Abstenção

“Cadê meu papel?” A voz do marido, num tom mais alto do que o necessário para que a mulher ouvisse, veio do hall. Com a chave na mão, ela suspirou.

“Que papel?”

“Aquele de votar.”

“Ah, o título? Não precisa mais. Você não baixou no celular?”

“E eu tenho tempo para isso? Eu trabalho, esqueceu?”

Suzana não respondeu. Sabia que quando Walter falava daquele jeito não havia como argumentar. Em vez disso, foi até o escritório do apartamento e voltou com o título de eleitor dele na mão.

“E você acha que vai votar com essa roupa?”

“Roupa? Como assim?”

“Primeiro que tô vendo peito demais nesse decote. E depois, cadê a camisa amarela que te comprei?”

“Esqueci de lavar depois da motociata.”

A mão do homem passou fazendo vento no nariz de Suzana. O soco atingiu o olho mágico, que se soltou da porta com o impacto.

“Tá vendo o que você fez?” Ele chupou o sangue que escorria do nó dos dedos.

“Eu? Cê tá louco?” O lamento veio entrecortado por soluços.

“Você me tira do sério. A culpa é sua!”

O susto fez com que Suzana recuasse para o interior do apartamento. De onde estava, percebeu a sombra sob a porta do apartamento vizinho.

“Melhor conversar aqui dentro”, conseguiu articular.

Quando voltou à sala, estava vestida com a camisa da seleção e trazia o estojo de curativo.

“Desculpa, Suzana.” A voz dele soou baixinho.

“Às vezes acho que seria melhor eu ir embora.” Ela também falava em tom baixo enquanto limpava a pequena ferida.

“Você está falando em separação? Não sem um herdeiro. Depois que você conseguir me dar um filho, aí sim podemos conversar”, retrucou Walter aparentando calma.

Terminado o curativo, ela manteve a cabeça baixa.

“Além do mais, como advogado, eu ia te esfolar”, continuou ele na tentativa de fazer graça.

“Eu sempre posso contratar o Otávio…” Estancou a frase com o marido apertando seu braço.

“Nem pense nisso. É sério.”

Suzana sabia que Walter queria um herdeiro para agradar ao pai. O velho buscava uma compensação pela fortuna que havia gastado na tentativa de encaminhar a carreira do filho.

No colégio onde votariam, havia muita gente vestindo amarelo como eles. Votavam em salas diferentes. Na dele, havia mais de quarenta pessoas no corredor.

“Caraca! Puseram todos os velhos de bengala na minha seção”, disse sem questão de ser discreto. Várias pessoas que estavam na fila olharam para trás na direção deles, incluindo uma moça de vermelho.

“Olha aí”, rosnou o marido. “E tá cheio de eleitor do Nove Dedos por aqui.”

A moça virou o torso e apontou para a logomarca das Lojas Americanas bordada no lado esquerdo de sua camisa polo.

“Vamos ver como está na minha sala”, disfarçou Suzana.

Como havia pouca gente à espera, ela entrou na fila.

“Ah, mas eu que não vou ficar aqui de bobeira”, informou ele. “Depois do almoço, espero que essa velharada tenha sumido.”

Assim que Walter se virou para ir embora, percebeu um alvoroço no começo do corredor. Teve de distribuir algumas cotoveladas para chegar mais perto. No centro de uma roda de curiosos, um homem era contido por dois policiais militares.

“Posso saber de que se trata, oficial?”, perguntou a um dos guardas ao mesmo tempo em que sacudia a carteira da OAB.

“Sou cabo”, respondeu o fardado. “Este cidadão foi flagrado com uma arma.”

“E os senhores vão prendê-lo só por isso?”

“Sim. Vai pra delegacia. O porte está proibido durante a eleição.”

“Permite que eu fale com o meu cliente?”

“É seu cliente? Então fala.”

Walter se aproximou rapaz de não mais de vinte anos, cujo rosto tinha perdido a cor. “Escuta, vai votar em quem?”, perguntou de forma que só o outro ouvisse.

“No capitão”, sussurrou de volta o rapaz.

“Senhor cabo” − Walter se dirigiu em voz alta para o líder da dupla –, “invoco a prerrogativa que todo cidadão tem de votar. Até mesmo os encarcerados. Exijo que ele possa exercer esse sagrado direito. Depois, os senhores podem dar andamento à rotina policial.”

Os guardas trocaram olhares cansados. De comum acordo, entraram na sala de votação arrastando o rapaz, para espanto dos mesários. Depois que o preso voltou da cabine, os policiais o reconduziram para fora.

“O doutor não vem com a gente?”, quis saber o cabo.

“Não, ainda não votei. Eu os encontro mais tarde na delegacia…”

“Trinta e seis.”

“O quê?”

“Estamos indo para o trinta e seis distrito.”

