Amarelo com vermelho dá laranja

Ana sentiu o líquido quente espirrar na calcinha bege. O sangue espesso furou o shortinho de malha e desceu pelas laterais internas da coxa. Só deu tempo de botar a mão pra conferir: os dedos surgiram com cheiro de ferro, bem molhados. Ana correu pro rio, entrou de blusa branca e tudo, se alguém visse ia aparecer o sutiã, mas ninguém podia ver. O sangue era pra vir só semana que vem, mas com doze anos ele ainda não regula bem. Vem antes, vem depois, só não pode não vir, conforme ensinou a tia Deise, professora de catecismo.

      Domingo tá todo mundo na prainha, as garotas magras da escola, os meninos que têm grupo de pagode, os pais com criança pequena, os aposentados a fim de torrar a grana com cerveja. Não podem ver Ana pingando vermelho, vai ficar dentro do rio até a orla esvaziar, a mãe já estaria preocupada na hora que chegasse, onde você tava menina? Da próxima vez que atrasar assim eu te pego no chinelo. Tava dentro do rio, eu não minto, mãezinha.

      Não ia ter jeito, sabia que ia ter fúria da Dona Irene, mas terá que ser assim, a última a sair da água. A primeira hora passou e os dedos começaram a enrugar, eram dedos de uma velha, cheio de vincos, a pele amolecida, a unha já maleável. Ana gastou o tempo pensando nas desvantagens das espécies fêmeas, os incômodos e as situações como aquela, a qual se submetia pela primeira vez com certa sapiência e bastante medo.

O sol foi se pondo e foi ficando frio. Ana bate o queixo, pensa no banho quentinho no chuveiro elétrico que o pai colocou na época que conseguiu carteira assinada, resolve ficar pensando em imagens de calor para distrair o cérebro: o magma do vulcão que viu na apostila, o forno assando as tortas da mãe, o celular esquentando quando ficava muito tempo no Instagram vendo foto de moça bonita e rica, mas não deu jeito. Quando o sol vai pro oeste a água gela, mas a orla ainda estava com muita gente que não pode ver Ana espirrando os restos do endométrio, que nojo, só uma mulher porca faz isso, então fica abaixada ali, dentro da água barrosa, fica submersa, só a cabecinha pra fora, movimentos de bailarina pra espantar o tédio. Roda pra cá, roda pra lá, às vezes pula – de leve – dá pra ver o sutiã pela blusa colada no corpinho parrudo, as formas da cintura ainda não muito definidas.

      O que diria tia Deise sobre essa indiscrição de mostrar os peitinhos? Depois rezava umas avemarias, o importante agora era ninguém notar que ela já sangrava, virou mocinha, disse a mãe faz menos de seis meses, ganhou vergonhas e dois pacotes de Sempre Livre, e não entendeu o nome do absorvente porque se sentia mais aprisionada, o que aquele momento viria confirmar. A mãe ensinou também as contas, ainda que a professora de ciências já tivesse falado: dia 1, espera 30 dias, sangue de novo, depois conta mais 30 – às vezes 28 – que vai vir de novo. Não pode em hipótese alguma beijar homem no dia 15. Mas dessa vez veio antes da hora, no dia 24, se soubesse não ia à prainha, claro, se soubesse que o sangue ia vir ficaria deitada vendo programa do Rodrigo Faro, reclamando a tarde toda da dorzinha que dava no abdômen, a mãe fazia chá de gengibre e ficava até mais bondosa naqueles dias, por peninha da sua condição feminina. 

      A estrada amarela que o sol traçava no rio, amarelo com vermelho dá laranja, Ana pensava só pra distrair a cabeça. Ainda estavam lá os que gostavam do sol se pondo, tinha vezes que turista batia palma (não turista – exatamente – tava mais pra visitante), os de lá não, porque nasceram vendo o sol morrer bonito. Quem sabe agora era a hora de zarpar, tava todo mundo de olho no horizonte, ninguém ia ver Ana saindo do rio, ninguém ia ver nem se o sangue escorresse pela perna e pingasse no chão, como acontecia quando mijava e entrava no banho, o porcelanato branco que colocaram na mesma época do chuveiro parecendo exibir muitas bandeiras do Japão.

       Nem quinze minutos depois e tudo ficou escuro, era mais perigoso voltar pra casa, a bicicleta, que sorte, tinha o banco preto, depois era só passar um paninho com água, mas agora isso não importa, precisa encarar a água gelada, tem que ficar ali meio bailarina, meio peixeboi, até que todo mundo vá pra casa tomar seus banhos, jantar as sobras do almoço, ver Fantástico. Quem sabe a mãe se apiedasse, mas é mais provável que ficasse brava, não quero filha porca vazando pela orla pra todo mundo ver. Seu sangue algumas vezes vinha com força, o Sempre Livre não dava conta, manchava a calcinha e o jean ficava com um cheirinho ocre, tinha que esfregar na pia com Lux pra sair todinho. E se tivesse errado nas contas? Talvez tinha dado 28 e ela parou no 24, nunca foi esperta em matemática.

      Duas famílias ainda estavam lá com seus pertences de passar o dia – cadeiras de praia, guarda sol, boia pros bebês, comida e bebida nos isopores –  e também um grupo de moleques, que ficavam vadiando porque suas mães tinham filhos demais pra tomar conta, então não tomavam conta de nenhum. Tinham ainda os vendedores de água e o Lanches Da Prainha que fazia dogão num trailerzinho enferrujado. Tinha dona Graça que aproveitava o final de semana pra vender trufas e tinha a Luciana, filha dela, que vendia pano de prato. Ana sentia os tremores, tirava os braços pra espiar os pelos tudo arrepiados, as mãos e pés contraídas, em tons de roxo azulado, não ia ter jeito, era morrer ou sair dali. Ana respira, encara a margem, vai rezando pro sangue ter estancado com a temperatura da água.

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