A faca do porco (Carol Schettini)
Uma plantação de girassóis. Uma plantação de girassóis inteira compensa o tempo gasto nessa estúpida viagem de ônibus? Eu trabalho tanto. Tanto. Por que não comprei passagem de avião, helicóptero, jatinho. Um jatinho! Por que não aluguei um jatinho? Ah, lembrei! Porque não tinha pista de pouso perto do buraco pra onde vou. “Suvaco de cobra”. Minha mãe diria: “um suvaco de cobra”. Não tenho carro nem motorista. Aqui estou. Amargando horas e horas e horas num ônibus com falso ar. De que adianta ar condicionado se o cata-jeca para em todos os quilômetros?
A cada porta aberta, uma lufada de terra. Não foi muito bom ter escolhido o primeiro assento nem uma roupa clara. Viajar de ônibus e avião, eita diferença. O motorista para pra pegar uma marmita e entregar algumas cercas depois. Para pra entrar um passageiro com uma galinha. Uma galinha normal, pelo menos. Imagina ir estrada afora com a Clara Nunes cantando “tô fraco, tô fraco, tô fraco”. Na hora em que o homem com a galinha entra o cachorro do assento três fica enlouquecido. Sua dona: “tio, tio… tio, tio”. Isso não estranhei. Eu sei como conversam com cachorro por essas bandas. Um dialeto todo especial.
Fui com Deco no aniversário de um parente em uma chácara. Não estavam esperando por mim. Na verdade, não estavam esperando por Deco com alguém. Pra eles, Deco seria sempre o irmão sem mulher, sem homem, sem ninguém. Quando cheguei, todos mudaram, dava pra ver. Viraram bonequinhos de playmobil numa cena na fazenda. Esquisito eles, pra mim. Esquisita eu, pra eles. Me acharam muito alta, muito magra, muito vegetariana, muito desbotada. Enfim, nunca mais nos vimos. Deco me colocou no grupo da sua família, onde ninguém sabia que eu estava até o dia que ele sumiu e vi alguém comentando: O Deco melhorou?
Fui obrigada a sair de trás da cortina e fazer um pronunciamento de duas palavras. Três. Cadê o Deco? Disseram: No hospital. Já está bem. Mais nada. E aqui estou eu, de roupa clara, sandália rasteira, cabelo num coque alto, admirando os girassóis pela janela. Eu devia ter vindo de azul pra me sentir num quadro de Van Gogh.
Sigo esperando qual o próximo bicho a entrar na nossa arca, quando o motorista para o ônibus e desce, sem avisar. Como todo mundo desembarca, imagino ser a última parada. Uma rodoviária sem rua, imitando o ponto de ônibus do subúrbio da cidade grande. Podiam mandar grafitar o muro. Olho em volta. O suvaco de cobra é ajeitadinho. Com a minha sacola de viagem pro fim-de-semana (por que não trouxe uma mala de rodinhas?!) rumo ao hotel. A placa em frente a casa que se faz passar por hospedaria é ótima: Hotel Riti. Gostei! Quem batizou o hotel era um bom espírito de porco. A pessoa já dormiu no Ritz em Paris, na Place Vendôme, agora se hospeda no Riti em frente à praça. Essa pracinha tem nome? Vou sugerir na prefeitura.
— Oi. Fiz minha reserva por telefone.
— Vai pagar dinheiro ou cheque?
Cheque? Ainda existe cheque? Sempre penso que, com a evolução das coisas, o objeto anterior fica obsoleto e se extingue. Não foi assim com os dinossauros? E a caneta de pena? Não conheço vivalma que roube a pena do rabo de um pavão pra molhar em um potinho de nanquim. Todo mundo tem uma bic na bolsa. E carro com duas portas? Numa outra vida, aluguei um carro às pressas. Quando trouxeram aquele carrinho com duas portas, fiquei chocada. Cho-ca-da!
— Posso pagar com cartão? Ou pix?
— Difícil, dona. Depois a senhora pega dinheiro ali no banco. A senhora é parente de quem?
Parente de quem? Será que na ficha de hospedagem vai ter um espaço pra colocar se conhece alguém na cidade tal qual visto americano?
— Vim ver o Deco. Está no hospital e.
— Coitado! Uma facada daquelas!
— Facada?
— Com a faca do porco, ainda!
— Facada? Do porco?
— Se ainda fosse com a da galinha, não seria tão apontada.
— Galinha? Porco? Faca?
— Sabe, né? Pra galinha, a faca tem que ser bem afiada. Pro porco, tem que ser pontuada na hora de enfiar no suvaco e.
— Suvaco? Porco? Senhor!
— Acidente assim. Bebida. Dizem que bebem muito por lá.
— Acidente? Bebida? Por lá?
O rapaz segue falando palavras desconexas pra mim. Um monólogo capiau. Eu pensei no Deco dando um chilique do mesmo jeito que deu em casa. Há mais ou menos dois meses, sentiu uma dor nas costas tão grande, se deitou no chão da cozinha e ficou lá, sem se mexer, por mais de treze horas.
— Quem contou tudo pro senhor?
— Sabe, né? Cidade pequena. Comentam.
O falador coloca a chave na maçaneta, abre a porta do quarto e me deixa sozinha. Eu atravesso um portal para o passado: estou na casa da minha tia Soraia. Igual, igual. O paninho de crochê debaixo do abajur cor de carne (música do Richie numa hora trágica dessas?!). As cortinas não eram de seda.
