o trabalho. Eu já atirava melhor que o Pai, mas sentei na soleira da porta e esperei, como se o próprio demônio me protegesse. Primeiro foi o Tisco, abrindo a porteira com a sola do pé e voando com o cabo da espingarda na minha garganta. Perguntou quem eu era e por que eu não tinha deitado no chão ou sido atravessado por uma bala, e ficava cada vez mais nervoso porque eu não respondia, mas eu só não o fazia justamente porque ele apertava a minha glote. Nisso o Pereira interferiu tirando o cabo da arma da minha garganta, e desferiu um chute na minha perna, para me ajudar a responder. Cachorros latiam e pareciam ser contidos atrás da roda de homens que se formou em volta de mim. Folha Larga deve ter ouvido quando respondi que a cidade me enferrujava e eu preferia morrer a ficar ali. A farda retalhada trazia ainda as iniciais costuradas no peito, S. P., o nome de Folha Larga na outra vida, ou o nome de alguém ceifado por ele e por direito seu fantasma. Ele deixou o bando me espancar por alguns minutos e depois ordenou que parassem, me entregando uma arma e um cantil. Por que ele me aceitou em vez de me degolar, é possível especular, mas seria um trabalho infinito e sem propósito.
3.
Não. Isso foi há muito tempo. Ele nunca escondeu seu ofício, mesmo na época em que tinha nome e sobrenome. Quando foi expulso, adotou o apelido que havia surgido não se sabe na boca de quem, talvez brotado do chão, uma alcunha que fazia justiça à longa lista de nomes impressos na sua folha corrida. Em público, nunca reconheceu a expulsão, continuava usando a farda apesar das iniciais costuradas no peito estarem sem a patente. Simplesmente trocou-se o chefe, ele dizia, e suas operações passaram a ser ilegais. Os corpos queimados na fogueira de troncos e ossos de repente se levantavam e agarravam as costas da farda, sendo arrastados por Folha Larga de cidade em cidade. Não é uma imagem inverossímil, embora ninguém a tenha testemunhado. A diferença entre uma vida e outra pode ser uma canetada. É o que ele dizia, às vezes você sai para matar mas o sol está muito forte, cega seus olhos, ou o vento os enche de terra; às vezes é isso e você está morto.
4.
Depois de muito tempo finalmente chegávamos a uma cidade propriamente, uma cidade urbana, como fiquei sabendo que o Pereira disse a vocês, então naturalmente estendemos nossa estadia. Já na segunda noite de saque, o frio já sem entrar na pele da quentura do álcool, gastando tempo e bala em carros e vidraças. Curiosamente uma vitrine de eletrodomésticos tinha sido destruída, mas uma única televisão atrás dela tinha ficado intacta. Ninguém entendeu quando Folha Larga atirou na direção do Tisco, acertando o farol de um carro do lado dele, forçando todo mundo a silenciar. O som da televisão era tão baixo que alguns de nós prendiam a respiração. Imagens descoordenadas de músicos em orquestras ilustravam o som que Folha Larga tentava decifrar, encostando a orelha na tela, como se o som saísse de lá. A cena durou uns trinta segundos, ou menos, até um programa de auditório substituir a propaganda do concerto. Noturno número quatro, ele disse, sem se virar para nós, como se aquilo fosse um comando. Voltamos a atirar e a berrar a esmo.
5.
Para mim, Folha Larga entediou-se. Sobre o episódio referido, não acho que tenha sido por causa dele, mas entendo que suscite sentimentalismos. Tínhamos armado as barracas no pé de um desfiladeiro, esperando Folha Larga acordar do delírio do álcool para seguir viagem. Os boatos de que um bando vinha nos perseguindo desde o início do ano não recomendava que dormíssemos todos de uma vez. Mas o sono vem às vezes como um tiro de fuzil, de lugar nenhum, sem aviso, direto na têmpora. E era como no sonho, uma noite falsa, uma calma falsa e umas estrelas dissimuladas. Dessa vez ouvi os latidos só muito depois de terem começado a atirar, o Pereira e o Tisco cambaleando com os fuzis para frente da barraca de Folha Larga, enquanto um homem já ferido de morte desatava as cordas dos cães. Não parecia haver muitos deles, pelo barulho das armas, mas era impossível ver seus corpos perdidos na escuridão. Por um tempo os cachorros atacaram os vultos, e os gritos de horror indicavam artérias rompidas e membros rasgados. Eu, Pereira, Tisco e Folha Larga seguíamos abaixados atrás da barraca, Folha Larga ainda tomado pelo álcool. E então um grande silêncio. As vozes se distanciando sinalizavam uma retirada, talvez uma armadilha. Mesmo assim nos levantamos e acendemos as tochas. Deitado no peito de um cadáver, com a mandíbula envolvendo a garganta, o cachorro imóvel e sem vida; o outro, arrastando a traseira com as patas explodidas, a barriga atravessada pelas balas, deitou muito devagar sobre os retalhos da barraca e esperou a misericórdia de Folha Larga que, livrando-se da proteção do Tisco e do Pereira, deflagrou sua única bala no combate do qual fora espectador. Ao remover o segundo cachorro assassinado da garganta do homem, Folha Larga se deteve num dos pulsos do homem, retirando-lhe uma pulseira grossa de couro. Na pele, o desenho de uma flor com inscrições de uma língua morta ou desconhecida. Não para Folha Larga. Ele soltou o braço do homem e ordenou a Tisco que trouxesse a garrafa. Tomou um gole longo e cuspiu; pegou um fósforo no bolso da farda e incendiou o defunto. A fumaça subia e ele deixava que envolvesse sua cabeça, escondendo as feições que talvez trouxessem um grande pesar. E disse: já os matei tantas e tantas vezes que agora eles vêm atrás de quem podem matar, me matam matando os outros. E continuou, com a voz dos loucos: os homens do vale, adoradores da Flor, que deixaram o corpo e agora vagam como moldes vazios. E bebeu, e cuspiu, fazendo uma grande fogueira que podia ser vista de qualquer lugar.
