Leandro Reis
Diante de certas portas, um homem pode fazer muito pouco. Mesmo o ditador é obrigado a procurar uma cadeira enquanto o monitor não mostra a sequência de letras que lhe interessa. A senha, entregue por um funcionário do aeroporto, permitiria que ele adentrasse uma outra sala, contígua àquela a que acabara de entrar. A vida comum devia ser uma sucessão de filas, de senhas, de pessoas entrando em portas, pessoas que não eram ele. O ditador não gostava da vida comum que era forçado a levar naqueles minutos antes de partir para o exílio. Já tinha passado pelo saguão do aeroporto, ajeitando os óculos escuros e o chapéu, andando em linha reta entre as cordas, como um rato. E no fim, quando era a sua vez de passar pelo detector de metais, um funcionário lhe entregara um papel e lhe apontara uma porta à direita. Deve ser a sala VIP, pensou. Mas a porta era pesada, não era uma porta de sala VIP, ficava difícil até passar com sua mochila de turista. Uma sala branquíssima, com cadeiras e luzes brancas, com paredes e uma outra porta branca, que guardava talvez a porta do avião. Devia ser só mais uma porta, mais uma catraca antes de embarcar. Achava estranho, mas o ditador não frequentava saguões de aeroportos há tanto tempo que o procedimento podia muito bem ter mudado. Podia ter dado uma ordem que já tinha se esquecido.
Não seria um exagero dizer que era a segunda fila que o ditador entrava nas últimas dezenas de anos. Toda a sua vida adulta tinha sido um desmande. Já era a segunda vez nos últimos cinco minutos que ele não tinha escolha. Na verdade, a terceira em algumas horas. Na noite passada, tinham lhe dito que não havia mais tempo. Os rebeldes tinham tomado a cidade e o general mais poderoso o havia traído. Na praça da capital, queimaram sua estátua e degolaram sua mulher e alguns agregados. Tomaram o palácio, seus quadros (a maioria autorretratos feitos por alunos do curso de Belas Artes com seu nome), sua coleção de carros antigos, seus animais silvestres, incluindo o último tigre-de-bengala do continente. Enfim, todo o protocolo. Sua sorte era ter um último criado leal, cujo ato derradeiro tinha sido lhe informar que estavam tomando tudo.
– Vão para um caralho. Meu tigre, não.
– Meu senhor, é preciso fugir.
– Vá para um caralho você também. Obrigado.
E desceu pelo túnel construído sob a banheira de hidromassagem, que terminava no banheiro do aeroporto, mais especificamente em uma cabine para sempre em manutenção. O pessoal da Inteligência era muito bom.
Ele abaixava os óculos com cuidado, revelando apenas uma fresta do rosto, para olhar a senha e depois o monitor. Por serem só letras não dava para saber se faltava muito para sua vez. As pessoas que entravam pela porta prometida com certeza tinham esperado muito menos que ele. Essa certeza se devia a paranoia inerente ao poder do ditador, porque mais cedo ou mais tarde os ditadores caem, traídos, como acontecia com ele, agora relegado a uma sala de espera, sem poder fugir do país que havia arruinado como um ditador tinha o direito de fazer. Como cochichavam as pessoas em volta dele, aquilo era revoltante. E ele estava, de fato, revoltado, embora a revolta não caísse bem para um ditador. O que o impedia de levantar e passar pela porta? Ninguém tinha o direito de lhe dar permissão. Havia um disfarce para ser sustentado, mas a raiva percorria sua corrente sanguínea. Acabou por gritar:
– Para um caralho! Empalem todos! Empalem todos num grande caralhão.
Mas ninguém pareceu se incomodar com a gritaria do ditador. Os que esperavam continuaram esperando; os que se levantavam, escolhidos pelo monitor, desapareciam pela porta. De certa forma, o ditador estava aliviado. O destempero podia levá-lo à prisão, à tortura, à morte. Era melhor a melancolia do desprezo do que a glória do sangue. Essa conclusão lhe deu força para esperar, e ele quase adormeceu, o chapéu engolindo a cara e fundando a treva dentro dos seus olhos.
E foi quando o chapéu ameaçava cair, deslizando até pousar no ombro, revelando a cabeça calva do ditador, revelando sua notória testa oleosa, que as letras exibidas no monitor corresponderam às que ele segurava nos dedos. O susto da fuga do chapéu o tirara do sono, e com alegria o ditador caminhou até a porta, encarando seus desiguais como um último ato de guerra.
