
Svetlana Aleksiévitch – ucraniana que vive na Bielo-Rússia e é proibida de pisar na Rússia – tem um ouvido privilegiado e uma paciência ilimitada. Durante anos, colheu depoimentos sobre o desastre de Tchernóbil, editados na forma de monólogos em Vozes de Tchernóbil (Cia das Letras). Um concerto de vozes de todo o tipo, de todas as classes sociais, de todas as idades, tratando de um único tema: como foi sua visão pessoal do acidente nuclear de 1986. Cientistas, viúvas, trabalhadores, soldados, gente simples do povo, professores – todos dão seus depoimentos, tornando o texto ao mesmo tempo muito naturalista e muito diverso. Uma forma muito particular de falar o que vem de si: deixando o seu texto ser atravessado pelo texto do outro. No texto a seguir, um monólogo que parece ter sido escrito pela própria Svetlana, afinal é uma interrogação básica para todo escritor que se preze, ela lança um questionamento central para seu trabalho: como lidar com uma tragédia?



PROPOSTA
O que você vai fazer é isso: lembrar ou esquecer?
Estamos prestes a deixar para trás uma aberração – a vida sob o bolsonarismo, durante 4 anos. É possível que estejamos prestes a sair rápido de um pesadelo para o abraço fantasioso em um período esperançoso. Esta possibilidade abre o flanco para uma das opções do questionamento de Svetlana: o esquecimento.
Mas escritores não esquecem.
Portanto você tem aqui a chance de narrar um episódio traumático situado dentro desses 4 anos. Pode ser um episódio acontecido com você ou com outrem. Pode ser narrado na primeira ou na terceira pessoa. Pode contar como testemunha ocular ou indireta. Mas tem que ser conectado ao trauma coletivo que tem sido conviver com a naturalização do horror que aconteceu durante esses 4 anos.
Veja que você não necessariamente vai falar da pandemia: a ideia é abordar o bolsonarismo em si.
Também não necessariamente precisa ser uma crônica, uma memória, uma autoficção. Pode ser (é até mais desafiador que seja) uma ficção pura.
Tente ser o mais particular possível. Pense a partir de uma cena, com poucos personagens. Mostre a ocorrência, tente se aproximar do cerne do trauma através de uma ação muito simples. Se quiser, pode desdobrar tal evento em outras cenas. Mas essencial é encontrar uma cena central para o seu trauma pessoal deste tempo.
Em uns 8 mil toques no máximo.
