(Angélica)
Depois de jogar aquele monte de coisas pela janela, tomei um banho muito mais demorado do que o habitual e, ainda pingando, me enrolei no lençol da minha cama. Além de ser verde claro, o elástico fazia com que ele ficasse bem preso ao meu corpo, algo como um charuto de repolho. Me sentei no chão da sala grudando as costas na parede oposta à porta entrada, por algum motivo estava aberta, e em seguida cobri a cabeça. Até hoje me pergunto se eu achava que uma borboleta azul ia sair de lá.
Permaneci um bom tempo parada, como uma lagarta soltando as peles, até ouvir um barulho no corredor. Abri uma fresta no lençol deixando apenas o meu olho de fora: ao me ver, o vizinho desistiu de entrar no apartamento dele e estava vindo na minha direção balançando o molho de chaves.
– Está tudo bem?
– Por acaso eu estou chorando? – Uma hora ele olhava para mim, na outra virava o pescoço para inspecionar a sala.
– Melhor você levantar daí.
Ele estendeu o braço para me ajudar e assim que eu fiquei em pé, percebendo que eu estava sem roupa, colocou a mão na minha bunda. Me afastei calada. Em seguida, foi até a mesa do meu computador e disse:
– Você não vai jogar isso pela janela, não é? Ou vai matar alguém.
– De jeito nenhum! A Polícia Federal precisa ver o que tem aí dentro.
– Promete que vai para a cama agora? Não faz mais nada hoje, está bem?
– Não, não vou sair, prometo.
Ele arregalou os olhos e disse – Você está pensando em sair?
– Estava, uma voltinha só – respondi dando uma risada.
Ao ir embora, ele insistiu para eu trancar a porta e não abrir mais. Não me recordo se fui dormir ou se fiquei perambulando pelo apartamento já que eu não conseguia parar quieta.
No outro dia, antes mesmo de tomar café, fiz um vestido com um cobertor xadrez em tons de cinza amarrando o lado mais curto em volta do pescoço e desci para a rua. Lembro de ter gostado de como ficou. Já que ninguém me pagava nem passava trabalho e eu tinha que cuidar do meu tio, enquanto o Théo, o egoistinha, não tomava conhecimento e ainda me apunhalava, cheguei à conclusão de que era melhor virar mendiga. Só uma pessoa podia me salvar, os outros, com exceção do tio Arthur, mereciam explodir. Descalça e com o celular na mão, fui para a calçada do prédio da frente. Sebas estava num dos apartamentos e para descobrir em qual, eu precisava resolver uma equação matemática que aparecia na tela do meu telefone. Eu fazia as contas, chegava num número e quando eu tocava o interfone, falavam que não tinha ninguém com esse nome, era engano. Depois de várias tentativas e de muitos nãos, me encostei numa mureta e comecei a chorar.
O olhar de reprovação do zelador do meu prédio fez com que eu voltasse para o meu apartamento. Toda vez que alguém me olhava dessa maneira, eu parava e me recolhia. Era como se tivessem me prendido dentro de numa chaminé, e isso me deixava bastante triste. O que ninguém entendia era que eu “precisava” fazer essas coisas.
Logo depois, a campainha tocou. Era o vizinho. Só então descobri que ele se chamava Fabinho e esse nome não combinava em nada com sua aparência. Grandalhão, acima do peso e não ia demorar muito para ficar careca. Fora as olheiras enormes e pretas. Comecei a rir porque eu cismei que ele era um panda-gigante.
– Não tenho bambu aqui.
– Como?
– Nada. Quer um café?
Ele me deu um vestido azul-marinho com flores amarelas, achei bonito, bem melhor que meu modelito de mendiga. Devia ter pensado que eu não tinha mais nenhuma roupa. Na verdade, eu não estava dando a mínima para isso, nem fui olhar se havia sobrado algo no armário.
– Põe o vestido, quero ver seu corpo.
Titubeei mas como ele insistiu, acabei cedendo. Não me agradou nem um pouco ver o panda babando, por isso me vesti depressa e fui encher a chaleira. Enquanto eu pegava apetrechos para fazer o café, ele ficou mexendo no meu celular. Parecia uma criança que tinha aprontado. Deixei barato, o meu estômago estava doendo, queria mais comer alguma coisa. Fiz umas torradas na frigideira que voaram como panquecas.
O panda comia bem, também pudera, pelo tamanho da barriga. Assim que acabamos, ele pegou minha mão e me levou para o quarto. Se quisesse me estrangular, serrar meus ossos e fazer um cozido, seria fácil. Só quando eu já estava no matadouro, percebi que esse panda não era nem um pouco herbívoro, gostava de carne e de preferência crua. A visão da careca suada, os dedos grossos apertando minha cintura e a língua afoita ligaram o alarme para que eu saísse correndo, mas de novo a chaminé não deixou. Esperei o panda acabar de me lambuzar.
Antes de ir embora, ele pediu outra vez para que eu não pusesse o nariz para fora e deixasse a porta do jeito que estava, trancada.
– A porta está aberta.
– Eu tranquei depois de entrar.
– Pode ver, eu consigo abrir qualquer porta sem tocar nela.
O panda abaixou a maçaneta e fez uma cara de espanto quando percebeu que eu tinha razão. E eu me senti o máximo, tinha aprendido a fazer magia.
Antes do almoço, a campainha tocou de novo. Uma mulher um pouco mais jovem do que eu e de pernas grossas me deu um prato enorme de macarrão com uns pedaços de frango. Enquanto eu comia, descobri que se tratava da esposa do panda. Achei ela boa demais para ele. Agradeci bastante e disse que ia descansar.
Mas que nada, fui no supermercado de vestido cor-de-rosa choque e pantufas de pelúcia branca até quase o meio da perna. Comprei muitas flores e espalhei os vasos pela sala. Também levei o liquidificador, as meias-calças das formigas que me deram muita angústia e um aquecedor elétrico para a lixeira da rua. No começo da noite, lembro de ter me sentido pronta, não sei falar para quê, mas no outro dia eu fui internada.
Só depois que eu tive alta, soube que quem avisou a minha família de como eu estava foi o panda. Ao mexer no meu celular, deve ter procurado a foto de alguém mais velho no Whatsapp, achou que o tio Arthur era o meu pai e ligou para ele.
Por muito tempo acreditei que ele tinha se espantado com a minha habilidade mágica, afinal não é todo mundo que consegue destrancar uma porta de longe. Mas e se a mulher dele tivesse entrado e visto o passeio no matadouro? O panda ainda mandou algumas mensagens me felicitando pela recuperação, até que parou e nunca mais nos falamos. A última visualização dele no Whatsapp foi no dia 24 de abril. Desconfio que ele morreu. Não gosto nem desgosto do panda, prefiro não pensar nele. Uns morrem de uma vez, outros aos poucos.
