Ingredientes

por Roberto M. Socorro

“Corre!”. Soce desceu a escada de portaló devagar, como se desconsiderasse a ordem de seu pai 20 anos antes, quando ainda se chamava Walfrido. A doca era a mesma em que procurou refúgio naquele velho classe Liberty, batizado Cartago, que batia de porto em porto entregando e procurando carga, indo pra onde o mandassem ir. O capitão teve pena daquele moleque ossudo, assustado, de 14 anos que aparentavam 10. Arrumaria alguma coisa pra ele fazer no navio. Vaga sempre tinha, em todo porto sumiam uns dois ou três, mas achava reposição.

Foi acolhido pelo cozinheiro, um chinês que tinha apreço especial por garotinhos. Virou seu ajudante e protegido. Já sabia cozinhar, ajudava a mãe no Agreste, e tinha bom manejo com a faca. No barco, aprendeu também a deixá-la sempre na cintura, pra se proteger de seu protetor. Foram dois anos precisando dela, até que foi a vez de o cozinheiro sumir. O capitão, um angolano forte de quase dois metros, que carregava sempre um Colt 44 na cintura, avisou que a cozinha era com ele dali em diante, que era fácil achar marinheiro, mas alguém pra cuidar da bóia não.

Aceitou quieto, como quieto era em tudo. Nessa altura, já tinha descoberto sua facilidade pra aprender línguas. Era letrado no dialeto do navio – uma mistura de inglês com espanhol falada pela maioria filipina, alguns iemenitas, poucos indianos, e outras nacionalidades menos constantes que apareciam e sumiam a cada atracação – não era muito de conversar, mais ouvia que falava, sem contar sua história, vivia recluso na cabine ou sozinho no convés. Se distraía escrevendo em seus cadernos as receitas e tirando fotos da tripulação com a Polaroid que comprou em uma das paradas. Pra lembrar dos que sumiam, pra ver se voltavam, mesmo sabendo que não. Sem saber pronunciar seu nome, foi batizado na primeira refeição que preparou pra a tripulação: Soce. A marujada ficou em êxtase com o molho daquela carne, com um toque doce, bem diferente do que o chinês lhes obrigava a comer. A aprovação em grunhidos de boca cheia e olhares de aprovação. Jurou pros iemenitas que não era carne de porco, mas não abria o preparo, mais um de seus mistérios. Todos os dias, esperavam o que Soce tinha a oferecer. Fosse peixe, carne, frango ou qualquer outra coisa, o molho era sempre o destaque.

Com o posto de cozinheiro, recebeu a incumbência do abastecimento do navio. Desembarcar e ir muito além do porto era risco grande pra quem não tinha nenhum documento. Um indiano, dos poucos próximos a ele, resolveu o problema em Kerala. Arrumou um passaporte em troca de algumas garrafas de Johnny Walker. Assim Soce Narabhēāji, seu novo nome, saía em busca de alimentos. Barco pobre, verba pouca, mal dava pro álcool. Tinha que se virar comprando sobras de restaurantes: legumes, verduras, sobras de animais na beirada da putrefação, pra completar o arroz que era a base da dieta. Se tornou um mestre na conservação, fez do freezer a peça mais importante do navio. A aproveitar tudo, ele aprendeu menino. A mãe não deixava sobrar nada dos restos que o coronel largava pros trabalhadores. Do porco, cada lasca de víscera, cada coalho de sangue era cozido. O sarapatel era sua especialidade. Até o filho do Coronel vinha comer escondido em sua casa.

A carga foi rareando, as distâncias aumentaram, o tempo no mar cresceu, o dinheiro ficou mais minguado. Tinha que comprar mais quantidade com menos, arrumar o que pudesse de graça, estocar tudo o que coubesse no freezer. Mais marujos saiam e não voltavam, poucos substitutos. Essa foi a rotina dos anos seguintes, com o Cartago no bate e volta entre portos pequenos da Ásia e da África. Nada de grandes cidades. O sabor de sua comida é que salvava o ânimo da tripulação. Seguiu lendo, batendo fotos dos tripulantes, cozinhando e registrando as receitas, seu maior prazer.

