por Américo Paim
Os prédios tinham um desenho curioso, assimétrico, borrado pelo dia cinza e a distância. Antes deles uma área extensa de árvores e mata, no vale logo após os campos verdes à sua frente. Ramon contemplava a paisagem sem interagir. A cabeça estava longe. Sentado em um banco metálico, cotovelos apoiados no espaldar, apenas sentia o vazio. O fim da tarde chegando. Um filete de suor desceu pela testa e escolheu uma ruga para se aninhar. Ele mexia os dedos das mãos como quem aperta o que não existe. Os óculos sujos sobre a coxa direita, junto ao celular no silencioso. Desejou um vento por causa do calor incomum da tarde de setembro. Na verdade, quis mesmo um daqueles furacões, que o levasse para uma terra de não lembrar. Um Ctrl-Alt-Del salvador. Que lhe fizesse apagar, esquecer. Ao contrário, porém, memórias lhe assolavam, como carteiradas sem respeitar filas ou ordem de chegada.
Buscou e achou onde as coisas começaram a descer a ladeira com Nildo. Foi naquele encontro em março de 2019. O lugar foi um café do Rio Vermelho, indicado pelo Bezerra, amigo comum: “lá é tranquilo, dá pra conversar, o preço é justo e a comida é boa”. Não errou em nada. Chegaram depois das cinco, no fim do dia e falaram sobre muitas coisas, como sempre. Seus relacionamentos, futebol, trabalho. Eram melhores amigos desde a adolescência e muito afinados no pensamento sobre os políticos serem quase todos ladrões e pronto. Gastaram o tempo destilando raiva pelos escândalos e roubalheiras, pela falta de vergonha e punição, pela dificuldade de os congressistas entenderem os seus papeis de servidores. Naquele dia, porém, Nildo surpreendeu Ramon. Após os comentários habituais contra Lula e o PT – pelos escândalos acontecidos – ele mostrou simpatia pelo presidente recém-eleito: “não votei nele, como já lhe disse, mas tem esse jeitão que eu gosto, espontâneo…”. Ramon não recebeu bem a abordagem e destrinchou um monte de argumentos contra o mandatário, algo que já fazia desde 2018: “esse cara aí é o pior e é um miliciano!”. A conversa não acabou em briga, só que ficou em um sentimento estranho no ar, um gosto amargo. Ramon saiu dali cismado. Seu melhor amigo, um bolsonarista? Como assim? Um cara tão humano, que ajudava os outros. Dentista voluntário em bairros carentes, que nunca foi rico e sempre trabalhou muito. Espírita e muito solidário. O que houve?
Se reuniram muitas outras vezes nas semanas seguintes e as diferenças se acirraram. Ao fim daquele ano, cada um ocupava uma trincheira. As disputas sem fim ou acordo foram salvas do desastre total pela amizade, velha e sólida, uma sobrevivente. As boas histórias e as afinidades naqueles novos tempos estavam em segundo plano, só servindo para segurar a estrutura, evitar o colapso. Ramon defendia suas convicções, mas relevava muitas coisas. Julgava necessário. Nildo não era mais o mesmo desde o suicídio de Vilson, o irmão mais novo. Uma cena horrorosa que ele presenciou e não conseguiu evitar o pior. Ramon ainda achava que aquele momento contribuiu para o novo comportamento do amigo. A revolta e a tristeza teriam aberto as portas. Não conseguia explicar, apenas sentia haver conexão.
Ramon não conseguia esquecer o telefonema de Nildo, em uma tarde de sábado, no início do ano: “Vilson teve um surto e se matou”. Desse jeito. Nunca haveria resposta convincente ou teoria para explicar ou que consolasse. Ficou a culpa, a lacuna. Esteve todo o tempo ao lado do amigo, que afundou em amargura e dor por muitos meses e o assunto era proibido. Nildo não falava sobre aquilo. Apenas se consumia. Muita ajuda foi oferecida, mas pouco ou nada surtiu efeito prático. O amigo não se perdoava e entrou em um casulo. Só gente muito próxima, como Ramon, conseguia se aproximar. A situação levou o próprio Ramon, que nunca acreditou muito em tratamento psicológico, a fazer terapia, para saber como ajudar o amigo. Tinha muito medo do que Nildo pudesse fazer. Encarou as sessões até o fim de 2019, quando sentiu que aquilo não estava funcionando.
