Verde e Rosa já morreu (texto de Carol Schettini)
Querida Giovana,
Aposto em dólar: você não está prestando atenção ou não está escutando nada do que ele lhe diz. Suas mãos estão frias e suadas, abertas em cima da mesa ou nas coxas ou segurando alguma coisa que você torce de um lado para o outro. Enquanto isso, trabalho aqui para te dar uma dor de cabeça daquelas. Uma enxaqueca. Quando sair na rua, o primeiro raio de sol vai entrar pela sua pupila e você vai sentir uma dor tão forte, capaz de desmaiar.
Agora, neste exato momento, você está com o pensamento na sua amiga Constanza. Lembrando dela no caixão com uma maquiagem forçada e uma peruca para esconder o resto de pele do rosto que não deu tempo de ser recortada. Sua amiga, sim, gostava de um procedimento, uma operaçãozinha. Você, não. Você tem medo de ecografia. A cada vez que se submete a um aparelho daqueles, sente a radiação entrando pelos seus poros, explodindo suas veias, a ponto de se sentir uma bomba atômica andante.
Além disso, você tem medo de cortes. Quando levou um tombo no quarto do hotel e cortou um milímetro do seu braço, sentiu a própria Frankenstein. Não teve filhos com medo da cesária empelotar e virar um risco de quelóide parecendo asfalto velho remendando pista. Imagina, então, sua barriga aberta para ajudar um ser ninguém, sendo costurada tal uma colcha de retalhos por mãos velhas com algum tremor.
Você olha para as mãos e dali vai para a boca do médico. Depois da primeira fase do discurso, ele está te mostrando uma figura, uma maquete. Médicos adoram mostrar pedaços de corpos empalhados. Pedaços em formol. Queria estar do lado de fora para ver sua cara de estátua. Se não fosse cor-de-rosa, seria uma escultura da cor de um latão. Pó de mármore, ok, você deve estar com cara de uma imagem de santa olhando para o além.
Sua vista mira mesmo na lagartixa que corre solta pela parede. Repara como ela está te dando um sinal. Ela não tem pedaço de rabo. Dizem que o rabo de lagartixa se recupera. Igual ao seu fígado depois de cortarem um pedaço. A diferença é que a lagartixa larga o rabo para salvar sua pele. É vontade própria. Você vai desfazer de um pedaço seu por vontade alheia. Por que o médico não faz essa comparação em vez de abrir a bíblia e jogar oráculos? É fácil citar João, Marcos, todas as madres e tal quando não é o seu fígado que está na reta.
O médico diz: compatibilidade. Essa deveria ser a última palavra do dicionária para valer como moeda de troca. Não é a palavra que deveria passar na sua mente quando cogita em dar um pedaço de mim para aquele outro. Um pedaço de você que é um pedaço de mim.
A palavra é o contrário: incompatibilidade. Passou anos e anos chorando pela falta de compatibilidade com o ser ninguém e na primeira vez que te apertam, aceita tudo sem questionar, sem ver o filme do tempo? Fica aí, cheia de melindres em falar não.
Já viu a cor da pele do homem? Estava sem óculos? De longe dava para ver o verde hulk. Não entendo. Você detesta a cor verde, não tem uma blusa pendurada no armário e agora, do nada, não se importa. Pior! Olha sua cor: cor-de-rosa. Já te disse, você não é latão. É mármore cor-de-rosa. Rosa com verde dá Mangueira. Lembra da raiva que passou no carnaval quando foi à avenida com ele? Ele todo todo pulando atrás da verde e rosa e você chorando pela Salgueiro.
Naquele ano ele não era todo verde. Só um pouco. Um amarelado, talvez. Quem mandou ele beber tanto? Lembra das inúmeras vezes em que você disse pra ele maneirar e ele fazia uma grosseria? Chegava a beber o copo em uma golada só, enfiando um monte de cerveja barata pra dentro como se estivesse no meio do deserto e encontrasse uma garrafinha de água gelada.
E nos encontros de família em que ele bebia até cair e ainda fazia falta de educação pra você? Me poupe! Já naquele tempo vocês não eram compatíveis e do nada você resolve doar parte de mim pra àquele entojo.
E, no futuro, caso você insista na sandice, acha que vai parar de beber? Vai gastar tudo, toda a sua saúde. Em menos de um mês, vai estar comemorando com champanhe, melhor, com cidra, caixas de cidra misturada com cinquenta e um e você vai ver onde vai parar seu pedaço de fígado. No lixo! Vai ser bem feito pra você!
Termino com um conselho de amigo: em vez de deixar comer seu fígado, desopila, meu bem.
Um beijo, daqui de dentro.
