Receba bem o recenseador

Só faltava aquele endereço para Augusto Bastos completar seu lote regulamentar. O número 290B da Rua da Abolição ocupava a metade direita de um sobradinho que fora dividido ao meio. Olhando da calçada via-se, instalada por um pedreiro amador, uma porta de pinho no lugar da janela original. A parte que deveria ter sido o 290A estava arruinada. Barreiras de tijolos sem reboco bloqueavam o terracinho do térreo e a janela superior, e sobre o muro frontal se estendia um ninho de arame farpado.

Na tarde fria de agosto, o agente censitário municipal visitava o local pela quarta vez. Ele sabia que o manual do recenseador estabelecia quatro como o número mínimo de tentativas para encontrar o morador, mas havia decidido que esse seria seu limite máximo. Na primeira visita, bateu palmas e chamou do portão por alguns minutos. Na seguinte, em outro horário, julgou ter ouvido um barulho lá dentro, o que o encorajou a atravessar o pequeno quintal de cimento e bater à porta, novamente sem sucesso. Na terceira visita, deixou a folha de recado timbrada com o número fornecido pelo IBGE para entrevistas por telefone. Sem receber nenhuma ligação do morador, resolveu passar uma última vez, desta vez num domingo.

Após Augusto girar o trinco do portão, dois golpes atingiram seus sentidos. O latido feroz e a cara do cachorro enorme, com os dentes à mostra, que apareceu de repente a centímetros da sua cabeça, gelaram-lhe o sangue. Sem pensar, levou a mão direita ao bolso da calça e agarrou o cassetete. O recuo instintivo, porém, foi suficiente para mantê-lo a salvo do ataque. Descobriu que o rottweiler permanecia dentro da propriedade, ladrando, apenas com a cabeça preta superando o muro. Apoiado no tronco de uma árvore, procurou retomar o fôlego. Percebeu então que a porta havia se aberto e alguém o encarava na soleira.

Era um homem grande, cuja silhueta se destacava contra a escuridão do interior da casa. Usava uma calça de moletom azul e uma camiseta bege com uma estampa de Jesus. Tingida de branco, a barba tinha três ou quatro dias. Óculos de leitura presos por um cordão se apoiavam na vasta barriga em forma de concha. Seu olhar estava fixo no cassetete que o recenseador ainda mantinha empunhado.

“O senhor pode afastar o cachorro, por favor?” Augusto guardou o bastão no bolso lateral da calça cargo ao mesmo tempo em que, com a outra mão, estendia o crachá na direção do homem.

“Ah, do censo, é?”

“Sim, estou tentando contato com o senhor há vários dias. Deixei um recado escrito…”

“Não recebi nada.”

“Sei. O senhor pode segurar o cachorro para conversarmos?”

O homem deu um chute no flanco do animal, que ganiu e se espremeu para entrar em um caixote de madeira encostado no muro.

“E se eu não quiser responder?”

“É seu direito. Mas também é minha obrigação fazer um relatório para um fiscal. E aí ele vai voltar trazendo uma notificação para o senhor responder pela internet.”

“Não tenho internet.”

“Então…” Augusto arqueou os ombros.

O homem bufou. Sem falar, virou as costas sumiu no interior da casa. O recenseador teve um momento de hesitação, mas como a porta permanecia aberta, entrou atrás dele.

A sala estreita era tão escura quanto parecia de fora. Havia duas velas acesas sobre uma prateleira. O homem já estava acomodado em uma poltrona de couro, o único móvel confortável à vista, e empurrou com o pé um banquinho de três apoios. Augusto pôs a bolsa no chão, se acomodou como pôde e ligou o pequeno tablet azul.

“Problemas com a companhia de luz.” O homem fez um gesto abarcando o ambiente.

Ao som da voz do dono, o cachorro enfiou a cabeça no vão da porta.

“Alerta, Herodes!” Atendendo ao comando, o animal sentou-se na soleira sobre as patas traseiras, com as orelhas eretas.

“Ele não estava aqui nas outras vezes em que vim.” Augusto tirou o cassetete e depositou na mesinha de centro, no espaço entre dois copos sujos. Fez isso da forma mais natural de que era capaz.

“De dia fica pra dentro. Só sai à noite para espantar os noias que roubam torneira.” O homem falou com o olhar fixo no objeto de dois palmos, cuja borracha negra ostentava diversas marcas de uso.

“Herdei de meu pai”, disse Augusto. “Guarda noturno não andava armado na época dele.” 

O homem na poltrona parecia vidrado no objeto sobre a mesa.

“Comecei a carregar depois que fui atacado por uns moleques. Diziam que pesquisa era tudo mentira. Tomei uns tapas, mas conseguir fugir.” O pesquisador emendou sem pausa: “Nome completo.”

“Isso vai aumentar meu imposto?” O torpor se dissipou.

“Não, senhor. A pesquisa tem fins exclusivamente estatísticos.”

“José Carlos Ribeiro de Lima.”

Augusto sentiu um leve tremor. “T… tem algum apelido?”

“Isso tá escrito aí?” O homem avançou o corpo na tentativa de enxergar a tela brilhante do dispositivo eletrônico.

“Não, é que fiquei curioso. Quando eu era criança, José Carlos a gente chamava de Zeca.”

“Nunca ninguém me chamou desse jeito.”

“Ok. Prosseguindo: quantas pessoas moram na casa?”

