Então, é Natal

Podemos sair de um pesadelo, mas ele nunca sairá de nós. Desperto e já é fim de ano de novo. Ontem mesmo foi Natal de 2020, o primeiro no meio da pandemia, a família se reencontrando dentro daquele respiro entre uma e outra onda de mortos, iludindo-se de que o pior havia passado – como se fosse possível celebrar enquanto a ineficácia, a estupidez e a mesquinharia de um governo sufocavam um povo. Contei catorze pessoas na casa da minha mãe no interior paulista, mais do que a OMS recomendava para as festas. Mas meu maior incômodo era a presença do meu primo Max, que, como eu havia descoberto há alguns dias, apertou 17 em 2018.

Saí do grupo da família muitos anos atrás, pré-impeachment da Dilma. Não sabia que Max vivia jogando por lá todo lixo que recebia pelo WhatsApp. Formado em Geografia, ele já disse que a Terra era plana. O paradoxo do geógrafo terraplanista parecia o nível mais baixo no qual o imaginaria até uma outra tia me contar sobre a militância do sobrinho contra as vacinas. Justo para ela, que é bióloga, enviava as teorias mais absurdas. Então, descobri que também defendia a cloroquina contra a Covid e havia até tomado vermífugo por conta própria.

Lembre-se do vô. Somos todos parentes.

Minha mãe queria que aquela reunião familiar tivesse para nós um impacto similar ao do Natal de 1983. Um ano antes, meu tio Walter deixou uma série de dívidas de uma sociedade nas costas do sogro, meu avô, e mudou-se com seu núcleo para o Paraná. Também foi quando, pela primeira vez desde o golpe militar, votou-se para governador de forma direta. Minha mãe apostava em Franco Montoro. Meu tio, em Reynaldo de Barros. E a divergência política foi a faísca necessária para ela descarregar todo o desprezo que sentia pelo cunhado, levando-os a romper. Mesmo falido, vô Raul tentou recosturar as relações na ceia natalina. A paz prevaleceu com o rancor reprimido dos dois lados.

Max herdou do tio Walter, já falecido, um sítio em Londrina, de onde gasta mais tempo repassando devaneios sobre um plano do MST de tomar sua propriedade do que fazendo algo útil com essas terras. Nós nos reencontramos em 2018. E, desta vez, era eu quem tentava engolir o ressentimento para satisfazer minha mãe. Passei a ceia toda evitando uma conversa a dois, pois não conseguia aceitar o fato de ele ter apoiado Bolsonaro – e continuado a apoiar, apesar de tudo. Pouco antes do amigo secreto, ficamos sozinhos na porta do banheiro e ele quis saber minha opinião sobre as vacinas que começavam a ser aplicadas em outros países.

Temos que confiar na ciência. Mal vejo a hora de tomar minha primeira dose. Um absurdo o Ministério da Saúde ainda não ter garantido nossos lotes. Sorte os governadores terem agido.

Primeiro, ele disse que a vacina foi feita a toque de caixa, que não era cobaia e que tudo não passava de um plano dos chineses para enriquecer ainda mais. Depois, sugeriu que o imunizante trazia um microchip para o Bill Gates roubar nossos dados, que ainda poderia alterar o nosso DNA e até controlar os nossos pensamentos. Questionei de onde ele obteve essas informações. Todo mundo sabe disso, respondeu. Afirmei que isso não passava de teoria conspiratória, ao qual ele argumentou: não sabe que muitas teorias conspiratórias foram depois comprovadas.

Olha, Max, quando você passa adiante uma mentira como essa, sem nenhuma fonte confiável, você me ofende como jornalista. E ofende ainda mais a tia, que é bióloga e tem muito mais conhecimento sobre o assunto do que você e eu. Então, vou te falar apenas uma vez. Não envia isso no grupo da família, nem pra tia nem pra minha mãe. Quer entupir o cu de cloroquina? Foda-se. Mas não manda essas merdas pra elas, ok?

Foi a última vez que o vi e o ano já vai acabar de novo. Em breve, haverá mais reuniões familiares, mais ceias, mais amigos secretos. Max estará lá, pois somos todos parentes. E sei que meu primo não mudou seu voto, independente de todos os absurdos deste governo. Deveríamos exercitar o perdão? Afinal, no fim, sobreviveremos e ainda teremos que nos suportar em muitos outros Natais. Desculpe, vô. Foi mal, mãe. Vocês estavam errados. Dos sonhos, eu me esqueço fácil. Jamais me esqueço de um pesadelo.

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