Rodney aceita a nova corrida, chega em dois minutos. Usuário bem avaliado, Otávio, vai ao Itaim. Aguarda no local de partida, um hotel classudo perto da Paulista. Do asfalto, identifica um sujeito grandalhão, de óculos escuros aviador e blazer azul marinho. Deve ser este. Fala ao celular na saída do prédio, uma área reservada na qual os carros embicam para pegar os hóspedes com a comodidade compatível ao valor da diária nesse cinco estrelas. Ao vê-lo se aproximar, de olho na placa do veículo, o passageiro acena para a recepção e uma ruiva de vestido dourado curto e justo aparece trotando no salto alto. Os passinhos arrastados e rápidos acendem a memória do motorista. Pela primeira vez em sete anos, está diante da ex-mulher.
O casal se senta no banco de trás, ele ainda em um papo em inglês, ela arrumando o decote para impedir que os peitos saltem para fora do decote. Ela colocou cilicone, como sempre disse que faria se entrasse um dinheiro a mais. Bronzeamento artificial, está mais laranja do que queimadinha. A tatuagem no ombro direito continua lá. Não deu para ver muito bem. Nem precisa, sabe que está escrito “Rod” dentro de um sol ornado por coqueiros. Firmino desliga o celular quando chegam ao asfalto.
– Boa tarde, amigo.
– Tarde. Água?
– Por favor. Tá um calor absurdo lá fora. Quer também, Lu?
Lurdes não responde. Pelo espelho, fixa os olhos nos do motorista e os espreme, como se quisesse focar melhor, evidenciando as rugas nas laterais.
– O senhor quer que aumente o ar?
– Melhor não, né, Lurdinha? Ela sente frio até no Saara.
– Tanto faz pra mim.
A mulher não responde. Apenas olha para o nada pela janela. Rodney liga o ar-condicionado, na potência mais branda. Então, acelera para pegar um semáforo no amarelo. Ela odiava quando ele fazia isso. Dizia que nunca ia dar um filho a ele se não aprendesse a ser mais responsável no trânsito.
– Tem balinha na porta. Tá bom o rádio?
– Fica à vontade. Só não coloca em notícia.
– Ok. Waze diz pra descer a Augusta. Se tiver outro caminho…
– Vai fundo.
No acesso, o trânsito se intensifica e a velocidade não passa de vinte quilômetros por hora. Rodney dá seta para a direita e muda de faixa, evitando uma fileira de veículos que farão uma conversão à esquerda. Quase esperou que Lurdes começasse a palpitar sobre o melhor trajeto, como costumava fazer. Tudo era motivo para ela discordar e iniciar uma briga. Ele dia que ia enfiar o carro em um poste só para calar a boca dela.
– Não tem mais horário bom em São Paulo.
– Tem não, senhor.
– Acho que eu não ia conseguir trabalhar nessa muvuca o dia inteiro.
– Não é mesmo pra quem se estressa fácil.
– E tá dando pra tirar uma grana legal?
– Ah, sou meu próprio chefe, sabe?
– Ou então todo mundo é seu chefe agora.
– Que isso, Lurdinha? Não fala assim.
Rodney sai de trás de um caminhão de carreto e avança na pista contrária. A moça desenterra o cinto de segurança do vão do banco e o coloca.
– Eu faço meus horários, dona.
– Ele tá certo, Lu. Acabou essa história de CLT. As leis trabalhistas pararam no tempo, não é, meu amigo?
– Não reclamo, não. Melhor do que ralar, sei lá, em loja de sapato, aguentando chulé de bacana.
– Hahaha. Acredita que a Lurdinha já foi vendedora de sapato na Oscar Freire?
Lurdes dá um tapa no ombro de Firmino.
– Sabe, Fefe, li uma matéria falando que tem muita gente dirigindo pra aplicativo porque desperdiçou oportunidades melhores.
– Lurdinha, por favor…
– Eu vi essa reportagem, dona. Mas um instituto de pesquisa qualquer aí calculou que nove de dez dessas “oportunidades melhores” não passam de exploração de algum familiar, tipo um sogro que usa o genro como mão-de-obra barata enquanto enche o bolso de grana.
– Ué, meu amigo… Mas tem pesquisa disso?
Uma Saveiro fecha a frente deles para fazer uma conversão no último segundo e obriga Rodney a dar uma buzinada longa. Ele quase sorri quando vê a ex tampar os ouvidos. Uma vez, ela quebrou o volante do carro só para ele não tocar mais o berrante por qualquer besteira que os outros motoristas faziam.
– Essa pesquisa eu sei qual é, moço. Ela perdeu toda a credibilidade quando um relatório da ONU comprovou que esses mesmos genros fingiam dar duro na empresa dos sogros quando, na verdade, só ficavam de xaveco para cima das secretárias. E eles ainda engravidaram as amantes.
– Mas, Ludrinha, pelo amor de Deus. Como se mede algo assim?
– Pois é, dona. Mas teve um estudo de cientistas lá de Harvard, Oxford, sei lá, essas escolas de frife, que demonstrou, por A mais B, que esses trabalhadores jamais procurariam um pouco de carinho fora de casa se as esposas deles não jogassem na cara dos coitados que eles não passavam de uns fracassados. O dia inteiro. Tanto que cem por cento delas arrumou outro otário para pagar as vidinhas de luxo das moçoilas.
– Cuidado!
O carro freia bem em cima de uma faixa de pedestres, fazendo um velhinho que atravessava dar um saltito. Os três no carro congelam os olhos arregalados e as bocas abertas e seguram uns dez segundos assim antes de voltarem a respirar.
– Amigo, mudei de ideia. Coloca numa rádio de notícias. Tô precisando me atualizar.
