Tbt_Recuerdos de Ypacaraí

(Angélica)

Peguei a pasta onde eu guardava os documentos dos meus pais e quando eu estava separando as folhas que eu precisava fotografar, um papel dobrado voou da pilha e foi para o chão rodopiando. Era o contrato de aluguel de um guarda-volumes, no nome do meu pai, lá na rua Araújo. Engraçado não ter visto, eu tinha arrumado toda a papelada depois que os dois morreram. Além do mais, ele nunca me falou sobre a existência do tal depósito. Junto havia os pagamentos quitados até 2023. No mínimo curioso. Permaneci um tempo imóvel pensando o que poderia estar guardado lá e não cheguei a nenhuma conclusão. Livros? Os móveis dos meus avós? Ou os restos do Karmann Ghia vermelho sem capota que minha mãe odiava e causou muita briga? Nada fazia sentido. Por isso mesmo, ou eu desvendava essa incógnita ou eu desvendava essa incógnita, não tinha outra opção. Deixei tudo como estava, pus a certidão de óbito e o contrato na minha bolsa e saí.

Ir de metrô era mais fácil e o trajeto teria sido tranquilo se a criança que estava no banco da frente, no colo da mãe mas virada para mim, parasse de me secar e puxar insistentemente o catarro do nariz. Eu olhava para o teto, para as outras pessoas mas quando me voltava para a menina, ela continuava me encarando. Comecei a achar que ela era uma espécie de inquisidora e sabia muito bem para onde eu estava indo. Bastante incomodada, resolvi fazer cara de brava na esperança de que ela fosse para o colo da mãe. Não só não foi, como abriu a boca para chorar. Era o que me faltava, arrumar uma treta agora. Por sorte, uma bolha começou a crescer na sua narina direita. Quando atingiu um tamanho considerável, dei uma tocadinha para que estourasse e sorri. Ela adorou a brincadeira e antes que quisesse mais, levantei e fui para perto da porta.

Atravessei a praça da República com o dedo em riste e ainda morrendo de nojo. Já que estava sujo, aproveitei esse mesmo dedo para tocar o interfone. Assim que o portão abriu, pude ver uma salinha minúscula onde ficava a recepcionista.

– Preciso usar o banheiro – disse apavorada.

Depois, com calma, me apresentei explicando toda a situação. Ela se chamava Marlene e ao verificar os papéis, olhou para mim perplexa.

– O senhor Frederico?

– Sim. Você conhecia ele?

– Claro, ele vinha aqui toda semana.

Minha vontade era de falar como assim? Mas fingi não estar surpresa e perguntei quanto tempo ele costumava ficar aqui.

– Uma hora mais ou menos. Sempre conversava comigo, era bem brincalhão.

Se ciúme matasse… Além da Marlene ser uma morena muito bonita, também dava risadas.

– Achei que ele estava doente, não apareceu mais. Sinto muito.

– Foi muito triste. Sou filha única, sabe como é.

– Imagino. A senhora tem a chave?

– Não. Me diz uma coisa, ele vinha sozinho?

– Sim. Vou buscar a cópia da chave. Só um momento, por favor.

Assim que ela saiu, tentei imaginar a reação do meu pai se ele me visse aqui. Por mais que eu quisesse pensar nele vivo, só conseguia ver seu esqueleto. E como as caveiras estão sempre sorrindo, supus que ficaria feliz. Agradeci por ter feito os implantes, não ia suportar a gengiva cor-de-rosa da dentadura.

– Aqui está, box 39, só virar no terceiro corredor. Se precisar de ajuda para levantar a porta, me chama.

– Obrigada.

Ao entrar no galpão, me deu um mal-estar tremendo. Além de ser um lugar inóspito e se eu visse algo que me magoasse? Ou me deixasse aterrorizada? Quase voltei para perguntar se ela tinha noção do que o meu pai guardava ali. Mas se ela soubesse, aí sim eu ia ficar furiosa. Eles seriam cúmplices. Resolvi parar de besteira e seguir adiante. Só que assim que eu parei em frente do box 39, em vez de me aproximar da porta, comecei a andar como um siri. A cada passo para o lado, eu torcia para ser atingida por uma onda e levada para o fundo do mar. Se eu não lembrasse das bolotas que apareciam no meu rosto e que fechavam a minha glote toda vez que eu comia o maldito siri, teria continuado nesse vai e vem. Para não suscitar uma alergia psicológica, parei de mimimi e pus a chave na fechadura.

Por mais que eu tentasse levantar a porta, não conseguia. Como os meus braços estavam doendo muito, deitei no chão e comecei a deslizar meus pés pelas treliças de metal da mesma maneira que se corre numa esteira. Eu já tinha andado uns cinco quilômetros e suado alguns litros quando ouvi um barulho.

– Está tudo bem?

– Não muito.

– Devia ter me chamado…

Levantei depressa sacudindo a blusa para tirar a poeira. Sem olhar para a Marlene perguntei – Você ajudava o meu pai?

– Não, ele se virava sozinho. É questão de jeito.

Ela abaixou e num instante fez a porta subir, mas antes que fosse lá para cima, segurou a fechadura deixando só o que estava no chão da entrada visível. Depois se virou dizendo – Espero que encontre boas recordações do seu pai – e foi embora.

Dava para cozinhar uma paella na minha cara de tacho. Fiquei sem ar quando abri o resto que faltava e a luz acendeu. Meu pai tinha levado todas as lembranças das nossas viagens para lá. As coisas “cafonas” que minha mãe jogava fora. Das Matrioskas aos bonecos de barro do Nordeste. Até a harpa paraguaia estava ali e o CD com Una notte tíbia nos encontramos…” Tudo arrumado em estantes improvisadas de caixa de papelão. Quando cheguei lá no fundo, por pouco não desabei. O meu berço no canto com o cobertorzinho bege de urso. Chorei muito, muito mesmo. Minha vontade era virar um suvenir e nunca mais sair de lá.

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