6.
A sorte é que a fama nos precede. Já não éramos um bando, mas um quarteto, sendo Folha Larga um líder esfarrapado, louco e bêbado. Tinha deixado o fuzil com o Pereira, queria as mãos livres para delirar, mexendo os dedos nas coxas como se apertassem as teclas de um piano, grunhindo as notas pela boca rachada. Ainda assim, quando apontamos no horizonte, os poucos habitantes que estavam nas ruas fugiram para dentro das casas. Depois da entrada da cidade, as ruas se dividiam como afluentes estreitos, cada filete margeado por colunas de casas de madeira. Caminhando na frente, Folha Larga escolheu uma das ruas, ou melhor, seus pés levaram o corpo bêbado escorado nas fachadas das casas, todas fechadas, portas e janelas. Ninguém havia dito, mas àquela altura já se devia saber que o bando tinha sido quase dizimado, de modo que vocês deviam estar atrás de nós. Entramos na primeira casa que o corpo de Folha Larga trombou e estacou. Atirei na maçaneta, entrei atirando, é sempre assim que nos recebem, mas não havia ninguém na sala, estavam todos no único quarto, de onde saíam gritos e choros muito depois de eu parar de atirar, com Folha Larga já sentado no sofá e o Tisco fazendo-o beber água, água que o Pereira jogava na própria cara, assoando o nariz e limpando o muco na roupa. A porta do quarto tinha uns poucos móveis tentando travar a entrada, e a liberei com um chute. Sentadas na cama, a mãe e as duas filhas, o que no primeiro momento me pareceu uma cilada, talvez o pai estivesse de tocaia dentro do armário ou do banheiro, mas logo o porta-retrato com a foto de um homem de meia-idade na cômoda esclareceu que não havia mais homem na casa. Arrastei as três para a sala e as joguei no chão, ao lado do sofá onde Folha Larga bebia mais um galão de água, agora com as próprias mãos. O cenário não provocava otimismos. Comecei a gritar e a xingar com o Tisco, pois ele havia cometido um erro primário, tinha aberto a janela da sala para que o ar circulasse, muito bonito, decidiu que seria interessante se refrescar com o vento. E por essa janela foi possível avistá-los nos seus carros engraçados, todos pretos, como num velório de carros. Fechar a janela seria ainda pior, então me apoiei no parapeito e comecei a atirar. A mulher voltou a choramingar e o Pereira a acalmou com um tapa. O barulho dos tiros acordou de vez Folha Larga. Ele se levantou e sacou o cutelo, nos cantos do cômodo o Tisco e o Pereira fazendo sinal para que se abaixasse. Mas ele continuava de pé, na verdade parecia ter se empertigado mais agora que percebeu a mãe e as meninas emboladas atrás do sofá. Já devia ter deitado uma dúzia de vocês quando o Tisco caiu no chão, estrebuchando, varado no pescoço e na barriga. A partir daí não é preciso muita sagacidade para entender que o cerco tinha se fechado. Continuei a atirar, porque é o que se faz por hábito, mas eu já sabia. As meninas e a mãe foram arrastadas por Folha Larga detrás do sofá e posicionadas de costas coladas na parede. Já ouvia as dezenas de botas no quintal da casa, enquanto o Pereira arrastava o sofá para a porta e fechava todas as janelas. Via sem entender a mulher sentada num banco de madeira que Folha Larga arrastou da cozinha, soluçando baixo, com as mãos esticadas para frente e as palmas viradas para baixo; as meninas, cada uma com um prato e esperando um sinal de Folha Larga. Ele se pôs de frente para elas com o cutelo levantado. E então anunciou, aos berros: Senhoras e senhores, os Noturnos de Chopin. Imediatamente a mulher mexeu os dedos das mãos de modo febril, tocando um piano imaginário, acompanhada pelas filhas imitando violinistas, enquanto, naturalmente, Folha Larga regia a orquestra com o cutelo balançando no ar. Vocês entraram em seguida, pondo abaixo a porta e as janelas, dominando primeiro o Pereira e depois chegando em mim, distribuindo chutes e coronhadas. Folha Larga deixou o posto de maestro, mas não teve tempo de desferir sequer um golpe. Ferido com o próprio cutelo, esfregava o talho como se fosse um bicho pousado na costela.
