Reset

No Aeroporto de Newark, a esteira número três do terminal de bagagens circula vazia. Todos os demais passageiros do voo de Guarulhos já pegaram suas tralhas e foram para o mundo real. Eu ainda estou em lugar-nenhum, aquela zona interdimensional insípida das chegadas e partidas. Confiro o relógio na parede: 4:57 AM. É oficial. Minha mala se extraviou. Com uma pequena mochila nas costas, procuro o balcão, onde um funcionário me passa um formulário e pede descrição do conteúdo. Então, pela primeira vez nessa nova vida, minto.

Entre um monte de roupa velha, um guarda-roupa completo para cada estação do ano, incluo uma Pentax K-1000, um jogo de lentes e um flash. Era uma mala enorme, cabia tudo isso mesmo. Mas tirei na última hora. Quem eu queria enganar? Aquele equipamento pertencia ao meu pai e ficou esquecido no armário por anos. Pensei em fazer uso dele na minha temporada americana pós-faculdade, mesmo sem nunca ter colocado filme naquela câmera. Nem sabia mexer. Antes de embarcar, pedi para meu primo guardar até a minha volta. Porém, com a declaração à Receita Federal nas mãos, anoto tudo na ficha de perdas.

Já uso o casacão novo, tipo de esquiador, para suportar o rígido inverno desse 1999. Na bagagem de mão, tenho agasalho de moletom, luvas, cachecol, gorro, meião, e, em pares, camisetas e cuecas. Até uma segunda pele minha mãe insistiu que eu comprasse. Frio não passo. Também tenho a documentação da escola de idiomas e da residência estudantil. Os dólares estão no porta-dinheiro junto ao corpo, espetando minhas bolas. Carrego ainda um último item, um fichário com dezenas de informações sobre Nova York, fruto da pesquisa na internet, meses imprimindo mapas e dicas, para chegar à cidade sabendo quando e onde devo ir.

Tomo um táxi para Upper East Side. O motorista comenta que vai pegar a 95 até a Washington. Não sei o que isso significa. Devia ter decorado todas as entradas na ilha. Bem possível que meu fichário na mochila saiba essa informação. Em vez de conferir, digo, sem completar a frase, que a essa hora da manhã é melhor mesmo ir por aí. Puxando assunto, pergunto se nevou muito na última semana. Ele diz que tem até evitado cruzar o parque. Também só posso imaginar a relação de uma coisa com a outra. Mas enrugo o nariz e a testa e solto algo como sei bem como é.

O taxista é um homem negro por volta dos quarenta anos. Não sei dizer se obeso, forte ou está apenas agasalhado demais. Parece grande e largo. Sem pescoço, não move a cabeça. Às vezes, seu olhar rebate em mim pelo espelhinho. Ele me analisa aos poucos, como se tirasse várias fotos em close e depois tentasse montar pedaço a pedaço. Pergunta se venho do sul. Pronto. Já me sacou. Rapaz latino-americano. Ou não. Sou branquelo de cara rosada, meio loiro, meio ruivo… Ele arrisca Nova Orleans. Digo que nasci em Berlim Oriental, mas meus pais fugiram em um balão comigo no colo e cresci na Groenlândia. Ele tenta esconder o espanto e só afirma entender agora de onde vem meu sotaque.

Ainda está escuro quando vejo os arranha-céus de Manhattan pela primeira vez. Estamos passando por uma ponte. Não sei qual, ainda tento montar o mapa na cabeça. Imaginava esta cena diferente, mais cinematográfica, identificando o Empire State ou o World Trade Center. Não, esse ângulo não aparece em filmes, nenhum herói entra por aqui. Deve ser a porta dos fundos. Fixo o olhar na paisagem, depois desvio. Evito parecer um turista deslumbrado. O motorista, porém, está mais preocupado com a pista escorregadia do que comigo.

