O amor é como uma torneira
Ela abre e fecha
Às vezes, quando você pensa que está aberta, baby
Ela fechou e sumiu
(“Fine and mellow”, Billie Holiday)
A aglomeração na entrada indica que o homem que jaz na sala superior era uma pessoa popular. Subo os degraus do velório forçando a passagem entre as rodinhas formadas por homens de terno e mulheres de casaco pesado. Faz muito frio nos altos da avenida Doutor Arnaldo, na tarde em que vai ser enterrado o primeiro homem que amei na vida.
No corredor, topo com Célia, que saía do banheiro.
“Você é a última pessoa que achei que fosse ver aqui hoje,” me diz baixinho quando nos abraçamos.
“Pra você ver como a vida é capaz de nos surpreender”, respondo.
“A vida e a morte”, suspira fazendo um aceno em direção à sala atulhada de flores. Tem tanta gente que de onde estamos não dá para ver o caixão.
Ficamos caladas por um tempo em meio ao burburinho. As pessoas à nossa volta parecem excitadas demais para a ocasião. Me faz pensar numa festa, só que sem música e sem bebida.
…mas ele vendia saúde… ontem mesmo nos falamos… no auge da carreira… é, durante o tênis… basta estar vivo… não acredito ainda… mulher e três filhos… largou a raquete e caiu… indicado para o board… e tão bonito…
Saio do transe com Célia me agarrando o braço. Vamos até um terracinho, onde há mais espaço.
“Chegou quando?”, ela quer saber.
“Faz dois dias. Ia te ligar para combinarmos algo, mas aí vi a notícia nas redes.”
Conto que tenho duas semanas de folga. Com o fim do inventário de minha mãe, vim resolver as últimas pendências legais. “Você não é corretora de imóveis agora?”, proponho. “Então, queria que você vendesse o apartamento dela…”
Antes que Célia possa responder, um homem aparece por trás dela e lhe dá um peteleco nas costas.
“Ora, ora, se não é a tigresa da Shell!”
“Celso… Eu sabia ser inevitável encontrar você aqui, né?” Minha amiga não faz questão de se mostrar simpática ao recém-chegado.
“Nem tanto”, diz o homem sem acusar o golpe. A empresa ainda tem mais de mil funcionários, sabia?” Ele mantém o sorriso que deve ter custado várias sessões de harmonização facial. A essa distância, consigo identificar aplicação de toxina botulínica, preenchimento, clareamento dos dentes… o sujeito é um catálogo de clínica ambulante.
“Celso, lembra da…”
“Você é a Duda, não?” Ele se volta para mim numa pose estudada, como se já tivesse me reconhecido. Mais que isso, age como se eu fosse o objetivo primordial de sua abordagem.
“Sim, doutor Celso”, respondo sorrindo. “Maria Eduarda, que trabalhava com o doutor Fernando.”
“Eu bem que tinha te reconhecido.” Os incisivos de pérola cintilam.
“O senhor tem boa memória”, continuo. “Nós nos vimos só duas vezes.”
“Pode até ser, mas o Dinho falava muito de você.”
Desvio a conversa para a figura do morto. Celso conta que o coração parou sem aviso durante uma partida de tênis: “Você sabe como ele gostava de esporte. Toda quarta-feira jogava com uns diretores no clube. Eles só viram o Fernando soltar um gemido e cair de cabeça na quadra.
Ele fala agora quase dando as costas para Célia. Eu mantenho o sorriso e toco próprio meu cabelo. Ela entende a mensagem e se afasta. Celso está tão absorvido comigo que nem ouve o “com licença” que ela mastiga.
–
Reencontro Célia na procissão do enterro. Gosto de cemitérios, e o Araçá está entre os meus preferidos. Os túmulos mais suntuosos, dotados de capelas enormes e imagens em tamanho natural, se concentram na parte alta, junto à avenida. À medida que as alamedas descem em direção ao bairro do Pacaembu, as campas passam a exibir certa graça bucólica. Nas placas que restaram do vandalismo, sobressaem os nomes italianos. Eu adorava percorrer seus caminhos sombreados quando ainda morava na cidade. Nada a ver com os campos gramados e insípidos de San Diego, onde vivo atualmente.
De braços dados, Célia e eu acompanhamos a multidão, que faz uma curva para desviar de um trecho depredado por saqueadores. Passamos ao lado de cruzes quebradas, grades retorcidas a martelo e pedaços de estátuas jogados no chão. Em voz baixa, satisfaço a curiosidade de Célia. Ela sabe da minha relação com Fernando, mas não com Celso. Conto que marquei um encontro com ele à noite. Diante do olhar de seu espantado, digo que estou fazendo uma pesquisa sobre produtos químicos que não devem ser usados em tratamentos estéticos. Rimos discretamente enquanto o cortejo avança. Quando para, percebemos que alguém discursa à beira do túmulo. O vento que oscila as árvores impede que as palavras sejam entendidas àquela distância.
