Traumatismo ucraniano

Que Clarice Lispector foi a maior escritora da língua portuguesa em todos os tempos, isso é indiscutível. Entre as mulheres (se é que faz sentido esse recorte por gênero), talvez só Hilda Hilst, que também escreveu teatro e poesia, gêneros que Clarice não dominava, se ombreie à judia ucraniana – nascida em Tchetchelnik mas desde os dois anos crescida no Recife. Clarice é menos hermética que Hilda, porém, é muito mais pop e com maior penetração na cultura brasileira, e, se sua escrita tem um lado enigmático, também tem um lado acessível.

Nos anos 60, separada e cuidando de dois filhos – um esquizofrênico e outro bipolar -, sem família por perto e morando sozinha no Leme, a autora pagava os boletos escrevendo matérias de fofoca na Manchete e na Fatos & Fotos, e escrevendo crônicas aqui e ali nos jornais. Não era fácil ser uma mulher separada naquele tempo, e ainda por cima gringa e esquisita.

Mas suas crônicas, assim como sua prosa, não são nada usuais, embora tenham uma prosa muito mais clara do que, digamos um romance como Água Viva. Muitas vezes, embora Clarice busque o tom da crônica – o flagrante do episódio fugaz, miúdo, do dia-a-dia – , sua escrita nada tem da leveza e da objetividade de um Rubem Braga ou de um Fernando Sabino. É uma linguagem muito mais cerebral, uma emotividade muito mais densa, e que não raro distorce os parâmetros da linguagem – e do gênero crônica. Vamos a este texto, uma de suas muitas obras-primas na ficção breve, e que topei de novo no essencial Elenco de Cronistas Modernos (José Olympio Editora) mas originalmente publicado n’A Legião Estrangeira, uma reunião de contos de 1964, mesmo ano em que Clarice publicou seu texto mais filosófico, A Paixão Segundo GH.

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Tentação”

 

Ela estava com soluço. E como se não bastasse a claridade das duas horas, ela era ruiva.

Na rua vazia as pedras vibravam de calor – a cabeça da menina flamejava. Sentada nos degraus de sua casa, ela suportava. Ninguém na rua, só uma pessoa esperando inutilmente no ponto do bonde. E como se não bastasse seu olhar submisso e paciente, o soluço a interrompia de momento a momento, abalando o queixo que se apoiava conformado na mão. Que fazer de uma menina ruiva com soluço? Olhamo-nos sem palavras, desalento contra desalento. Na rua deserta nenhum sinal de bonde. Numa terra de morenos, ser ruivo era uma revolta involuntária. Que importava se num dia futuro sua marca ia fazê-la erguer insolente uma cabeça de mulher? Por enquanto ela estava sentada num degrau faiscante da porta, às duas horas. O que a salvava era uma bolsa velha de senhora, com alça partida. Segurava-a com um amor conjugal já habituado, apertando-a contra os joelhos.

Foi quando se aproximou a sua outra metade neste mundo, um irmão em Grajaú. A possibilidade de comunicação surgiu no ângulo quente da esquina, acompanhando uma senhora, e encarnada na figura de um cão. Era um basset lindo e miserável, doce sob a sua fatalidade. Era um basset ruivo.

Lá vinha ele trotando, à frente de sua dona, arrastando seu comprimento. Desprevenido, acostumado, cachorro.

A menina abriu os olhos pasmada. Suavemente avisado, o cachorro estacou diante dela. Sua língua vibrava. Ambos se olhavam.

Entre tantos seres que estão prontos para se tornarem donos de outro ser, lá estava a menina que viera ao mundo para ter aquele cachorro. Ele fremia suavemente, sem latir. Ela olhava-o sob os cabelos, fascinada, séria. Quanto tempo se passava? Um grande soluço sacudiu-a desafinado. Ele nem sequer tremeu. Também ela passou por cima do soluço e continuou a fitá-lo.

Os pêlos de ambos eram curtos, vermelhos.

Que foi que se disseram? Não se sabe. Sabe-se apenas que se comunicaram rapidamente, pois não havia tempo. Sabe-se também que sem falar eles se pediam. Pediam-se com urgência, com encabulamento, surpreendidos.

No meio de tanta vaga impossibilidade e de tanto sol, ali estava a solução para a criança vermelha. E no meio de tantas ruas a serem trotadas, de tantos cães maiores, de tantos esgotos secos – lá estava uma menina, como se fora carne de sua ruiva carne. Eles se fitavam profundos, entregues, ausentes de Grajaú. Mais um instante e o suspenso sonho se quebraria, cedendo talvez à gravidade com que se pediam.

Mas ambos eram comprometidos.

Ela com sua infância impossível, o centro da inocência que só se abriria quando ela fosse uma mulher. Ele, com sua natureza aprisionada.

A dona esperava impaciente sob o guarda-sol. O basset ruivo afinal despregou-se da menina e saiu sonâmbulo. Ela ficou espantada, com o acontecimento nas mãos, numa mudez que nem pai nem mãe compreenderiam. Acompanhou-o com olhos pretos que mal acreditavam, debruçada sobre a bolsa e os joelhos, até vê-la dobrar a outra esquina.

Mas ele foi mais forte que ela. Nem uma só vez olhou para trás.

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PROPOSTA

Note que a crônica é escrita na terceira pessoa – e por isso é considerada, na verdade, um conto. O narrador observa a cena. Mas ela guarda da crônica o lirismo, o tom de achado cotidiano, de flagrante episódico e, principalmente no fim – uma marca de Clarice – a epifania, a sensação de levitação. Essa identificação do narrador com a cena não é por acaso: Clarice também era ruiva e também morou num subúrbio carioca.

Pois é isso o que você vai fazer. Vai narrar um episódio em que o protagonista encontra um animal, com quem desenvolve alguma relação. A narrativa se passa somente neste curto espaço de tempo em que o personagem encontra o animal – e acontece alguma coisa que não dá certo nessa relação.

Um trauma.

Você vai primeiro escrever o texto na primeira pessoa. E depois, na hora da revisão, vai transformá-lo em um texto na terceira pessoa. Neste processo, perceba que você colocou uma distância entre você e seu personagem. Se quiser reescrever outras coisas por causa dessa distância, tranquilo.

Dependendo do animal que você escolher, o episódio pode ser de um registro específico: dramático, atmosférico, suave, nonsense, trágico, irônico ou cômico.

Dica: Clarice pegou uma característica física do cão – o fato de ele ser vermelho – para identificá-lo à menina. Faça o mesmo: pegue alguma característica específica do animal – pode ser física ou de comportamento – e mantenha-se nela como um eixo para o texto.

Em 3100 toques (é o exato tamanho do texto da Clarice).

 

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