Tenho a impressão de que já demos a volta ao mundo. Do nada, saímos de uma via expressa à direita e entramos na 96. E, de East. Enfim, algo que reconheço. Acho que viemos pelo norte então, contornando o Harlem. Um pouco mais e viramos na Lexington, direção sul. Mal me localizo e já vamos chegar. Quando paramos diante do meu destino, segue escuro. Talvez já seja dia em algum lugar. Mas aqui é tudo prédio e o horizonte só existe no alto. O motorista diz que vai me esperar. Sobrevivi ao comunismo atrás da Cortina de Ferro, não vai me deixar morrer na capital do Mundo Livre. Agradeço, embora saiba que, em um sábado congelante, não há viva alma na rua, muito menos com uma faca.

Testo a entrada principal da 92nd Street Y, a instituição onde fica a residência estudantil. A porta principal está trancada e, pelo vidro, não vejo nada lá dentro. Meu amigo ao volante aponta para outra entrada, bem menor e discreta, mais perto da esquina. Olho para o alto e entendo. São duas torres do mesmo edifício. Vou até lá e espio pelo vidro embaçado. Alguém vem me atender. Um sujeito grisalho abre uma fresta. Tem olhos azuis claros, quase cinzentos. Explico que tenho uma reserva ali. Ele me deixa entrar e aceno para o táxi, que parte em seguida. Só me dou conta da intensidade do vento lá fora quando o homem fecha a porta atrás de mim.

Bill, ele diz. Confuso, busco na mochila um voucher, qualquer documento que confirme minha reserva. Quase derrubo tudo. No, no, my name is Bill, William. O segurança está com o braço estendido, aguardando meu cumprimento. Solto uma risada, balanço sua mão mais vezes do que o necessário e desando a falar, tentando explicar a confusão. Faz mais sentido na minha cabeça do que na minha boca, talvez tenha usado os verbos errados, ou nem utilizei algum. No meio do falatório, percebo que o antigo Alex ainda se faz presente em mim e me calo.

Bill me dá boas-vindas. Diz que o escritório está fechado a essa hora, mas talvez tenham deixado minha ficha pronta aqui na portaria. Dos meus 23 anos, eu o enxergo com uns sessenta. Mas não deve ser tão velho, só tem mãos de velho, pálpebras caídas de velho, nariz e orelhas escorridos da ossatura, como um velho. Sua vestimenta possui tantas camadas que ele perdeu as articulações. Movimenta-se como um boneco Lego. Da gaveta da escrivaninha, saca alguns envelopes medianos. Pergunta meu nome e depois o repete como um mantra ao conferir cada etiqueta. Ale-xanderAle-xanderAle-xander… That’s it.

Meu quarto é o 1065. Segundo Bill, vou preencher um formulário de entrada mais tarde, quando aparecer alguém na secretaria. Por ora, posso subir e relaxar. Pergunta sobre minha bagagem, se só vim com essa mochila. Adoro essas perguntas. Elas oferecem múltiplas oportunidades. Em um lugar no qual ninguém te conhece, ninguém espera nada de você. Viajar é pausar o jogo da vida real e experimentar um simulador de personas, com o qual treinamos outras versões nossas. Respondo que sigo uma filosofia minimalista baseada no uso consciente de cada objeto, incluindo roupas, eletrodomésticos e cacarecos. Carrego comigo tudo que preciso para sobreviver. O porteiro reconhece que todos precisam fazer sua parte para um mundo melhor.

Pego o elevador até o décimo andar da torre dois. Sonho acordado em mergulhar na cama e dormir até o almoço. O voo destruiu minhas costas. A luz sobre o meu assento foi a única do avião a permanecer acesa o tempo todo, pois não consigo dormir sentado. Fiquei estudando minha cartilha de Nova York. Sei que, saindo à direita da 92stY há um mercadinho. À esquerda, um diner. Quase em frente, uma quitanda. Na minha mente, já caminhei por todo o bairro, assim como os arredores da escola de idiomas. Tenho o itinerário completo do primeiro dia sozinho em minha nova cidade. Mas preciso descansar um pouco. Pena que, ao abrir a porta do 1065, vejo alguém deitado na cama.

