Para Giuliana Vallone, Sérgio Silva e semelhantes
Eu vi com esses olhos que a terra há de comer – sempre odiei esse ditado. E também aquele outro, que é pior ainda: olho por olho, dente por dente. Logo os dentes, essas pedras todas cagadas de açúcar, que podem ser trocadas por um caco de porcelana ou metal. E ainda por cima são mais de trinta (uma boca pode ter até quatro a menos sem dar falta). Olho não. São só dois e, se eu pudesse escolher, antes banguelar cem por cento do que perder um deles. Mas há quem diga esse tipo de babaquice. As línguas, claro, outras idiotas. Vê se pode.
Ainda sobre bobagens: em terra de cego, quem tem um olho é rei. É dose. Quem me dera, aliás. Sou um direito de primeira por natureza, essa é a verdade; e ainda entreguei resultado por dois a vida toda. Bem no começo, quando eu desvendava as cores, descobri que o Esquerdo era um pouco dodói. A Central passava um comando simples e ele já ficava tontinho, zureta total. A língua de algum doutor disse que o Esquerdo era estrábico. Me dá muito trabalho, só que nos damos bem, ele no canto dele e eu na atividade. Já foi motivo de deboche, foi chamado de vesgo, já viu e já deixou de ver muita coisa. Mas quando os olhos do marido da Pessoa elogiaram o olhar da Pessoa, miravam o Esquerdo. E eu só no sorria que estou te filmando. Vê se pode.
Levei minha vida assim, várias vezes vendo tudo e mais um pouco, muito ligado, muito ativo, positivo e enxergante. Na labuta. Todos importamos, cada um no castelo da sua função, partes de um todo maior – papo de ilusão de ótica que a Central me dá pra trabalhar dobrado. Sim, pois quem bota o colírio na mesa sou eu, essa é a verdade. Faço e faço bem feito. Tantos anos me enfiando atrás de uma lente, o Esquerdo saindo de cena pra não me atrapalhar, eu atento à luz, ao movimento, ao mundo em retrato na minha frente. Todos importamos… Vê se pode.
Já vi famoso fazendo pose, político fazendo discursos enormes e cagadas maiores, lhama cuspindo grama, greve com fumaça de pneu e com arrego de pelego, comida com maquiagem pra publicidade, casamento, velho cortando prepúcio de bebê . A Central me diz que cada trabalho é mais elogiado que o anterior, que sou um gênio, mas nunca gastei a vista com os resultados. Iluminação artificial, colorização artificial e edição artificial, nada flagra os momentos como eu. E os prêmios, os críticos, os especialistas todos acham que vêem no papel e na tela as mesmas coisas que eu. Vê se pode.
Hoje bati o ponto mais cedo. Bati no espelho pra Pessoa bater uma água no corpo e uma base na cara. Bati na dúzia orgânica pra Mão não bater nenhum ovo podre e não bater mal no Estômago. Localizei a bagunça da casa e, antes de passar a arrumação em revista, a Central foi chamada. Quando vi, já estava o farolão dos dois olhinhos, com o resto da cara enfiado no Mamilo, me cravando o brilho de quem ainda não viu a vida. Não é por nada não, mas acho que os santos das nossas córneas batem, acho que eles vão com a minha íris. Os olhos da Pessoinha, como diz o Esquerdo. Eu vou também, e poderia passar muitas horas sem fazer mais nada, só vivendo da luz deles na minha luz. Perco o foco mesmo, quase me esqueci de checar as horas – tudo por causa desses projetos de pupila. Vê se pode.
Cheguei no mar de lâmpadas frias e na maresia de ar-condicionado da redação, já ressequei. Encarei por horas programas de edição, ícone de setinha, já me irritei. Só queria partir pra rua, pro ao vivo e a vistas. Até que veio o aviso da Central, verifiquei o jogo de lentes e o capacete azul com a logo do jornal: vamos que vamos pra ver no que pode dar.
Deu em muita coisa, que eu não deixei passar e o Dedo me acompanhou no clique sem piscar: catraca de papel em chamas, pisoteada por uma pessoa com pano na cara; pessoas segurando cartazes com o número 3,20 e um grande x depois da vírgula; pessoas sorrindo antes de ver o gás; pessoas abanando bandeiras vermelhas, amarelas e pretas; e pessoas dando bandeira do pavor ao primeiro pocotó. Vi a viseira dos cavalos protegendo dos estilhaços, vi os cascos dos cavalos nas costas dos mais mancos; vi um surdo dizer, “os porcos do choque vêm aí”.
A Central garantiu que meus colegas da lei enxergavam, por trás do acrílico dos escudos, as faixas fosforescentes e a palavra imprensa no colete da Pessoa. Então fui fazer o que faço de melhor. E me apareceu a oportunidade do maior trabalho da minha vida. Flagrei o buraco do cano fumaçando, a Central fotografou, a bala de borracha veio e furou a lente, quase tão achada quanto bala de chumbo em favela. Meu mundo caiu, saí da órbita, rolei no chão.
Penso no Esquerdo zuretando à minha procura, mais cego do que cego de verdade. A verdade é que eu queria só vê-lo uma última vez pra dizer, pelo fosco vermelho do meu branco, que ele pode viver sem mim. Que ele pode brilhar com o brilho da Pessoinha, que ele pode crer pra ver, que ele pode. Mas não vou poder ver mais nada. Eu, esse olho que algum coturno há de esmagar e que esse asfalto não há de querer comer.
