Tbt_Sempre teremos Paris?

(Angélica)

Nem vou citar as fogueiras, as bruxas e as possessões demo-psicóticas porque morte e cheiro de churrasquinho não vêm ao caso aqui. Se eu tivesse nascido em outra época, provavelmente iriam me colocar num barco e largar num leprosário desativado. Ou, quem sabe, me enfiariam no trem com destino a Barbacena. Por essas razões citadas acima, ficar trancada em um espaço restrito com umas vinte mulheres não me pareceu de todo mal. Agradecia por elas surtarem feio só de vez em quando. Berros e comida voando não me assustavam se demorassem um curto período de tempo. Mas se as enfermeiras não conseguissem acalmar quem tinha abandonado a casinha de vez, todas as outras começavam a se agitar e uma faísca a mais seria o suficiente para que o pelotão das mulheres-balas saísse voando. Um enfermeiro do tamanho de um container aparecia bem depressa e depois de uma injeção, a surtada acabava seu número com um modelito novo, todo amarrado. Como elas nunca voltavam, eu imaginava que talvez tivessem virado comida de jacaré. Por essa razão, eu não fazia estardalhaço. Os surtos mais leves em geral eram por causa das roupas que desapareciam ao serem mandadas para a lavanderia. Cansei de dar as minhas meias para uma baixinha ruiva calar a boca.

Todas as noites havia a hora das ligações e algumas de nós falavam com a família. Agora, se formos pensar que toda internação numa clínica psiquiátrica é um exílio, para mim era muito pior. Eu ficava no banco do refeitório sozinha esperando meu nome ser chamado. E nada, sempre nada. Elas voltavam radiantes do telefone e eu sentada como um gato que viu o passarinho sair da gaiola mas continua com a barriga vazia. Meu tio não queria mais saber de mim?

Ir para a sala ao lado da enfermaria encontrar o Doutor Abelardo sempre me deixava alegre. Afinal, ele era a única pessoa de fora que falava comigo e também um sinal de que eu não ia ser enterrada na clínica. Toda vez eu fazia a mesma pergunta:

– O senhor veio me tirar daqui?

Ele sorria, espiava a pasta com a minha ficha e dizia – Vamos tratar disso mais para frente – em seguida queria saber como eu estava me sentindo.

– Estou bem. O senhor não reparou que…

– O quê?

– Não está vendo que as formigas sumiram?

– Fui muito desatento mesmo. Que notícia boa.

– Pedi um livro para o Doutor Luís Antônio.

– Ótimo, Nina.

– Doutor Abelardo, ele me trouxe Iracema!

– José de Alencar? “Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna…”

– O Doutor Luís Antônio não está nada bem, esse livro é um porre.

Ele riu de novo. Pedi para ser transferida para o setor semiaberto, queria caminhar pelos jardins da clínica, jurei que não ia fugir, mas ouvi a mesma resposta de antes, vamos tratar disso mais para frente. Não acreditou em mim. Depois de algumas anotações, ele se despediu dizendo que voltaria logo. Eu sabia que era mentira, no exílio só tinha espera.

Até que numa noite, mais ou menos no meio da minha internação, a enfermeira me chamou.

– Nina, ligação para você.

Já estava tão acostumada a ser deixada de lado que entrei na saleta abrindo a boca, supus que era para tomar alguma medicação. Quase não acreditei quando ela apontou para o telefone. Até que enfim o gato ia abocanhar o passarinho.

– Oi, Nina. Tudo bem?

– Estrogonofe?

– Hã? É o Théo.

– Eu sei.

– Como você está?

– Vou bem, quando vocês vêm me buscar?

– Logo mais.

– Em breve, daqui a pouco, mais para frente, vocês só sabem dizer isso. Vou viver no futuro para tudo ser agora.

– Calma, Nina.

– Não é você que come carne moída e frango desfiado todo dia. Estrogonofe, você faz um estrogonofe para mim quando eu sair daqui?

– Só se você parar de me chamar assim.

– O tio Arthur está aí com você? Quero falar com ele.

– Não, só a Maria Eduarda. Ela está mandando um beijo.

– Que Maria Eduarda? Não conheço nenhuma Maria Eduarda.

– A minha esposa, Nina.

– Você casou? Eu também vou me casar. Com o Sebas, sabe? Assim que a Polícia Federal autorizar, você vai ver.

– Hã hã.

A enfermeira me interrompeu dizendo que o meu tempo tinha acabado, hora de desligar. Só muito tempo depois caiu a ficha de que ela era uma espécie de sinalizadora de Fórmula 1, toda vez que um carro rodava na pista, ela levantava a bandeira vermelha e encerrava a corrida, os minutos preciosos iam para o escambau.

– Me faz um favor?

– Claro, pode falar.

– Pede para o seu pai me ligar.

– Amanhã vou falar com ele.

– Preciso desligar, Estrogonofe. Um beijo.

– Outro, Nina, se cuida.

Duas semanas depois, fui chamada no telefone outra vez. Era meu tio Arthur. Quando eu já tinha recebido alta, o Théo me contou que o Doutor Abelardo pediu para eles não me ligarem na clínica. Primeiro liberou o Théo e só lá para o final do tratamento meu tio pôde falar comigo. Não queria que eles se assustassem com o meu estado.

Ao ouvir a sua voz fraca e carinhosa do outro lado da linha, segurei o choro. Fazia tanto tempo que eu não sentia um aperto no peito como aquele. Mas à medida que fomos conversando, o passarinho que estava entalado no meu esôfago escorregou para o estômago e da minha boca saíram algumas penas.

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