Um rapaz asiático – chinês, acho – acorda no modo de segurança após minha invasão. Protege-se com o travesseiro e me aponta o abajur. Peço desculpas, em português, e confiro o número na porta. 1065. De novo, falo sem parar, tentando explicar que cheguei agora, tenho uma reserva e me deram a chave desse quarto. I am here, you are not, ele diz. Tenho um acesso de riso, ao refletir sobre aquela frase metafísica e existencial. Eu estou aqui, portanto, você não pode estar aqui, pois dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço. Eu estou aqui, então eu existo, ao contrário de você, que não pode existir se não está aqui. Essa piração dura dois ou três segundos, até me dar conta do quão psicótico deve parecer o sorriso na minha cara em uma situação dessas.

Digo que aquilo é só um sonho, que sua mãe sente saudades de ouvir sua voz, que seu número da sorte é oito e que ele logo vai acordar e rir muito disso. Fecho a porta do quarto, corro até o elevador e aperto o botão do térreo. Impressão minha ou escutei uma gargalhada nervosa vinda do quarto 1065? De volta à portaria, reencontro Bill. Não faz nem duas horas que cheguei aos Estados Unidos e já matei alguém… de susto. Explico que meu quarto ainda está ocupado. Após refletir um pouco, o porteiro culpa a administração pelo engano.

Agora preciso esperar o escritório abrir para resolver isso. Mas só à tarde. Sem pertences e sem um teto. Eu deveria me desesperar? Acho que sim, não fosse esse comichão por apagar todo o meu passado e recomeçar, do zero, do modo que eu bem entender. Reset. Muito tentador. Desapareço na minha terra e ressurjo aqui, praticamente, um teletransporte. Atencioso, Bill abre uma sala de reuniões ao lado e volta com uma cadeira para me acomodar. Já posso ir atrás de um café? Bem, com a friaca, melhor não sair sem rumo por aí.

Da gaveta, o porteiro tira uma garrafinha de uísque. Jameson, irlandês igual meu novo melhor amigo, como logo descubro. Um pouco cedo para beber, mas não sou de fazer desfeita a um apreciador de drinques. Ele diz que aquilo vai me aquecer, serve dois copinhos descartáveis pela metade e brindamos. Depois, relembra sua vinda a Nova York, trinta anos atrás. Conquistou o Greencard ao se casar com uma americana. Divorciaram-se após o nascimento da filha, que não vê há quase uma década.

Quando me pergunta o que me traz aos Estados Unidos, revelo procurar pelo meu pai biológico, um desconhecido para mim, pois imigrou para cá antes do meu nascimento, largando minha mãe grávida. Bill fica curioso, quer saber o que pretendo fazer ao encontrá-lo. Ainda não decidi, talvez dar um abraço, talvez cortar sua garganta. Nossas risadas ecoam pelo lobby vazio. Ele interrompe, por um instante, com certeza avaliando o peso das minhas palavras. Deixo-o na dúvida, mudo de assunto. Será que o mercado ainda não abriu? A comida do avião evaporou faz tempo, já é hora do café da manhã.

O sinal do elevador da portaria principal apita. O prédio começa a despertar. Demora um pouco até um rapaz calvo e barbudo aparecer, vestindo uma jaqueta de naylon amarelada. Está acompanhado de uma loira sardenta de cabeleira enfiada em um gorro, mãos protegidas nos bolsos do casaco vermelho. Mostarda e ketchup param diante das caixas de correspondências. Cada habitação tem a sua. Não custa dar uma olhada para ver se chegou algo em meu nome, quem sabe até da secretaria. Nada, vazia. Mas ouço quando o casal conversa em português de Portugal e me intrometo buscando refúgio na comunidade lusófona.

Brasileiro? Que fixe. O pá, te deixaram sem alojamento, foi? Do piorio. E o pequeno almoço, já comestes? Em menos de dez minutos de papo, estou saindo com meus novos melhores amigos para comer no diner ao lado. Somos os primeiros clientes do dia. Por sugestão deles, peço à garçonete as panquecas com maple syrup. Rodrigo é um arquiteto lisboeta, Laura, uma enfermeira de perto do Porto. Ao contrário do que eu imaginava, não são namorados, apenas amigos do mesmo curso de Inglês que farei a partir de segunda-feira. Ele chegou há mais tempo e só tem mais uma semana antes de voltar à Europa. A ela resta ainda um mês pela frente.

