(Leticia Eboli)
Minha barriga roncava grave como as Batidas de Moliére, os sinais que antecedem o início do espetáculo. Era a fome de uma dieta de jejum intermitente. O recurso desesperado para resgatar um corpo, que já pertenceu a um corpo de baile. Faltava um mês pros 50. E até que eu respirava aliviada. Sempre preferi o inferno astral a Agosto. E esse negócio de inferno dá azar. Azar dá azar. Não entendo porque o povo não usa falta de sorte.
Catei o abridor de latas na minha gaveta. O finquei no alumínio do atum. Olhei para os monitores que cobriam os dois sentidos da rua do condomínio. Nenhum carro no horizonte da terça-feira, apenas um senhor de chapéu caminhava na direção da guarita. Difícil ver pedestre não funcionário nesse condomínio à beira-mar, onde quem pegava vitamina D eram latarias de carros e helicópteros. Sol apenas nas lanchas em alto mar.
Nem havia chegado a deslizar o abridor o suficiente para esculpir um sorriso na lata, quando li estampada no topo a sua sentença de morte: Validade – 08/09/22. Há alguns anos, entre turnês e lesões desenvolvi a síndrome do intestino irritável e uma nova superstição para a minha coletânea: perto do meu aniversário não poderia ingerir nada que morresse antes de mim.
Restava ao atum sete dias – e sobreviver a um feriado de independência – para bater as botas em paz. Mesmo com pena, minhas mãos deslizaram para longe dali. O abridor foi para cima da mesa e minhas memórias vestiram sapatilha de ponta até o meu último ensaio, quando cheguei a iniciar o pas deux deux com o Alessandro, e no meio de uma pirueta desisti. Não por medo, mas por certezas. A validade das alianças e sapatilhas tinha chegado ao fim. Me divorciei e decidi me aposentar da companhia.
Olhei para o monitor e vi aquele senhor mais perto, até ele virar um zoom de íris nublada e batidas fortes na janela da cabine.
“Pá pá pá pá”
“Pois não. Como posso ajudá-lo?”- Falei sem paciência
“Oi, Fernandinha. Você ta aí, né?.” – Ele disse.
“Boa tarde, senhor, me chamo Rosana.” – Respondi firme.
“Ah, Fernandinha?! Lá vem você me pregando peça, menina. Estou procurando a sua mãe, você sabe onde ela foi?” – Ele disse com mais pressa do que a minha fome.
“Olha, o senhor deve estar se confundindo.” – Eu respondi em vão. Ele já havia partido em direção à rua.
Fechei a janela e voltei para a minha comida. Encarei de canto de olho a lata. Se não fosse pelas marcas do abridor, nunca diria que aquelas linhas da vida estavam com dias contados. Peguei meu Tupperware de salada. Rúcula, folha de beterraba, alface, taioba, tomate. Era o suficiente por hoje. Se teve uma coisa boa nisso tudo foi poder ter a minha hortinha. O sonho da academia de dança de 9 em cada 10 bailarinas aposentadas foi varrido com a pandemia.
Abri a minha gaveta para pegar os temperos. Ao lado do sal, pimenta do reino e azeite, a caixinha de música. Coloquei todos sobre a mesa, temperei a salada e dei corda na bailarina de madeira, que girava obediente a Pour Elise.
Mastiguei de boca aberta aquele mato no único alongamento possível quando se está em uma cabine-coxia, espremida, escura e de onde eu podia ver recortes do mundo, mas ninguém me via. Trabalhar 12 horas – dia sim, dia não – na empresa de vigilantes era o que vinha me dando o dinheiro certo ao final do mês enquanto eu recomeçava na dança com aulas particulares.
“Pá pá pá pá” – escutei novamente o som agressivo no vidro.
Cheguei a colocar as mãos sobre o botão de emergência, mas levantei a pequena janela.
“Fernandinha, não encontrei a sua mãe” – ralhou ele zangado.
“O senhor está hospedado aqui em que apartamento, casa?”
Ele envergou a coluna, pescoço até enfiar 100% da cabeça grisalha dentro da cabine. Ficamos cara a cara naquele cubículo de monitores onde em um deles acenava o motorista do 501.
No automático, apertei o botão levantando em um e dois e três e quatro a cancela. Entrou o BMW cereja. E cinco, seis, sete e oito a baixei, perdida no olhar de peixe daquele senhor.
“Essa música, Fernandinha, se lembra da sua festa de debutante?”
Sorri demonstrando simpatia.
“Vamos dançar. Ele retirou a cabeça, pescoço e ergueu o que pode da coluna dando a volta na guarita em direção à porta.
Saí apreensiva.
“Vamos, menina!” – Disse ele estendendo o braço, onde consegui ler na tatuagem: “Convivo com Alzheimer – Mathias” – embaixo tinha o que parecia ser um telefone que não tive tempo de ler.
“O senhor se chama Mathias?”
“Shiii, menina. Assim não escutamos a música. Vamos. Vamos, dançar.”
Ele segurou com força meu braço direito em posição de valsa e esboçou meio passo pra lá, meio passo pra lá de novo sustentando finalmente um sorriso no rosto.
A música acabou. Pedi para que ele se sentasse no banquinho à frente e me posicionei ao seu lado, salvando às pressas o número de telefone tatuado no seu braço no meu celular.
“O senhor, por favor, fique sentado aqui. Eu já volto. Ok?”
“Ah, minha filha, você vai colocar a música de novo, né?”
Concordei com a cabeça.
Entrei na cabine, deixando a porta aberta. Chamei o número anotado enquanto dava corda na caixinha novamente.
“Ploft” – um estrondo seco de uma nota apenas.
Pulei da cadeira derrubando caixinha e lata de atum. Seu Mathias caído no chão na porta da cabine, com uma poça de sangue com sede de rio.
Dentro, a bailarina girando com os braços molhados de óleo do atum. “Rico em Ômega 3” dizia a lata.
