Caverna

_Papai, sabia que meninos têm peru e meninas têm gengiva? 

Essa gracinha me foi dada de herança pelo meu pai, que sempre contava a história do filho de um amigo. A lembrança vinha a cada dor fina oferecida pelo toque da espátula do dentista nas cavidades formadas entre minha gengiva retraída e três dentes do lado direito superior da minha boca. Decidimos que as cavernas seriam preenchidas por resina como uma forma de aplacar a sensibilidade, que praticamente me impedia de mastigar nesse lado da boca. 

Por consequência, ou talvez causa – já pouco importa – o lado esquerdo, sobrecarregado, vinha sofrendo e me provocando dores no maxilar. O bruxismo havia voltado com tudo. Na minha boca também entardecia uma segunda-feira com requintes de Idade Média como essa pós primeiro turno. Eu fui todinha de margem do Ibope para o procedimento, que mal havia começado e doía uns 50 pontos percentuais a mais do que havia previsto na boca de urna. 

Franzi a testa. 

_Letícia, você levanta a mão quando estiver com dor, ok? 

Levantei a mão. 

Quando eu tinha 13, meus pais me levaram para a Itália e numa cidadezinha dessas com ladeiras, ruas estreitas, calçadas e casas de pedra fomos parar, também num dia cinza, no Museu da Tortura. O espaço exibia toda sorte de equipamentos e máquinas sofisticadas, explicando de forma bem didática o manual de funcionamento de cada aparato de punição. Ali abandonei pouco da fé que me restava já que muitas delas foram aplicadas pela Igreja Católica contra os pecadores. Pensei em contar sobre o museu pro dentista fazendo a péssima piada de que o instrumento dele havia sido criado lá. Ele deve ter sacado o meu desejo por ironia, rebatido com mais uma direita de dor nevrálgica. 

Levantei as duas mãos. 

_Olha, estou achando que é melhor anestesiar. Vou preparar e chamar a enfermeira, volto em 5 minutinhos. – anunciou o sádico. 

_Eu tenho medo de anestesia. Mas prometo me comportar. – respondi fazendo a obediente. 

Ele sorriu e saiu. Peguei o celular debaixo do bumbum em busca da anestesia de mortais, a alienação. “Oba, a Bia mandou áudio” – pensei ao olhar o whatsapp.  

“Amiga, você não vai acreditar o que aconteceu comigo ontem. Tava num aniversário perto de casa, já tinha bebido um pouquinho, uns vinhos, a gente tinha ido pra uma outra festa antes e tal. Aí fumei um que não fazia há um tempo, mas pqp essas eleições mereciam. De repente o negócio começou a bater, meu amor… Eu já tava bem tontinha na festa quando chegaram os donos da escola de beach tennis que eu vou, um casal ultra bolsonarista. Olhando assim você não diz, não dá mesmo, cara de maconheiros, andam com roupas relaxadas. Começamos a falar do Benjamim e a esposa mandou: 

_O Benjamim é a cara do Zé, né?

_Não, não é a cara do Zé, ele se parece comigo, ele pode até ter o cabelo parecido com o do Zé porque tem uns cachinhos assim e tal, mas não. E querem saber de uma coisa, acho um saco isso, sabe, todo mundo só vê coisas do Zé nos meus filhos. Até outro dia a personalidade da Nanda, que é muito parecida comigo, o pessoal quis dizer que vem do Zé. E eu, cadê eu nessa merda toda? 

Aí a gênia, né, a bolsonarista, virou para mim e falou:

_Mas é assim, Bia, você tem que aceitar. 

_É assim como, amada? Eu não tenho que aceitar nada. 

E ela me olhando assim com os olhos arregalados. 

_Você sabe como funcionam as coisas aqui em casa? Como são divididas? Você está vendo o palco, o bastidor você não sabe.

_É, assim, Bia, eu assisti no Brasil Paralelo. É assim que tem que ser. O homem é que aparece, a mulher fica com as funções mesmo. O protagonista é o homem. 

Aí eu já tava doidaça, chamei o Zé e falei pra ele: “Me tira daqui, agora. Eu vou enfiar a mão na cara dessa mulher.”

_Olha aqui, Silvana, eu não vou ver Brasil Paralelo e eu acho assim sinceramente, você sabe que eu vou votar de novo no Lula. Eu não amo ele de paixão, mas sinceramente, diante do que a gente tá vivendo. – falei assim apontando pra ela.

Ela começou a chorar, amiga. Começou a chorar sem parar, ficou aquele climão no bar. 

_Eu perdi muito dos meus amigos por conta de política, eu não quero isso mais, eu não quero. 

_Silvana, você virou fanática né, meu amor, olha o que você me disse. Já não é de hoje. 

Chamei o Zé e falei vamos embora, já não tô tendo controle. E ela seguiu lá chorando no meio fio, tipo um canteirinho, num bar. Situação horrível. 

Embaixo do áudio, o link, do Brasil Paralelo: “O que é patriarcado? Entenda o papel desempenhado pelo homem na sociedade”. 

“Os homens são mais propensos a fazerem trabalhos perigosos, exigentes e escaláveis. Homens se envolvem em trabalhos mais duros, difíceis, intensos, laboriosos e externos. Às mulheres, é mais natural se arriscar menos para cuidar dos filhos e ficar ao lado deles, envolverem-se mais emocionalmente nas suas atividades e lidar mais com pessoas do que com coisas.” 

_Vamos lá, Leticia? 

Guardei o celular, abri a boca fechando os olhos que preferiam nem ver a agulha. Com muito medo, agradeci quando o líquido gelado entrou como bobo da corte anestesiando a pequena caverna do lado direito, que se tudo desse certo a partir de hoje não ganharia mais espaço. 

_Tem-õmo-ã-aestesîã-durã-ãté-ô-diã-intã? – foi o que saiu da boca mole aberta no desejo de só acordar no segundo turno. 

_Han? – Indagou o dentista, sem conseguir me entender. Agora preciso que você fique quietinha. 

Esse desgraçado deve ser bolsonarista, pensei. Quem tem gengiva no Brasil me entenderá.

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