Por todo seu amor e petiscos

(Bruno Vicentini)




Na noite do dia em que Nádia me deixou, eu saí pra pedalar pela vizinhança e envenenei um cachorro. Tava bêbado e contrariado e queria fazer algo cruel.

Era um pequinês, um malditinho barulhento que sempre latia ardido quando eu passava, como se nada mais importasse, como se o objetivo da sua vida preguiçosa e imunda de cão fosse latir pra mim, por entre as grades de ferro. Eles sempre latem mais se você tá de moto ou de bicicleta. Atirei a metade da salsicha por entre as barras do portão e fui embora antes que alguém me visse.

O dia seguinte era um domingo, e acordei com a cabeça latejando. Meus próprios cachorros, que eram três, dormiam no quintal, e começaram a arranhar a porta dos fundos quando perceberam que eu tinha levantado. Passei um café forte, precisava botar algo pra dentro, mas não ia conseguia comer.

No celular tinha uma mensagem de Nádia. Queria conversar, disse que tava na casa dos pais. Eu disse que tudo bem. Pensei em subir por um caminho que passasse na frente da casa do pequinês, queria ver o quintal vazio, em silêncio, quem sabe encontrasse algum dos donos ali na frente da casa, com os olhos inchados, as mãos sujas de terra. O carro na garagem era uma picape imensa, com duas bandeirolas verde e amarelas sobre as janelas laterais, como anteninhas. Antes de sair, peguei na geladeira a outra metade da salsicha, injetei o formicida com uma seringa, cuidando pra não vazar, e guardei na mochila.

Quando Farofa, um vira-latas que eu tive, morreu na clínica veterinária, com o corpo repleto de tumores, me entregaram uma carta datilografada. Hoje é o meu primeiro dia no céu dos cachorros, estou muito feliz. Obrigado por todo o seu amor, e também pelos petiscos. No pé da página tinha uma marca de tinta, no formato de uma pata, a assinatura de Farofa. Depois me entregaram um relatório de todas as despesas.

Farofa só comia ração. Nunca tinha ganhado petiscos.

Pedalando em direção ao centro, me vinham cenas do que eu tinha feito na noite anterior. Sempre tive muito medo de que alguém envenenasse os meus cachorros. Lembrei então de como isso começou, num dia que eu tava passeando com os três perto de casa, a Nádia tava junto. Cruzamos o parque, ela levava na mão uma sacolinha plástica de mercado, pra catar o cocô, o primeiro pelo menos. Era um sábado. Passamos pela academia da terceira idade e depois pelo posto de gasolina. Mais ou menos naquela altura apareceu o Freitas, descendo a avenida num carro todo fodido, aproveitando a banguela.

Buzinou pra mim e encostou. Começou a me xingar, sorrindo, como se fôssemos amigos. Abaixei na janela do carona. Me chamou pra tomar uma cerveja, perguntou o que eu tava fazendo ali, perto da goma dele. Eu disse que também morava ali perto, tinha me mudado não fazia muito. Ele apontou pra uma sobreloja, do outro lado da avenida, eu moro ali, disse. Tudo isso sem descer do carro ou desligar o motor. Era um cara meio perverso, que deixava a gente incomodado quando tava sorrindo demais. Nádia cruzou os braços, uma coisa que ela fazia quando tava nervosa. Eu acenei sem jeito na direção dela e dos cachorros, melhor deixar pra outro dia, eu passo ali na tua.

Nunca mais o vi. Até que recebi uma ligação, e era ele. Queria catorze reais emprestado. Porra, quem pede um empréstimo de catorze reais? Desconversei, perguntei do trabalho, do filho, enquanto imaginava em que sujeira ele podia ter se metido, se tava devendo na biqueira ou o quê. Mas catorze reais? Eu disse que não tinha jeito, que ainda não tinha recebido o adiantamento. Catorze reais. O cara não era meu amigo nem nada.

Foi depois desse dia que o medo se instalou, aquele desgraçado não sabia onde eu morava, mas conhecia o bairro e poderia reconhecer os cachorros, seria fácil, uma casa com três cachorros. Mas o tempo passou e no fim nada aconteceu, acabei esquecendo.

Os pais de Nádia moravam quase no centro. Fiz um caminho improvável, passei pelo Ecogarden e pelo Recanto dos Magnatas, não tinha pressa nenhuma de chegar. A cabeça foi desanuviando, já não me doía tanto. Vi muitos sobrados que tinham faixas verde-amarelas penduradas, e bandeiras do Brasil. Quando passava na frente de um deles, eu freiava e espiava pra dentro do quintal, procurando pelos cachorros.

Acorrentei a bicicleta numa placa de PARE que ficava na esquina da casa dos pais de Nádia, como fazia na época em que nós dois ainda namorávamos, antes de irmos morar juntos. Caio Fernando, um poodle que um dia tinha sido preto, mas que hoje era obeso e cinza, foi quem primeiro me recebeu no portão.

Tirei a mochila quase vazia dos ombros e a apoiei na calçada. Antes que a porta principal se abrisse, Caio Fernando parou de latir. Enfiei a mão por entre as grades de ferro e deixei que ele me lambesse os dedos.

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