A gente se vê

por Américo Paim

Meu olho esquerdo.

Eu até já devia tá é acostumado com sua falta. Seo Fenelon sempre diz que sou um home de visão única. E dá risada. É ele mermo, o genro do Véi Nogueira. Tu precisava ver como ele agora manda na porra toda. Nem se parece com os tempo que ficava se borrando. Depois que o véio bateu as bota, tomou foi conta de tudo. Pedra Velha se treme com ele.

Antes de explicar a carta, deixe contar as novidades. Depois que a ferida do seu lugar cicatrizou, ficou feinho, aí coloquei um tapa-olho marrom, quase da cor da pele. Só me deu foi problema, véi. As pessoas daqui vive com muito medo da minha pessoa, coisa que até gosto, e aí danaro a falar, inventaro que eu fiz com pele de home que cortei no facão. Óia que isso né justo. Até já tem umas cruz na minha conta, mas nunca esfolei gente não. E tem mais. Lembra do meu crucifixo, que a finada dona Mariinha, que deus a tenha, me deu? Dizem que eu fiz do metal de dente que torei de um monte de desgraçado que passei na bala. É muita culhuda, véi. Ah, falando em tiro, ói só, minha mira ficou mió depois que tu partiu. É verdade. Com um olho só eu pego é tudo, parado ou avuano. Num erro de jeito nem maneira e pode ser da lonjura que for, de trezoitão, de 45, espingarda… Tô lhe dizendo. Nego se caga quando me vê armado…

Eu me mudei, viu? Saí daquele brejo no pé do Morro do Coentro. Depois do acontecido, que arrancaro tu de mim, Seo Fenelon me arrumou uma casa pequena, mas aí fui ajeitando. Precisava de um lugar decente pra criá a pequena. Sabia não, né? Apois, eu peguei a filha de Maria pra mim. Peguei por caridade, roubei não. A única coisa dela que sobrou, fora uma foto que Zé tinha na mala, que roubei mermo e guardo escondida, fora da casa. O véi Nogueira mandou queimá o resto tudo. E Seo Fenelon, o viúvo, num fez foi nada. Guardou a raiva toda nas entranha. O povo fala que ele matou o véi. Eu num duvido… Ali é ruim que nem o cramulhão.

Voltando pra menina, o pai dela, Zé Todinho, endoideceu. Só no goró. Num tá vendo que num ia tratar a menina direito? Num lembra de disgraça niúma, nem que tem uma fia. E se lembrar, por mim mata logo, porque a coisa vai inchá pro meu lado…

É estranho escrevê pra tu, um olho que pelas coisa de deus já tá cego e morto, mas tá tudo explicado adiante. Pensei muito antes, e como tinha precisão, fui em Madame Silveirinha na casa da árvore. A véia tava virada no mói de coentro e me disse foi coisa, viu? Um leriado assim, mais ou menos…

home, pense forte… mas é um olho e já deve é tá roído e tudo… e daí? Num atrapalha é nada…  se inhora tá falando… oxe, se tu já fez foi coisa nessa vida… me ajude… eu tô lhe dizendo que escreva a tal carta que o futuro é de deus… e vô dizê o que?… é tudo, passa a limpo pro mode diminuir a dívida no dia do acerto com o altíssimo…  eita óia que pensei nisso, dona… só vai lhe ajudar, agora, se num quer conta de me escutar, tome é seu rumo agora… oxe, calma aê, é que eu tô com medo de umas coisa, só que num falo disso aqui não… nem precisa porque já sei… oxe, acuma?… é minha natureza saber… eita porra, assim fica complicado… nem pense em me fazer mal… a senhora tá é se arriscando com essa conversa… venha pra cima de mim não, moleque, que aqui tu num se acha… eu num tô dizendo nada… siga seu caminho que tenho mais o que fazer… eu agradeço, dona Silveirinha…

Apois, essa carta é de medo, num vô mentir. Vi foi coisa com esses óio que a terra há de cumê – opa, foi mal aí. Sei muito, e aí é que posso me lascar todinho. Só confio mermo é em tu, porque, como eu disse, o Zé Todinho tá aluado. Seo Fenelon diz que as lembrança tá tudo voltando nele. Me arrupio todo só de pensar. E se ele alembrar? Daquele dia só sobrou eu, ele e tu. O resto morreu, Niginho, minha Maria. E a menina num conta, né?

