Figurinhas



(Bruno Vicentini)

Quando eu era criança, nunca consegui completar um álbum de figurinhas. Nunca passei nem perto. Tenho certeza de que isso me ajudou, de alguma forma, a virar a pessoa que eu sou hoje. Mas tenho dúvidas acerca de quem seria, afinal, essa pessoa. Alguém que coleciona incompletudes, que se acostumou à rotina do fracasso? Pode ser.

Todo ano era a mesma coisa: apareciam nas bancas de revista os álbuns de figurinhas do Campeonato Brasileiro. O cheiro das bancas me inebriava. Papel, cola, chicletes, domingo. E eu, que não torcia pra time nenhum, que ignorava o esporte que nos definia enquanto país e que era sempre um dos últimos a ser escolhido nas aulas de educação física, pedia pro meu pai, com olhos de cão abandonado, pra que me comprasse o tal álbum. Ele comprava, meio a contragosto. Tendo dito sim, antecipava as diversas vezes em que teria que dizer não, durante os próximos dois ou três meses, quando o filho choramingasse e esperneasse, como um viciado, por mais figurinhas, que vinham em pacotes de cinco. Pra completar o álbum, eram necessárias mais de quatrocentas. Meu pai, àquela altura, já tinha compreendido duas coisas: 1) que o seu dinheiro não chegaria; 2) que o álbum do ano anterior ainda tava lá, dentro de alguma gaveta do meu quarto, esquecido, incompleto, os times todos desfalcados, incapazes de compor o escrete de uma mera pelada, um símbolo evidente da minha inaptidão pro colecionismo.

Porque se por um lado papai não me comprava figurinhas suficientes, por outro era esperado que eu trocasse os cromos repetidos, que me engajasse num escambo infantil frenético, pro qual eu não tinha mesmo nenhum talento. Minha timidez me impedia de transacionar com desconhecidos. Na época não havia encontros de troca, tudo acontecia no colégio, entre meus iguais, entre supostos amigos, mas a minha falta de jeito pro comércio fazia com que eu me metesse em maus negócios. Alguém dizia que o goleiro do América de Natal era o mais raro do álbum de noventa e oito, e pedia dez cromos em troca. Eu aceitava. Não me sentia tentado a defender o valor das minhas próprias figurinhas, a advogar de graça por jogadores de futebol.

Após esse rosário de malogros, seria natural que eu deixasse tudo isso de lado, ora, esse negócio de colecionar gravuras de jogadores de futebol não parecia ser mesmo pra mim. Mas no ano seguinte, tudo se repetia. Devo me assumir um palerma, um piá pançudo, um masoquista? Por que eu nunca abandonei os álbuns de figurinha?

Eis uma resposta que eu não tenho. Existia uma espécie de prazer físico em remover com cuidado a película de trás da gravura, puxando pela beiradinha, como quem puxa um curativo, uma unha quebrada pela metade. Os dedos me tremiam, me traíam, enquanto eu tentava fazer com que a figurinha não ficasse (muito) torta. Por fim, observava o resultado, o retrato meio oblíquo do jogador, ao lado de uma fileira de retângulos vazios. O que aconteceria se eu um dia os preenchesse? O que fazer depois?

Recentemente, uma rede de supermercados criou uma promoção que me atirou de pantufas na minha infância: a cada vinte reais em compras você ganha um selinho adesivo, pra colar numa cartela que, depois de preenchida (ou seja, depois de se gastar uma fortuna com mantimentos, a ordem do dia), pode ser trocada por um item doméstico, um pote, uma panela. É uma verdadeira febre. Perto do prazo final da promoção, surge uma turba de velhinhas ensandecidas, que atacam os clientes do mercado na fronteira dos caixas, pra perguntar se eles tão participando da promoção, se elas não poderiam por favor ficar com os selinhos da compra. Quando uma delas me aborda, eu sorrio e, nos nossos olhos, vigora uma espécie de cumplicidade.

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