Passa o raio x da bagagem já ouvindo o próprio nome soar no alto falante do aeroporto. Última chamada para embarque no portão 9. Não gosta do que ouve, toma por intimação. Corre incompetente. Vê no reflexo da vitrine da Casa do Pão de Queijo a bochecha ainda vincada pelas dobras do travesseiro. Está a caminho do casamento que não deveria acontecer. Última chamada.
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Uma hora de voo e uma de carro depois, resolve parar na floricultura. É feio chegar na cidade dos outros de mão abanando. No balcão, um homem de uns 70 responde que sim, as flores são para entrega. E quem recebe?, pergunta a vendedora. Eu moro aqui há 45 anos, quem recebe é a primeira pessoa que me fez ter vontade de entrar nessa loja. Sai da loja.
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Portão fechado. Toca a campainha seis vezes. Deveria ter confirmado o convite.
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Pra matar o tempo, pedala a bicicleta do Itaú em uma avenida onde nunca esteve e para onde provavelmente não voltará. No fone, Bethânia canta Dindi. Até olha pra tudo, tenta atenção, mas a música é tão linda. À sua frente, uma reta comprida. Pensa em fechar os olhos, fecharia se os carros não passassem tão pertinho e na direção contrária. Será? Arrisca. Abre com a buzina. Que susto. Você não existe, Dindi.
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Toca outras seis. Nada.
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Chama o táxi. O casamento está a quatro horas de carro. No interior do já interior. Se distrai embalada nas histórias do motorista. Ele, “trajado a gaúcho”, entra numa casa de samba em São Paulo, facão na cintura e tudo. Ele se apaixona pela juíza que conheceu na fila do pronto socorro, seis meses pra dar o primeiro beijo na testa. Ele assa uma costela de chão em um casamento cigano em Goiás. Ele se despede da filha que foi morar fora fingindo força. Faz dez anos que não se encontram. Ele nunca viu as netas, mas a menorzinha, num português com sotaque, se derrete quando diz “vouvou”. Pronto, é aqui, débito ou crédito?
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No único hotel da cidade, tenta lavar o cabelo no banho, repete movimentos pouco eficazes enquanto observa uma aranha gordinha no vidro do box. Sua mãe lhe ensinou que aranhas são gordinhas quando cheias de micro aranhas bebês na barriga. Não tente esmagar aranhas gordinhas, ela disse. Escuta um pipoco, dá um gritinho fino. É um curto circuito. Todas as luzes do hotel se apagam. Está molhada, com frio e no escuro, já não sabe de nada. Nem da aranha.
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É o tempo de vestir a roupa e caminhar para chegar numa festa que tinha começado no fim da tarde. Perde a cerimônia. De umas três fazendas antes da dele já se escuta a música. No salão faz calor, deixa o casaco na primeira cadeira que encontra, dança até parecer contente. Percebe, pela escolha do DJ, que a festa está perto de acabar, alcança o casaco, pede carona ao moço que conheceu na altura de Heart of Glass. No carro, tenta enfiar as mãos no bolso, mas não consegue. Se entristece com a dificuldade recém adquirida. Amanhã resgata o tesourinho que tinha guardado lá. Ela ainda não sabe, mas esse casaco não é o seu. A dona dele, o de bolsos costurados, ainda não sabe, mas já já, nesse frio, assim quase que por instinto, vai proteger as mãos, pesadas de aliança, nos seus bolsos.