Entre as cargas contratadas pro barco, surgiu uma de Maputo pra Recife. Tantos anos sem passar pelo Brasil, talvez fosse hora de ficar. Já era homem, bem diferente daquele menino atarracado. Soce, não mais Walfrido. Ninguém lembraria dele. Conseguiu emprego de auxiliar de cozinha em um restaurante famoso de comida sertaneja, em frente ao mar. A maior parte de sua vida foi com aquela visão, não estava disposto a abrir mão do infinito.

Mais de dois anos se passaram, havia se tornado Chef. Nova rotina, velhos hábitos. Isolado, ninguém sabia onde morava, como era sua casa, o que fazia quando não estava no trabalho. Mantinha a conversa pouca. Observava os clientes de dentro da cozinha, do canto do passa-prato, escondido. Prestava atenção em todos, nos seus detalhes, nas suas preferências, gravava as fisionomias.

Sua memória eidética eliminou qualquer surpresa quando o mâitre veio lhe falar que um cliente antigo, dos bons, que havia muito tempo não aparecia e que era doido por sarapatel. Se limitou a responder “eu sei”. O anfitrião não parava de falar, contou que o homem sozinho na mesa se chamava Robério, que ele se acabou, que perdeu o filho criança havia mais ou menos um ano, que o menino vinha sempre com ele no restaurante junto com o avô, o Coronel Robério. Dessa vez, Soce não falou “eu sei”. Olhou pra mesa junto à janela, pro o rosto carcomido na tristeza, uns 20 anos mais velho, que Walfrido não nunca esqueceu.

Avisou que ia preparar um sarapatel especial só pra ele, que não era esse que estava na panela não, seria um fresquinho. Pediu pra alertá-lo que descongelar os miúdos ia demorar um pouco, mas que valia a pena esperar. Robério pareceu ter gostado da espera, ficou alternando entre o copo de cerveja e o de cachaça. Mais de duas horas de cozimento e o prato estava em sua mesa; não pareceu se importar. Comeu se deliciando e até soltando alguns sorrisos. Raspou tudo da cumbuca e chamou o mâitre que voltou com o rosto da vitória dizendo que o cliente tinha adorado, que o sarapatel estava melhor ainda com o novo Chef e que queria conhecer o especialista daquela maravilha, o tal do Soce.

Frio, Walfrido se empertigou e foi em direção à mesa. Saudou-o sem a reverência de senhor. O cliente estranhou a intimidade e o português fluente. Parecia mesmo um indiano com o cabelo preto liso e a tez queimada, mas não sabia ainda que era um caboclo com a pele curtida no sol do mundo. Se rasgou em elogios ao sarapatel e comentou que foi a primeira coisa que me trouxe alegria depois de muito tempo.

– Fico feliz, Robério. Posso me sentar? – continuou sem cerimônia.

O cliente abanou a cabeça que sim. O Chef puxou a cadeira e, ao ser perguntado como falava português tão bem, revelou que era pernambucano, de Garanhuns, que tinha 34 anos e que já havia 20 anos fora de lá. O homem refestelado de seu prato predileto surpreendeu-se. Tinham a mesma idade, como não se conheciam? Perguntou seu nome.

– Walfrido.

– Walfrido de quê?

– Walfrido Antoninho.

Robério, sobrestado, buscava lá atrás um rosto no nome e tentava destravar os dentes. Walfrido ouviu de novo “corre!”, viu o fogo saindo da boca da carabina. Passou pelos mesmos três dias em disparada, pelo mato, com fome, com sede, até bater no Recife. Viu de novo o porto, os navios, a procura por trabalho neles, a fuga pro mar, pro mundo. O sumiço.

Robério meneou algumas vezes o pescoço, o rosto molhado e vermelho. Contou que o pai tinha morrido há poucos meses, de sofrimento, contou que seu filho de 10 anos havia desaparecido, que sua mulher não saía mais de casa.

– Eu sei.

Walfrido teve que sair de casa, sem pressentimento, sem aviso, sem explicação. Nunca mais viu o pai, a mãe, os irmãos. Dor e dor se encararam.

– Senti o gosto do sarapatel de sua mãe agora, me fez feliz.

– Me faz triste.

– Não é um sarapatel comum, é meio doce.

– A dor é doce.

Walfrido levantou-se, foi pra cozinha e colocou suas coisas na bolsa. Antes de guardar o caderno, olhou as receitas, cada uma com a fotografia de algum marinheiro colada. Abriu na página do sarapatel e se fixou na foto de Roberinho. Seguiu na direção do porto.

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