–
O garçom aponta na minha direção. Celso se aproxima da mesa com uma expressão esquisita no rosto. A pele em volta de seus olhos parece congelada, mas pelo movimento da boca imagino que esteja tentando rir.
“Quase não te reconheci de loira. Você é mesmo uma mocinha cheia de mistérios…”
“Gosto de surpreender.”
“E é muita coincidência você marcar aqui, bem na frente do clube.”
“Coincidências não existem”, digo casualmente. “Uns dizem que são os truques de Deus. Mas também podem ser do diabo, concorda?”
Ele não responde. Segura um garçom que passava e pede um gim-tônica escuro.
“Sex on the beach para mim”, falo com a entonação mais séria de que sou capaz.
“Grande pedida!”, ele quase grita. Percebo que meu comportamento o deixa desconfortável.
Peço que Celso conte de si, o que ele faz com um prazer perceptível. Fala da ascensão na carreira, dos três casamentos sem filhos, da expectativa pela aposentadoria iminente. Toma quatro taças de vinho enquanto discursa. Até que para de falar, diz para eu pedir outra garrafa e vai ao banheiro.
Quando volta, digo que adoro a música que está tocando ao fundo: “É a história de uma mulher que ama um homem que a trata muito mal. É da Billie Holiday.”
“Holiday? Parente daquele deputado?”
“Nada a ver, sorry. Bom, agora é minha vez.” Conto o que ele já sabe. Que comecei na empresa como estagiária no setor chefiado pelo Fernando. Ele se apaixonou no meu primeiro dia e fez de tudo para me promover a secretária dele. Eu também fiquei deslumbrada no início. Até que entendi o jogo de sexo e poder que rolava no escalão mais alto.
“Sexo e poder?”, ele se espanta? “Do que você está falando?”
“De assédio mesmo. Exploração sexual. Ameaças de demissão. Chantagens. Abusos sem nenhum tipo de controle. Eu amava o Fernando no início, o que me deixou cega por um tempo. Até que resolvi cair fora.”
“E ele não quis deixar, né?”
“Sim. Só não conseguiu me mandar embora porque eu cavei uma transferência antes.”
“E foi para onde?”
“Califórnia. Aproveitei para estudar química na Caltech. Foi onde se formou o Walter White.”
“Quem?”
“Acho que você não conhece. É um personagem de série que deu uma virada na carreira.”
“Ahn, sei…” Ele me observa com atenção. “Escuta, você disse que nos vimos duas vezes, certo? Eu só me lembro de uma. Você ainda era secretária do Dinho.”
“E então, qual foi a segunda vez?”
“Foi numa festa que o Fernando deu. Tudo ia bem até que apareceu a noiva dele.”
“A Margarete, que casou com ele?”
“Sim. Ela tinha viajado, por isso ele deu a festa. Aí, quando a coisa azedou, ele mandou você me levar para casa.”
“E eu levei?”
“Sim. Primeiro queria me levar para o seu apartamento. Como eu neguei, tentou me estuprar no carro mesmo.”
“Eu? Não lembro disso!”
“Sempre tem a desculpa do álcool, né? Ah, bebi demais, ou cheirei todas, não lembro o que aconteceu…”
Celso me olha aturdido. Tenta chamar o garçom, mas sua voz não sai. Faz menção de se levantar: quase cai da cadeira.
“Olha, eu te aconselho a não se mexer muito. Só vai acelerar seu metabolismo.”
A expressão dele parece despencar, pelo menos até o ponto permitido pelo excesso de botox.
“Como você está um pouco pálido, deixa que eu preencho o silêncio. Eu disse que me graduei em química, certo? Depois, já fora da empresa, engatei uma especialização em biologia com ênfase em toxinologia.”
Faço uma pausa dramática: “Não precisa perguntar do que se trata. Vou explicar com um exemplo”.
Elevo a taça de vinho dele à altura do nariz: “Bom buquê. Nota-se a presença de conotoxinas com notas de batracotoxinas e um leve toque de tetrodotoxinas. Mas fique calmo. As substâncias produzidas por caramujos, sapos e certos peixes são inofensivas se administradas em pessoas saudáveis. Às vezes podem causar paralisia temporária, mas não costuma passar disso.”
De pé, ajeito minha peruca, dou um sorriso para a câmera de vigilância e deixo uma nota de duzentos sobre a mesa. Antes de sair, abaixo o rosto à altura do ouvido de Celso e sussurro de modo que só ele ouça: “A não ser que o paciente use aditivos contra disfunção erétil. Nesse caso, um ataque cardíaco não pode ser descartado”.