Falo sobre meu irmão português, do primeiro casamento do meu pai, cinco anos mais velho. Nenhum dos dois compra a história e eu me arrependo por ter dito a verdade desta vez. O real é insólito e o maior dos absurdos, palpável. Se eu tivesse falado que sofro de amnésia recente desde que levei um tiro na cabeça em uma tentativa de assalto e não me recordo dos últimos sete anos, nos quais segui a carreira de ator e estrelei uma novela de grande sucesso, eles estariam agora em um telefone público contado para a parentada do outro lado do Atlântico.

Enquanto comemos, Rodrigo diz que vai alugar um carro e dirigir até Chicago hoje mesmo, aproveitando seu último fim de semana de férias. Pergunta se não queremos fazer companhia. Acho que se dirige apenas a Laura, mas estou aqui, deve ter se sentido obrigado a me convidar. Para sua surpresa, aceito sem ponderar. Estou me desviando muito do meu propósito? Que propósito, afinal? Não tenho nada que me prenda a Nova York até segunda-feira. Como seríamos um trio, a portuguesa também não vê problema. Se fosse só com o patrício, seu noivo reprovaria, enciumado. Pelo visto, ele não tem muita imaginação e fica sossegado sabendo que ela vai com dois caras.

Uma hora depois de conhecer os portugas, estamos no metrô a caminho de uma locadora de automóveis. Nem avisei minha família de que cheguei bem e já estou mudando os planos por completo. Mas esse novo eu faz coisas assim. Sinto vergonha de ter trazido aquela pasta repleta de planejamentos inúteis. Agora, vou no improviso. Rodrigo pergunta se dirijo. Sim, claro. Na verdade, tenho um 4×4 e, certa vez, cruzei com ele a Argentina inteira, saindo de São Paulo e chegando a Ushuaia. Meu amigo se entusiasma. Agora, vai ser mais fácil pegar estrada, segundo ele.

Fico pensando qual seria o limite para as novas personalidades que posso criar longe do meu habitat. É provável que não deva esbanjar uma habilidade que não domino. Ainda mais se for de fácil comprovação. Não posso espalhar que tenho uma banda de rock e já toquei guitarra na gravação de discos celebrados se, para me desmascarar, basta alguém sacar um violão e me pedir para tirar qualquer canção do Bob Marley. Como bancar o chef de um restaurante estrelado no coração da Amazônia se nem meu arroz fica passável? Nada de escolher profissões como médico, por exemplo. Vai que sou tragado para alguma emergência. Tenho que aprender algumas coisinhas antes de encarnar certos personagens.

Já pegamos a I-80 em um Honda Civic. Ao volante, Rodrigo sacou um CD com a trilha sonora da comédia “The Blues Brothers”. Mandou direto a faixa dez: “Sweet Home Chicago”. Demoramos mais do que gostaríamos para alugar o carro, então comemos sanduíches de queijo e presunto que nós mesmos preparamos na residência, um almoço na estrada. No banco de trás, Laura se sacia sozinha com um saco de salgadinhos e deixa cair farelos em sua roupa. Do banco do passageiro, observo cada movimento do motorista. Câmbio automático. Isso facilita ou complica? A última vez que dirigi foi na prova de habilitação, em 1995. E não passei.

Quando a portuguesa me pergunta o que faço no Brasil, minha resposta é automática: jornalista. Teria pensado em algo mais interessante do que a verdade, mas me distraí tentando lembrar das aulas de direção. Então, dou detalhes. Fui enviado pelo jornal em que trabalho para umas férias forçadas depois de assinar uma reportagem na qual denunciava policiais por execuções sumárias. Recebi ameaças de morte e foi mais seguro me esconder no exílio. Ela gagueja um pouco e eu a tranquilizo, dizendo que ninguém sabe que estou aqui e, dentro de alguns anos, ninguém mais vai se lembrar do caso no Brasil.