“Só eu e o Herodes. Minha mãe morreu no ano passado.”

“Sinto muito.” Augusto abaixou a cabeça e se concentrou na tela, que rolou várias vezes. Girou devagar a caneta eletrônica entre os dedos até que encarou o entrevistado novamente. “O senhor mora há quanto tempo nesta casa?”

“Uns vinte anos. Desde que minha mãe ficou doente.”

“E antes, morava onde?”

“Em vários lugares. Fui zelador de uns prédios por aí.”

“Na zona norte, talvez?”

O homem não respondeu de imediato. Estudou o rosto de Augusto com atenção e rebateu: “Nunca estive lá. Essa pergunta faz parte?”

“Não. Simples curiosidade.”

“Você é meio curioso demais para o meu gosto.” O homem continuava encarando Augusto com ar de desafio.

“Não leve a mal. É que no meu bairro tinha um homem. Tomava conta da igreja. A molecada chamava ele de Frei Zeca.”

“Herodes, vai!”

O cão avançou sobre Augusto, mas o cassetete o atingiu em pleno salto. O corpo maciço desabou sobre a mesinha e deslizou até bater na parede. No caminho, arrastou pratos e copos.

“O que você fez?!” O homem caiu de joelhos e abraçou o corpo mole do animal.

“Senta aí!”, ordenou Augusto apontando com o porrete ensanguentado.

O recenseador esperou dez minutos até que o homem largado na poltrona parasse de chorar. Seu lamento fluía num tom agudo e monótono. De quando em quando o som mudava para um ronco e ele então limpava o nariz com o antebraço.   

Augusto matou o tempo observando o ambiente. Foi até a prateleira, que sustentava uma grande bíblia com capa marrom e imagens de santos de diversos tamanhos. Ao passar pelo espelho oval pendurado na parede, viu que, sob o boné do instituto, olheiras escuras em seu rosto moreno faziam-no aparentar mais do que trinta e cinco anos.

Sempre com o cassetete preso ao pulso, vagueou pelo cômodo seguinte, a cozinha. Uma geladeira velha e um fogão de duas bocas ladeavam a pia sob a janela basculante. Encostados na parede oposta, via-se um armário, a mesa sem toalha e uma cadeira de palhinha.

“Aposto que a geladeira ainda fica cheinha de sorvete de groselha, hein, Zeca? Para distribuir para a garotada da catequese… Isso quando você paga a conta de luz, claro.” Augusto tentou falar em um tom neutro, o que era impossível.

O homem assoou forte. Não se virou nem respondeu.

“Será que é a mesma geladeira que tinha naquele porão? Lembra? Embaixo da escada que dava para a sacristia?”

Voltando à sala, o recenseador empurrou o cassetete contra o ombro do homem sentado. O contato com a borracha dura interrompeu seu lamento. Ele endireitou o corpo como que para diminuir a desvantagem.

“Você está mais gordo do que me recordo. Mas o estranho é que mesmo assim me parece menor”, prosseguiu Augusto. “Lembro que abaixava a cabeça para passar na portinha do porão.”

“Não sei do que você está falando.” A voz do homem estava rouca.

“Muito bem. Eu estou aqui para fazer uma pesquisa. Vamos continuar.” Augusto retomou a posição no banquinho. “Qual a sua idade em 31 de julho de 2022?”

O homem olhou fixamente para o recenseador e levou um minuto inteiro para responder: “Sessenta e um.”

O interrogatório avançou com mais fluidez a partir daí. Tem água encanada em casa? Fala-se português no domicílio? Sua cor é…? Tem filhos? Tem religião?

“Católico praticante!”, o homem quase gritou.

“Sei. Exerceu alguma atividade remunerada no mês de julho?”

“Não. Estou aposentado.”

“E padre se aposenta?”, disparou Augusto.

“Não sou padre.”

“Mas estudou no seminário, né?”

O homem suspirou antes de ironizar: “Outra pergunta fora do roteiro?”

Augusto desconsiderou a intervenção e tornou a ler a lista de questões: “Voltando: em 31 de julho de 2017, morava, um, neste município; dois, em outro município do Brasil; ou três, em outro país?”

“Neste município.”

“Na zona norte?”

“Não. Eu não sou quem o senhor pensa.”

“Quem eu penso? Quem eu penso?”, explodiu Augusto. “Eu não penso nada. Sou apenas um pesquisador do IBGE fazendo o meu trabalho. O que o senhor foi ou é ou deixou de ser, tudo isso não é da minha conta. Não é mais!” Espremeu os olhos com força e só então se deu conta de que estava de pé. A mão direita não segurava mais o aparelho, mas o cassetete. Respirou fundo duas, três vezes, enquanto o homem abaixo de si parecia encolher na poltrona.

O recenseador olhou para a tela pousada na mesa de centro: “Última pergunta: já foi diagnosticado com autismo por algum profissional de saúde?”

Sem esperança de obter resposta, clicou a caneta no quadradinho “NÃO”. Guardou o minitablet na bolsa e o cassetete no grande bolso lateral da calça.

Augusto Bastos saiu para o pequeno pátio cimentado sem olhar para trás. Já havia anoitecido. Caminhando na calçada deserta, o agente censitário municipal pescou o aparelho do instituto na bolsa a tiracolo. A tela ainda acesa exibia as opções “CANCELAR” e “SALVAR”. Selecionou a primeira e seguiu para o centro da cidade.

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