Walter acenou para os dois e acompanhou a pequena multidão até o pátio.

“Ganhei um voto”, sorriu ao passar por Suzana. Sempre conta.”

Ela se apoiou na parede quando o marido foi embora. Aproveitou a espera para fazer um balanço dos três anos de casamento. O homem que a abordou na Festa do Peão tinha o corpo malhado e um sorriso cujo brilho contrastava com a barba escura e bem aparada. Além disso, era rico, como fez questão de alardear desde o início. Ela também tinha consciência dos próprios atrativos: a bunda bem delineada, os seios firmes, olhos grandes e castanhos. Os cabelos, mantinha no estado original, pretos e lisos.

Acima de tudo, o que a fez decidir ficar com Walter foi a delicadeza que ele demonstrava em relação ao sexo. Ao contrário da totalidade dos homens que havia conhecido desde a adolescência, não quis trepar na primeira noite. Nem na segunda ou terceira. A razão ela só descobriria mais tarde.

Casaram-se com uma grande festa e foram morar no apartamento comprado pelo sogro em Moema. Fazendeiro, o velho havia tentado de todas as formas encaminhar o único filho na carreira até que conheceu Otávio Ramos. O “Rei do Divórcio”, ou “Esfolador de Maridos”, como é conhecido na área de direito de família, aceitou a oferta de sociedade, desde que ele próprio permanecesse como administrador do escritório. Afinal, era quem fazia a diferença nos processos. Walter se revelou nada mais do que um razoável relações públicas.

O marido bebia na varanda quando ela chegou. Sem camisa, exibia a incipiente barriga típica de quem parou com a academia.

“Cumpriu sua obrigação cívica? O presidente diz que vai fazer setenta por cento.”

“Que bom”, ela disse automaticamente.

“Sabe o que seu estava pensando?” Ele mesmo respondeu: “Que você devia pintar o cabelo de loiro. Combina bem com a camisa da seleção.”

Suzana viu que o marido já estava bêbado. Resolveu que não era saudável cair na provocação.

“Vou tomar um banho.” Na verdade, estava angustiada para tirar aquela roupa com que não se identificava havia alguns anos.

Ele entrou no banheiro logo atrás. Esticou o braço para fechar o chuveiro e a arrastou para o quarto.

“Deixa eu me enxugar pelo menos”, ela protestou.

“Não, que aí a vontade passa.”

Walter jogou-a de costas na cama e pressionou o corpo sobre o dela. Ficou imóvel por um instante. Bufou impaciente. Com gestos bruscos, virou-a e montou novamente. Arfou. Expeliu o ar com um ronco doloroso. Finalmente, rolou para o lado.

“Você é a culpada”, disse ele.

“Eu, culpada?” A mulher explodiu. “Você fica brocha de tanta bomba e eu que levo a culpa?”

Desta vez Walter não desviou o soco. Com meio corpo erguido, soltou o punho, que martelou a face esquerda de Suzana.

Ela levantou num salto e se trancou no banheiro. Dez minutos depois, quando abriu a porta devagar, o marido roncava de barriga para cima.

Suzana foi até o closet e acionou um botão sob a sapateira. Usou as duas mãos para deslizar o espelho até que o cofre ficasse inteiramente exposto. Digitou a senha: o nome do cachorro com nome de uísque que morreu atropelado quando Walter era criança e o ano em que isso aconteceu. Ele não se cansava de repetir essa história. Tirou as pastas com documentos da frente para alcançar a maleta branca de material rígido que ela sabia estar repleta de dólares e euros. Também apanhou a pistola e dois carregadores acondicionados em uma caixa de couro com a inscrição “Walther – Mod. PPK”.

No escritório, digitou a senha no celular dele, desta vez ao contrário − primeiro “1992”, depois “Logan”. Imprimiu várias cópias de uma foto e as distribuiu pelo apartamento. A selfie mostrava Walter sem camisa na cama do que parecia ser um quarto de motel. A loira ao seu lado escondia o rosto com um travesseiro, mas no reflexo do espelho era possível decifrar o nome “Otávio” sob a curva do seio. Aquela imagem era a garantia de que se alguém tivesse de sair esfolado do processo de divórcio, não seria ela.

O relógio do elevador marcava dezessete e dois. Suzana pôs os óculos escuros e saiu para a rua puxando a mala de rodinhas. Jogou os cartuchos um a um nas lixeiras que encontrou no curto trajeto até o metrô. Na calçada da estação, um homem sentado num cobertor estendia a mão tendo ao lado um vira-latas preto. Suzana se abaixou e lhe entregou o saco plástico com a pistola.

“Isso deve valer um bom dinheiro”, disse.

O cachorro ergueu as orelhas e, sem mover a cabeça, pôs os olhos opacos sobre ela, como para agradecer o presente.

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