Acontece que nas últimas vez que alembrei do dia que a gente se separou, fiquei pensando se tu viu tudo depois que saiu rolando na ponta da faca de Niginho e caiu ali no breu da noite. Eu mermo nem sei onde tu foi parar e se vai conseguir ler. O mais certo mermo é que tu já deve tá é podre ou virou comida de bicho, mas como aqui em Pedra Velha se vê de tudo… eita, desculpa. Aquilo lá num foi coisa boa não, quem tava ditando as regra foi o sete-pele. Achei que num me custava escrever. Primeiro umas coisa que tu sabe.

Uns dias antes de tudo, eu tava no meu serviço na fazenda e o véi me chamou no casarão.

Miro, tenho notícia boa… apois, Seo Nogueira… achei os fujões… eita, onde?… em outro estado, mas precisamos agir rápido…é só falar… você não vai sozinho, vai também o filho de um amigo… e quem é?… Niginho, o pai é boa gente e me deve uns favores… e o lugar é longe?

Ele fez sinal pra calá a boca. Me levou na sala onde guardava livro e tinha mesa redonda de carteado pros amigo. Foi lá que abriu um mapa, fez uns risco e mostrou o lugar. Era longe não. Um dia de ônibus e umas hora de montaria. Me deu dinheiro e avisou que era pra saí logo cedo no outro dia. O tal Niginho só conheci na rodoviária mermo. Preto magrelo, com jeito que aguentava porrada e um olho azul grande que até dava medo. Cabelo sarará e cara de furico, mas me falou com respeito. Deixei claro que eu mandava. Num deu um pio a viagem toda. E foi igual no cavalo pra dentro do mato.

Eu tava agoniado pra ver Maria Cristina. Nunca contei a ela sobre o que eu sentia, mas tu mermo via como era mais linda que tudo. Se soubesse, Seo Nogueira matava e inda cortava os bago fora. Eu lhe digo e tu sabe que eu amava ela de verdade. Ela se amaziou com o Zé e me deu muita tristeza, tu sabe porque ali eu chorei. Quando eles fugiram de Pedra Velha, avexei que só. Seo Nogueira tava feito bicho. Jurou que num descansava até encontrar os dois. Agora eu tava perto de salvar Maria daquela sina. Eu ia era salvar aquela boniteza da mão do desgraçado que levou ela pra longe das minhas vista, quer dizer de nós, né?

Não sei como nem porque, o casal fugido de pé do endereço. Seguimo os rastro e acabamo naquele morro alto no meio do mato, cheio de neblina. Quando chegamo no topo, eles num tinha saída. O Zé nervoso, faca na mão. Eu tava de bala. Avisei que me deixasse levar Maria, que tava assim num matinho, escondida. Aí ela saiu, toda uma beleza, de mão dada com uma criança menina. Ele embuchou minha Maria. O sangue subiu e corri dentro do cabra. Demorô mas tomei o facão dele. Num queria dá tiro, o véio num autorizou. Zé ainda tava sentado no chão e olhei Niginho conversando com Maria como quem conhece faz tempo, óia! Eu já ia ter com ele, aí veio a tragédia, tu lembra, né? Ela caiu, voou no meio das nuvens, naquela pirambeira. Eu gritei à toa e Zé ficou olhando pro lugar onde ela caiu, com a cara avoada que tem hoje. Hoje eu digo que num sei se ela pulou ou ele empurrou. Agora num tem mais serventia pensar. Fui pra cima de Niginho. Ele mostrou que tava armado e falou comigo.

Venha não, Miro, acaba aqui… Oxe Maria morreu, home… ela só seguiu o que era pra ser… tá maluco?… ela sabia do destino, agora é a menina… tô entendendo nada, misera… a filha vai cumprir a missão, sem ninguém no meio do caminho, nem você… tu vai morrer, desgraçado, matou minha Maria… nunca foi tua, deixa disso, siga a vida… é nada, tu paga é agora… tu não me mata, Miro, eu já tô morto

Eu gelei quando ouvi isso, mas me peguei com ele. Até aí eu sei que tu viu. Acontece que ele me pegou de surpresa e passou o facão em tu. Foi numa facilidade que só vendo… opa, desculpa de novo. Senti o sangue descendo, puxei o trabuco e o tranco do tiro foi tão bruto que ele caiu lá de cima na hora e se acabou perto de Maria. Então voltei pra Pedra Velha, com pai e fia. Ia dá cabo do pobre diabo, mas Dona Mariinha pediu por ele e Seo Nogueira mandou poupar. Hoje ele vive na cachaça e ela tá comigo. Ninguém vai tirá como foi com tu. Ela é uma só.

A gente se vê. Eita…

Miro Fragoso.

Deixe um comentário