– Putos empalados! Ainda volto para pegar meu tigre.
E então, com alguma dificuldade – pois aquela porta era, também, mais pesada que o normal – o ditador deixou a sala de espera.
***
Ao contrário da sala anterior, aquela não tinha qualquer iluminação. Tudo o que o ditador conseguia enxergar era a escuridão. Os óculos escuros tinham se tornado inúteis, o chapéu tinha se tornado inútil, pois ao contrário do ditador o escuro era democrático, ele não reconhecia um palmo à frente do nariz e ninguém podia reconhecê-lo. Mas também não podia se locomover. Quem garante que não caminharia direto para um fosso?
Uns metros à frente, aos poucos, um facho de luz se distinguia no alto, como vazado do teto. Ele deu alguns passos cautelosos, percebendo o piso de metal abaixo dos pés; e notou, à medida que caminhava, mais pés em volta dos seus fazendo o mesmo trajeto, embora evitasse olhar para os lados, porque algum daqueles empalados talvez o reconhecesse mesmo naquele breu.
Não precisaram caminhar muito até o fim da sala. Do alto, num teto impossível de enxergar, descia um pêndulo com uma pequena chama dentro, como um lampião. Em volta da chama, as pessoas giravam numa fila circular até uma portinhola de ferro instalada na parede. Quando chegava a vez, a pessoa estacionava de frente para a portinhola, que se abria e fechava rápido, num movimento de guilhotina, cuspindo uma folha de papel nas mãos de quem esperava. A pessoa recolhia a folha e caminhava em frente, desaparecendo na escuridão. O ditador já não sabia o que pensar.
Desta vez a fila andou rápido. O ditador parou na frente da parede e esperou a folha cair nas suas mãos. Era uma palavra só na página inteira, com uma fonte grande, escrita na vertical: DESPACHO.
Muitas coisas passaram pela cabeça do ditador: seus detratores o esperavam munidos de punhais; seus detratores o esperavam munidos de tochas e gasolina; seus detratores o esperavam com seu tigre esquartejado, cujo destino também seria o seu; mas não houve tempo para se fixar em nenhuma dessas possibilidades. Seus companheiros de escuridão voltaram a caminhar perto dele, e agora o ditador já torcia para que não se afastassem. Ele andou mais alguns metros sobre o piso de metal, até que o resto do bando pareceu parar, formando mais uma fila. Mesmo a contragosto, ele estendeu o braço e tocou no companheiro à frente, só para ter certeza de que não estava sozinho.
– Arrombado do caralho. Obrigado.
Apoiado num balcão, sob uma luz fraca mas suficiente para destacar-lhe a cara pálida, um funcionário recolhia as folhas e permitia a passagem das pessoas. Na vez do ditador, ele, que até então permanecia com a cabeça baixa, fitou a testa oleosa do ditador, que devia incomodá-lo com todo aquele brilho. O ditador não gostou daquela insolência; no entanto, a verdade era que estava com medo. Então deixou passar. O funcionário pegou sua folha e apontou à sua direita, onde um corredor se estendia até uma porta de correr. A permanência na escuridão já devia ter afetado a cabeça do ditador, pois ele seguiu o caminho indicado pelo funcionário sem esboçar sequer um palavrão.
A próxima sala não era realmente uma sala; também era escura, mas menos escura; havia uma lâmpada suspensa no teto, piscando, como se fosse apagar a qualquer momento; e era como se, muito devagar, ela começasse a se mover.
– Caralhão!
O ditador riu – pois não sabia mais o que fazer – quando percebeu que não havia mais a porta por onde tinha entrado. A sala pegou velocidade, e então ele se sentou num dos bancos. O ditador continuava a rir, e lágrimas desciam pelo rosto oleoso: sim, estava num vagão de trem. Estava finalmente indo para o exílio, fugindo de todo o mal.
Nas plataformas, à direita e à esquerda do trem, pessoas se amontoavam para ver o ditador passar – ainda que seus trajes civis e seu estado mental não fizessem justiça à sua condição de autoridade, ainda que o veículo oficial não fosse um carro conversível nem um blindado. Ele acenava para a multidão, abotoando a camisa florida até a gola, evitando olhar nos olhos dos maltrapilhos embolados lá fora, quase caindo nos trilhos. Pensando bem, não pareciam maltrapilhos, e sim cadáveres.