Gente, o Deco levou uma facada! Largo a mala no chão, nem troco de roupa. Vou pro hospital sozinha, sem conhecer ninguém. Sem ver qualquer pessoa que possa ser parente dele. A cidade pequena parece bem grande pra mim. O hospital tem andar. Mais de um andar. Da recepção, me levam pra um quarto de um rapaz loiro, cheio de tatuagens e piercings. Esse não é o Deco. Chamo o enfermeiro e ele diz: peguei um frango. Não entendo, não peço explicação e sou levada pra outra ala. Entro no silêncio, Deco está deitado cheio de fios colados em seu corpo. Coloco minha mão no seu rosto, beijo sua testa com batidinhas, do mesmo modo que brincamos quando queremos acordar um ao outro em casa, no mundo feliz. Na quietude, a seu lado, seu sobrinho. Lembro dele. Era bem menor no século passado.
— Oi — eu digo — Sou Irina, noiva do Deco.
Tô mesmo uma galinha d’Angola. Prestes a ser descabeçada. Noiva? A gente mora junto e tal, namora, noiva?
— Oi, eu sei. — o sobrinho responde — Sou Dimas. O ti Deco tá dormindo.
— O que aconteceu?
— Foi na fazenda. Ele tava falando e.
— Deixa, deixa. Eu conto pra ela.
Um homem entra no quarto, fazendo com que Dimas se encolha tal qual um caramujo voltando pra sua casa. É Demóstenes, irmão mais novo de Deco. Um homem insuportável. Difícil definir alguém insuportável. Se eu escrevesse um dicionário, poderia fazer um verbete:
Insuportável (adj)
sinônimo de invejoso; aquele parente que não quer ver você feliz; tudo que você disser ou fizer, ele falará algo ruim ou ao contrário;
exemplo: se subir em um plataforma de vidro para ver a vista do alto de um cânion, ele dirá: pode quebrar.
Vidros trincam com a má energia alheia. Fato.
O homem começa:
— Foi uma bobice. Deco tava cortando uma galinha e caiu em cima da faca.
— Da faca do porco?
— Faca do porco?
— Ele tava cortando galinha com a faca do porco?
— Que cê sabe de faca? Ih…
Demóstenes sacode os braços ao mesmo tempo em que o médico entra no quarto. O Dr. Valentim (é o nome do médico) explica que Deco vai acordar aos poucos, mas não sabe o quanto ele vai se lembrar, foram muitos remédios e blá blá blá blá. Vira pra mim e me entrega uma sacola plástica. Grande.
— As coisas que estavam com ele. Roupas, celular, chave.
Não pede nem pra eu assinar e vai embora. Como se estivesse entregando uma vida ou um homem morto ou uma melancia ou nada. Coloco dentro da minha bolsa, antes que Demóstenes peça pra ver. Dou outro beijo na testa de Deco e desço com seu sobrinho pra comer alguma coisa. Quase seis horas e me dou conta que estou oca. Levar a vida modelando tem suas vantagens. A maior delas: comida é um supérfluo. passo dias a água e gotas de novalgina.
No buffet, tudo remete ao porco. Ele está em todos os pratos. Arroz e salada é a salvação.
Sento na frente do quieto Dimas. Puxo assunto:
— Cê tava lá, né?
Ele não responde. Seu rosto é de uma tristeza só, como se fosse feito de lágrimas coladas em formato de quebra-cabeça.
— Vai comer só isso? — ele me pergunta.
— Sou vegetariana.
Ele não diz nada. Uma informação inútil. Uma esquisitice. Preciso saber o que aconteceu com Deco. Tento.
— Cê pode me levar lá?
— Na fazenda?
— É.
— Tá bom.
— Que dia? Hoje?
— Tá noite.
— Amanhã, depois que eu passar aqui no hospital. Pode ser?
— Tem que falar com a ti Dora.
— Você avisa, tá bom?
Não sei se ele assente. Sua cabeça faz um leve movimento pra baixo. Subimos pra despedir, acabou o horário de visita. Sinto o estômago pesado como se tivesse comido bolinhas de gude. O arroz. Óleo requentado. Dimas caminha comigo ao hotel. Comento com ele:
— Estou enjoada. O arroz tava com gosto forte. Não era azedo. Forte, sabe?
— É a gordura do porco. O ranço.
Gordura do porco? Não como porco nem galinha nem vaca nem pato nem rã nem bicho.
— Te falei! Sou vegetariana.
— Ué. Cê não comeu carne.
— Gordura de porco!
— Gordura não é carne. É banha. Banha branca. Uma pelota que tira da lata. Vale de nada.
Ele dá de ombros e vai embora. Não estou nesse suvaco nem há dez horas e já deixei de ser vegetariana. Por Deus!
O cansaço me atropela como uma onda gigante derruba um surfista despreparado. Todo conteúdo entregue no hospital está espalhado em cima da cama. A roupa do Deco lavada e passada, com um furo na camisa. Em séries policiais, seria um objeto de crime. Não neste local com sua própria dimensão. Sua carteira, seu celular, seu mini terço. Deco passava a primeira conta acima do crucifixo antes de rezar o primeiro Pai-nosso. Seguro-o com as duas mãos em prece, coloco sob meus olhos e choro.
