Desterras ou Degredações – Yan

Viktor Navorski sou eu
Minha terra tem assento bem macio e jato gentil e morno que sai do chuveirinho – o papel de lixa de cá não me alisa como o de lá. Não há, ó gente, ó não, lugar como o meu banheiro. Aqui em lavaba estranha vez em nunca me sinto perto de minhas entranhas. Eu vou ficar nessa cloaca, não vou voltar pro vaso do Japão, pois ouço vir vindo de dentro o bafo de um baita bufão; não sei de nada e no meu ventre, sempre, é aquela prisão.
Devo, portanto, defender Ernesto Araújo: não é fácil cagar fora de casa.

Gente que sabe o seu lugar
Chegamos ao Acre quando eu tinha três anos e minha irmã tinha um. Meu pai se encontrou no cargo novo e minha mãe sentiu saudade do mar, do shopping, de uma empregada que a obedecesse. Minha mãe mandou a empregada engomar só colarinhos e golas das camisas do meu pai, encontrou tudo amarrotado, só colarinhos e golas passados a ferro, reclamou, a empregada disse que só fez o que a patroa mandou. Minha mãe mandou a empregada dar mingau pras crianças, nos encontrou comendo inhame amassado com mel, reclamou, a empregada disse que só fez o que a patroa mandou. Minha mãe mandou a empregada levar as crianças ao parque aquático, nos encontrou nadando com os filhos dela em frente à palafita, reclamou, a empregada disse que só fez o que a patroa mandou. Minha mãe só queria deixar Rio Branco, voltar pro Rio de Janeiro e mandar a empregada à merda. Eu só queria me mandar pra palafita da empregada, comer inhame amassado com mel e nadar com os filhos dela.

Anitta, Carmen Miranda e minha avó no coral do bairro
Canta a tua aldeia e serás universal. Canta apenas para a tua aldeia e serás querido, vaiado ou ignorado – ou os três. Canta a tua aldeia apenas para outras aldeias e não reconhecerás tua própria voz.

Pertenço ao podrão
Quando adolescente malandramente aprendi que paulista é tudo otário. Meu pai me ouviu falar isso, lembrou que falador passa mal e falou:
“Meu filho, lá é a locomotiva do Brasil. São Paulo leva o capitalismo a sério”.
Fui estudar na USP, virei socialista, aprendi a fazer fumaça, me apaixonei pelo metrô, pela integração do Bilhete Único, pelos piores patrões de lá que pagam mais que os melhores patrões do Rio. Só me sentia forasteiro quando comia cachorro quente: sem ovo de codorna, sem uva-passa, com purê de batata.

Santo de fora faz milagre
Fiz uma feijoada pra Ogum no dia 23 de abril, feriado só na minha cidade. Em Salvador, São Jorge é um nome de Oxóssi e o Google Maps mostra apenas 14 terreiros de umbanda. O mais difícil não foi sambar sobre o sincretismo, mas encontrar rabo, orelha e focinho pra vender. O jeito foi fazer à baiana. Servi os convidados, distribuí marmitas no Cristo Redentor da Barra, deixei o alguidar com a comida do santo ao lado da porta de casa e acendi uma vela de sete dias. Acordei pra fazer o despacho na manhã seguinte e encontrei:

  1. A vela no fim.
  2. Rabo, orelha e focinho no lugar de fato, fumeiro e mocotó.
  3. Feijão preto no lugar do mulato.

A partida de sua vida
Meu avô jogou xadrez com um estrangeiro. Meu pai, que recebeu envelopes com os movimentos do adversário das mãos de duas gerações de carteiros, nunca conseguiu decifrar o país ou o nome do remetente. Lá pelo trigésimo lance, quando minha mãe apareceu, meu avô percebeu que iria perder e passou a relembrar com rancor os movimentos imprudentes que fez. Dez lances depois, enquanto eu escrevia a letra v em cadernos de linhas pontilhadas, meu avô concluiu que iria morrer quando a partida acabasse e resolveu jogar até o fim. Passou a perguntar sobre o meu dia, me ensinou a soltar pipa e me levou pra conhecer as cataratas do Iguaçu. Eu comemorava sempre que os Correios entravam em greve. Fui com toda a família para o endereço dele, o mesmo onde semeou a partida de sua vida, e chorando eu o vi abrir o envelope com o lance final do oponente. A derrota não trouxe a morte, só o Alzheimer. Ele veio morar comigo no apartamento que comprei na planta e tem certeza de que está na casa onde colheu a partida de sua vida. E agora mesmo, enquanto troco sua fralda e empurro sua cadeira pra debaixo do chuveiro, meu avô diz:
“Moço, é o meu fim. Chegou o xeque-mate do gringo”.