Mas é estranho como uma coisa boa é sempre sucedida por uma ruim. Ou: uma coisa boa é também sempre ruim. Cansado, o ditador apoiou sua mochila de turista no banco, como um travesseiro, e se deitou para cochilar. Quando um cheiro curioso começou a tomar o vagão. Cheiro de comida. Percebeu que estava com fome, afinal aquela jornada já devia durar horas. Decidiu se levantar e caminhar na direção do cheiro, que vinha do escuro profundo dos vagões à frente.
E caiu, caiu seguidamente. Mas só uns degraus. Porque o ditador se percebeu numa escada rolante. Ficou de pé, já não estava acreditando ou deixando de acreditar em nada. Ele olhava para os lados e não via nada além do breu, aquela escada rolante devia descer até o inferno ou até um buraco negro. O cheiro, no entanto, persistia, cada vez mais forte.
E foi esse cheiro, talvez, que dissipou a escuridão. Agora o ditador podia ver o destino da escada rolante: um jardim extenso, com flores e plantas de espécies desconhecidas pelo ditador, uma fonte no centro e muitos pombos sobre a grama e em volta dela, catando minhocas e tomando banho nas águas do chafariz. O ditador se emocionou: era a casa de sua infância.
– Pesado. Pesado pra caralho. Era o caso de empalar quem fez isso.
Do outro lado do jardim, próxima à churrasqueira de tijolos, uma figura há muito não vista pelo ditador mexia num fogão. Enquanto manipulava as panelas, a mulher balançava as nádegas numa dança melíflua, muito sutil. A mulher estava envolta em fumaça, mas o ditador conhecia aquela bundinha, e, mais do que isso, conhecia o cheiro que saía do forno.
– Mãe, mãezinha, sagrada mãezinha. A carne assada da mãezinha.
Os dois se abraçaram, e o ditador apertou com força o corpo da mãe contra o seu. A mãe pareceu gostar do abraço. Cuidadosa, desabotoou a camisa do filho até a barriga e acariciou seu peito pelado. Depois murmurou no seu ouvido.
– Debaixo da terra e acima do céu, tudo é permitido.
Ela se afastou do ditador, que permanecia de braços abertos e com um sorriso malicioso. A mãe abriu o forno e retirou um tabuleiro de vidro, apoiando-o na bancada. O ditador então se sentou à mesa, erguendo os talheres. Mas não era, apesar do cheiro forte, a carne assada que o ditador esperava.
– Não quer comer, meu filho? – ela perguntou, apontando para as medalhas esturricadas dentro do tabuleiro. Para ser justo, embora estivessem bem queimadas, era possível distinguir as medalhas de ouro das de prata. As de bronze, não.
Como o ditador não se mexia, como sua expressão de incredulidade não atendia às expectativas da mãe, que passara o dia inteiro cozinhando, ela se adiantou e tratou de servi-lo. Mas não o serviu no prato: calçou a luva, tirou uma medalha de ouro (ou de bronze) do tabuleiro e a apertou contra o peito nu do filho, que berrou.
– Puta empalada! Que caralho?
Ofendida, a mãe do ditador saltou da cadeira e correu para dentro da casa, choramingando. O ditador olhou para a marca no peito e lembrou da infância, quando brincava com os filhos dos criados com tampinhas de garrafa, esquentando-as na brasa e pressionando nas costas deles. De fato, a marca era similar.
Antes que pudesse ir atrás da mãe, o ditador percebeu um movimento na escada rolante. A multidão que o acompanhava nas estações do trem agora descia para o jardim. Abotoando a camisa, o ditador deu a volta no chafariz, chutando os pombos que estavam no caminho, e apertou a vista para todos os cantos, tentando achar uma saída. Mas os muros da sua casa eram muito altos, já que o pai do ditador também fora um ditador. Os maltrapilhos, porém, pareciam se contentar com o jantar que ainda esperava nas panelas. O caminho para entrar na casa e abraçar sua mãe parecia livre – aquilo era o exílio de verdade. É claro que, como dissemos antes, a maldade sempre sucede a bondade. Quando a mãe do ditador apareceu na porta da casa, talvez convidando-o a entrar, talvez apenas para assistir às consequências do jantar, os primeiros pombos já haviam pousado nos seus ombros, enquanto os outros se ocupavam das pernas, do peito marcado, dos olhos abertos.
