Entre quatro pastilhas

Contemplar a mosquinha no buraco da tomada ou na luminária do teto levava Regiane a um bem-estar sem explicação. Ela só conseguiu compreender que se tratava de uma sensação plena de paz quando a viu pousada no exato ponto entre quatro pastilhas. O novo lugar parecia um destino certo para descansar os olhos, além é claro, de render uma ótima imagem. Para a fotógrafa, o inseto, com quem se encontrava todos os dias nas situações mais íntimas, não era uma mosca. Desde criança via este tipo de bichinho como uma minúscula borboleta. Adulta, acrescentou ao inseto a responsabilidade de lhe proporcionar ensinamentos de vida.

A borboletinha de Regiane pouco se movia. Ela se lembrava de ter observado umas três ou quatro mudanças de lugar e de cada uma tentar absorver lições.  O espelho liso, por exemplo, representava só uma casa gelada e a fotógrafa considerava admirável não precisar perder tempo com rugas e manchas diante do próprio reflexo. O inseto tinha olhos que só serviam para garantir a segurança contra lagartixas ou contra ela. Mas Regiane tinha certeza de que jamais a atacaria. A vida sem utilidade prática, como a da minúscula borboleta, provocava inveja, mas jamais violência. Regiane se sentia motivada ao observar tanta passividade para uma vida tão curta.

                Ela sabia que o bichinho se alimentava da sua pele e cabelos temperados pelos fungos e algas do ralo. A borboletinha fazia uma única refeição à noite no escuro dos canos de esgoto. Chegou a pensar na ajuda importante que poderia lhe dar se pelo menos comesse o bolor do teto, mas sabia que a sua função era continuar inútil, provocar inveja e motivar contemplação. Ela imaginava que estes insetos se reproduziam com a mesma placidez com que repousavam nas paredes. Quando foi pesquisar e soube que botavam cerca de duzentos ovos passou a estranhar a presença solitária da borboletinha e a se perguntar onde estariam suas outras cento e noventa e nove irmãs.

A fotógrafa não buscou respostas e preferiu os possíveis ensinamentos do inseto.  Ela, que, ao longo de uns seis ou sete dias, tinha visto Regiane limpando os dentes com fio dental, usando o vaso sanitário, nua sozinha ou acompanhada jamais faria qualquer julgamento estético ou moral. Era só um bichinho que foi mais forte que os outros e sobreviveu à limpeza semanal com água sanitária.

 Foi quando fazia o bochecho antes de cuspir a espuma da pasta de dentes que Regiane a viu no ponto exato entre quatro pastilhas, entendeu a paz e teve a inspiração de buscar a câmera. Ela estava no lugar preciso sob a luz ideal da manhã. Faria uma foto  reveladora das asas aveludadas da borboletinha. Quando voltou com o tripé e a máquina, ela havia sumido. Buscou em todos os cantos secos e úmidos, mas a imagem que o bichinho tinha proporcionado não iria nunca mais acontecer.

À noite, mesmo sob a luz inadequada para uma foto, Regiane ainda vasculhou o banheiro. A minúscula borboleta sumiu de verdade e ela foi dormir para sonhar com moscas que portavam chips e se passavam por borboletinhas. Acordou quando uma delas escalava o lóbulo da sua orelha. Era o meio da madrugada, todas as moscas de banheiro deviam estar em plena atividade nos canos de esgoto e ela só conseguiu retomar o sono depois de despejar um litro de água sanitária no ralo do box.

 Às seis horas, quando tocou o despertador, Regiane se levantou, foi ao banheiro e a viu alguns milímetros à direita do ponto exato entre quatro pastilhas. Era só uma mosquinha vulgar. Regiane a matou com a toalha de rosto. Escovou os dentes, tomou banho e saiu. No trabalho, quando ajeitava a câmera no tripé, sentiu coceira e um zumbido no ouvido.

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