Pegamos muita chuva e trânsito pesado, o que está nos arrastando. Cerca de três horas de viagem e paramos em um posto de serviço para reabastecer e tomar um café quente. Também pegamos um pack de cerveja, já pensando adiante, na chegada. No caixa, pergunto ao atendente se ainda falta muito para Chicago. Ele ri. Sim, umas dez horas talvez. Começo a achar que calculamos errado essa aventura. A essa hora, planejava já ter rodado pelo bairro, talvez estivesse visitando o museu Guggenheim, pensei até em assistir a algum lançamento no cinema. Atrás do balcão da loja de conveniência, há um mapa enorme, com o estado da Pensilvânia em destaque.

Enquanto bebericamos o café, discutimos se não é melhor mudar de destino, conhecer outro lugar. Meus amigos estão de acordo. Que tal ver as cataratas do Niágara? Com o dedo no mapa, Laura mostra que podemos seguir rumo ao norte. Estaríamos lá em umas quatro horas, se tudo der certo. Sim, boa ideia. Encontramos a placa para a US-15 e, antes de voltarmos ao carro, Rodrigo coloca as chaves na minha mão. Sou o último a entrar. Coloco o cinto de segurança, ajusto o banco, regulo os espelhinhos. Sinto uma certa expectativa sobre meus ombros. Então vamos lá.

Chave no contato, giro uma, duas, nada. Na terceira sinto a ignição, mas para. O freio, preciso pisar no pedal do freio. Sensível, vai com calma. Motor acionado. Seguro o câmbio. Parece mais um controle de videogame. Aperto o botão e coloco em D, de drive. Depois de leve no acelerador e… freio de mão! Solto. O carro vai para frente e freio com tudo. Os portugueses me observam, após o balançar de cabeças. Falo que sinto uma falta danada da embreagem. Eles sorriem. Solto o pedal devagar, estamos nos movendo, bem devagar, na direção da estrada. Acelero aos poucos. Seta.

Estou dirigindo em outro país, sob forte chuva. E está anoitecendo rápido. Não há como errar, asfalto perfeito, tudo muito bem sinalizado. Mas meus ombros doem e sinto que estou esmigalhando o volante, tamanha a força com que o seguro. Meus passageiros não. De tão relaxados, tiram uma soneca quando o sol se põe de vez. Não demora e a chuva se transforma em neve. Sinto que faço mais força para nos segurar na pista, vento lateral, pista escorregadia. Que sorte ser um motorista experiente que já venceu até a Patagônia.

Ao mesmo tempo que a nevasca se intensifica, a estrada fica mais escura. Há poucos carros, sinal de que os mais sensatos nem querem sair de casa nessas condições. Aquele breu em frente, os flocos branquinhos vindo na direção do para-brisa. Parece que estou adentrando o hiperespaço no comando da Millenium Falcon. Sou Han Solo e me entrego a essa fantasia nerd, voando por uma galáxia muito, muito distante, com o Chewbacca aqui do lado e a Princesa Leia lá atrás, os dois no maior ronco e eu pensando se aquela luz vermelha que se aproxima é um planeta, uma lua ou um…

Carro! Desvio de dois veículos parados, puxo o freio de mão e tudo começa a girar, não sei quantos rodopios, até que estacionamos de costas para o sentido da pista, no término de um cavalo de pau. Estamos diante de uma saída da via principal, voltados para um neón gigante de um Inn qualquer coisa. Meus amigos despertam em pânico, sem entender por que seus cérebros continuam chacoalhando. Dou seta, coloco o cambio em D e acelero devagar para a entrada do motel de estrada. Confiem em mim, digo, com a pista escorregadia, o mais seguro é dormimos aqui mesmo.

A funcionária da recepção conta que a nevasca está causando muita destruição na costa leste e na região dos Grandes Lagos. Na TV do lobby, o noticiário atesta a informação. Pegamos dois quartos conjugados. Laura dorme em um, Rodrigo e eu no outro, mas há uma porta entre os dois. Esvaziamos a máquina de salgadinhos do corredor e colocamos umas cervejas para gelar na neve que cobre um quarto das nossas varandinhas. Laura brinda pela sorte de ter um profissional de rallys na condução do carro em um momento como esse.

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