Forra de forasteira
“Aqui você não entra mais”, você me disse e fechou as pernas.
Eu tenho as minhas e sei pra quê as quero, meti o pé. Besta é tu, tatu, eu sou é bicho solto. Sei caber em qualquer canto que quiser me receber: estreito, largo, não me aperto. Mundo, mundo, vasto mundo, mais vasto é meu fogo no rabo. O problema é que você se enfia na minha cabeça justo quando entro num buraco quente, me joga água fria, me encolho todo e nem reza braba levanta. Mas não me aperto: arriei padê pra Pombogira e já-já você vai sair de mim.

Destino de origem
Decidido a resgatar minha ancestralidade, perguntei à minha tia-avó sobre o Maranhão. Ela nasceu aqui, se esqueceu do nome da cidade materna e se lembra apenas que sua mãe migrou com toda a família – com exceção de um primo que não queria vir. Chamaram uma cigana, que leu sua mão e disse que ele iria muito mais longe que todos os outros parentes. Ele pegou uma faca amolada, picotou as duas palmas e cegou a profecia. E no ferir das mãos acabou tropeçando sobre o fogão a lenha, frigindo os ovos. Morreu de velho e sem filhos num lugar para onde nenhuma semente sudestina poderá retornar.

Veni, victus sum, Vincent
Era meu primeiro dia em Amsterdam, um frio escroto, crianças no trepa-trepa em frente ao museu, o Samba do Avião me zumbindo no pé da orelha. E eu numa fossa danada, tentando segurar a barra que é ficar sob o sol e tremer mais do que sob a sombra.

Raízes e futuras fotossínteses
Saiu de cima de mim, deitou o rosto no meu peito e cantou Menino do Rio. Ela nasceu perto da represa do Guarapiranga, mas se considera pernambucana porque seu umbigo está enterrado na caatinga da mãe analfabeta. Por isso ela é professora e coleciona cactos. Procurou minha barriga com a mão, cravou o mindinho, perguntou: e o seu? Quis dizer, no mar de Copacabana, mas meu umbigo foi parar num lixão. E virou comida de barata. E as baratas ainda vão dominar o mundo. Por isso posso morar onde eu quiser, posso ser o que eu quiser, posso comer qualquer negócio e sobreviver.

Modéstia de migrante
Nas férias fui encontrar uma amiga da época da escola na Feira de São Cristóvão. Cantamos Meu Lugar no karaokê, tomamos cachaça de sete estados diferentes e fomos embora de Uber. No caminho, me gabei de como é bom viver sem a marra carioca e com um metrô que funciona. Ela desceu no Rio Comprido e segui pra casa do meu pai no Andaraí. O motorista, com um gogó do tamanho de um ovo, me perguntou de onde eu era. Respondi que sou da gema, mas me mudei há tempos. Ele levantou a crista, riu e disse:
“Tu tá falando que nem paulista, meu camarada”.
Choquei de vergonha.

Ai, ai que saudade eu tenho de um lugar que não sei o nome
Eu era Flamengo, virei Vitória. Segui submisso, mas aprendi a falar no imperativo. Temperava feijão com sal de Cabo Frio, tive tevê enferrujada pelo salitre de Amaralina. Minha avó cantava pra mim na banheira em Vila Isabel a cantiga que ouvi quando quase me afoguei no Dique do Tororó. Não me perdi no Nordeste, só em você. Eu não sou daqui, marinheiro só, eu não te dei amor; você me deu a Bahia e ela não nos salvou. Quem quer ir mais eu, favor ficar aqui.

A graça da primeira pátria
Desembarquei no Santos Dumont, fugi dos taxistas, peguei um Uber. O motorista perguntou se eu tinha algum caminho de preferência, respondi: não sei. Perguntou de onde eu era, respondi: daqui. Atendi o celular e disse: combinado, vamos cremar então. Ouvi Pedaço de Mim durante as duas horas de trânsito. Cheguei em Vargem Grande, os vizinhos não me reconheceram, me espiaram pela janela e me disseram: meus sentimentos. Chorei pra não rir. Pus no rabecão o corpo dela, enrolado no edredom que dei de natal. Na segunda-feira voei de volta pra Congonhas, senti que não pertencia a mim mesmo e procurei uma analista. Ao final da sessão, ouvi: agora você vai ter que ser a sua própria mãe. Ri pra não chorar. 

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