Não houve tempo para um encontro sequer entre Ramon e Nildo nos primeiros meses de 2020, por causa das viagens de férias e dos compromissos de trabalho. Aí chegou a pandemia. Começou o “fique em casa” e eles passaram a se falar apenas pela telinha do celular. Ramon não fazia ideia do que viria pela frente. No início, foram as opiniões do amigo sobre teorias de conspiração sobre a Covid-19, as cepas, a contaminação, as mortes, o desabastecimento, a quebra da economia e tal e coisa. Logo ele passou a expor seus pensamentos conectando à polarização política, repetindo as falas bolsonaristas, sobre pátria, religião, minorias. Até adotou “governo militar” no lugar de ditadura. Tudo se consolidou pouco a pouco, mas de forma consistente. Estava mais intolerante, criticava a vacina por ser chinesa e comunista – ainda que dissesse que a tomaria. Seu consultório ficou fechado de forma temporária e ele bateu seguro nas propostas de confinamento. Se criticassem as posturas e falas de Bolsonaro, ele vinha com evasivas. Assim foi por todo o primeiro semestre. Migrou fácil de amargo e provocador para tosco e beligerante. As conversas eram curtas e não raro acabavam mal. Eventos que Ramon queria esquecer.
No início de agosto, Nildo sumiu de redes sociais e não atendia ligações. Quando Ramon já estava preocupado e considerando abandonar o isolamento para ir à casa do amigo, veio a bomba. Uma mensagem curta: “tenho câncer e está avançado”. Choraram juntos ao telefone. Sentiram falta do abraço de sempre, do olho no olho. A imunidade precisava estar alta para o tratamento, então não era recomendado que se encontrassem. Ramon passou dias em tristeza profunda, a lembrar de como as coisas sempre foram e como estavam. Queria dormir e acordar esquecido, como em um sonho ruim. Nildo não quis que ninguém soubesse, então as conversas pelo Zoom com os outros amigos tornaram-se uma tortura para Ramon. Todos falavam sobre tudo, planos para após a pandemia, encontros presenciais, sem que ninguém soubesse do problema de saúde. Nessa época, Nildo alcançou intolerância nível máximo. Agressivo, debochava das “ideias comunistas” dos amigos e sempre tinha respostas duras.
O caso George Floyd foi o exemplo mais triste. Ele estava indignado com a proposta por um “George Floyd Day”: “um marginal vai virar herói? Esquecem que tinha ficha policial?”. Não aceitava que o criminoso era o policial. Que houve abuso de poder, racismo. Que a ideia do dia era para defesa de uma causa, protesto pela execução sumária. Não era santificação do morto. E aí se exacerbava, falando tolices como racismo reverso, dentre outras. Defendeu Trump e Bolsonaro, sem aceitar que este fosse um entusiasta da tortura, um despreparado. Como se não bastasse, negava os vídeos com o presidente atacando, ofendendo, desdenhando, ignorando, debochando: “tudo montagem – isso é fácil de fazer, você sabe!”. Ramon vivia dividido entre o sangue fervendo para confrontar as ideias absurdas do amigo e a compaixão pela sua doença, amenizava, trazia outros assuntos.
Tudo piorou. A crença de que talvez uma conversa franca pudesse resolver foi se desmoronando. A pandemia arrefeceu, mas não se encontraram. Uma dor apertava dentro de Ramon. Será que o amigo tinha apagado o que sempre foi, a pessoa que jamais abrigaria ideias bolsonaristas? Ou será que ele sempre foi desse “novo” jeito e só precisou de oportunidade para que tudo aflorasse? Parecia caso de possessão que precisasse de exorcismo para extirpar. Mas não houve cura. De nenhum dos males.
Essas recordações do que se passou em pouco mais de três anos morreram ali, naquela tarde de primavera. Ramon olhou o campo verde à sua frente. O sol já caía. Enxugou os olhos e a testa. Caminhou devagar até o limite da quadra, uma área demarcada. Sobre a pedra fria com o nome do amigo, depositou um ramo de flores amarelas. Era sua cor preferida. Saiu dali com suas lembranças, muitas por esquecer e outras boas. Só não dava mais para o abraço.
