O visitante

Prezados colegas do Departamento de Estudos Avançados em Transcendência,

O Sr. X chegou até mim com uma necessidade muito particular: pôr para dormir um pedaço do seu corpo, porque pensava estar sendo tomado por ele. E estava. Por um golpe de sorte, ele acabou no lugar certo para isso. Talvez, para a sua desgraça, na hora errada. Mas este é o fim da história.

No ano corrente, a Ciência e, mais especificamente, os métodos científicos, evoluíram ao ponto de zombarmos dos que vieram antes de nós, com seus instrumentos rústicos e teorias inválidas. O comportamento do corpo humano não nos causa mais espanto, sejam quais forem as circunstâncias. Pelo menos até agora. E, por isso, neste breve relatório, aproveito para saudar os membros do Departamento de Estudos Avançados em Transcendência. Sem o nosso trabalho, talvez a História da Ciência já tivesse alcançado seu ponto final.

Era ainda madrugada. As lâminas transparentes de gelo cobriam os pinheiros com uma capa, fadada a derreter nas primeiras horas da manhã. Com o tempo passei a acordar bem cedo e olhar para a paisagem como um quadro. De alguma forma a ela me fazia companhia, era como estar na presença de um amigo ou assistir a um filme repetido, familiar. Todos os dias começavam com os poros do meu rosto abertos pelo vapor da xícara de café. A sensação compensava o frio e me lembrava do porquê eu estava ali, uma lembrança necessária num tempo de solidão absoluta que tentava me abater. Todos já estivemos em momentos como esse, colegas, lutando contra as paixões e tentações para levar adiante o sacerdócio da pesquisa. Para me dar força, além da xícara de café, havia a paisagem imutável, resiliente. Se ela, em toda sua vastidão, seguia firme sem alterar sua essência, por que eu me curvaria às vicissitudes do espírito?

Até que a visão das montanhas pareceu sofrer um pequeno adendo, uma mancha que se movia do canto inferior esquerdo para o centro da paisagem, perturbando sua inércia. A mancha aumentava, o que significa que estava se aproximando aos poucos, subindo a rampa verde, iluminada pela nesga de sol que surgia no céu gelado. Apoiei a xícara no parapeito e apertei os olhos: a mancha se distinguia, tratava-se certamente de uma pessoa; mas essa pessoa não caminhava, nem corria, pois seu corpo se alongava, se achatava junto à grama subindo em minha direção. Então só podia se arrastar, e se arrastava agora para fora da moldura da janela para desviar da cerca. Devia estar ferido e então se arrastava, pensei. Deixei a xícara ali, esfriando, e vesti o casaco para sair.

Deitado na relva, esticado como um cadáver, o homem ainda respirava, inconsciente. Os arranhões no rosto se confundiam com as linhas de um envelhecimento precoce, saltadas mesmo embaixo da barba densa. O corpo úmido chacoalhava de frio. Eu não tinha opção, colegas, senão levá-lo para o local “inexistente, fruto de pura especulação”, como dizia a nota do Instituto sobre o Laboratório. Tirei o controle remoto do bolso do roupão – que vergonha, de roupão na presença do primeiro visitante em meses! – e acionei o botão que destravava as roldanas, liberando os cabos de aço que seguravam a rampa. Enquanto carregava o homem terra abaixo para o Laboratório, conseguia ouvir o som dos seus dentes se chocando de frio.

Ligado o aquecedor, tirei as roupas do homem, ou seus farrapos, molhados do orvalho da floresta por onde deve ter se arrastado, para lhe cobrir com cobertores de pele de chacal, comuns nessa região. Antes, porém, passei uma esponja úmida por seu corpo para tirar a sujeira, o que, para falar a verdade, não adiantou muito, já que uma camada grossa de terra com insetos esmagados já tinha aderido à sua pele, especialmente onde estava ferida. Foi o suficiente, no entanto, para revelar uma curiosa inscrição abaixo do ombro direito: um número extenso, de uns vinte algarismos, em parte cobertos por um chumaço de pelos. A tatuagem indicava que o homem pertencia a alguém, talvez fizesse parte de uma espécie de linhagem, talvez tivesse fugido de um destino profetizado por aqueles números. Talvez estivesse então perdido na floresta, depois da fuga, ou tentado caçar um bicho além de suas forças e fora surpreendido. As cicatrizes, a barba e o cabelo avolumado sinalizavam que, quem quer que fosse, estava há algum tempo na floresta.

Deixei-o descansar na maca e fui tirar suas medidas; tinha 1,82m, seus braços e pernas eram fortes, embora um pouco desnutridos e desidratados. Devia ser um trabalhador braçal antes de se perder ou de fugir. Por alguma razão, sua perna esquerda era mais torneada e menos pálida que a direita. Nesse ponto, colegas, me adianto para me desculpar, pois me falta a veia narrativa para dar conta de tamanha surpresa; ou do que entendi como um prenúncio. Eis o que vi.

Amarrada na altura da virilha, uma linha branca, da cor pálida do corpo, estrangulava o início da coxa com uma série de nós bem firmes. Levantei sua perna e pude ver, abaixo dessa amarração mestra, que o restante da corda se pendurava com alguns nós soltos, esticados ao longo da panturrilha como uma cobra que tivesse se enrolado no homem enquanto ele se arrastava pela floresta. Limpei a região mais uma vez com a esponja, revelando as marcas da corda fundas na carne, o que me levou a pensar em autoflagelação – o homem podia ser um religioso insano, um membro de alguma seita que ainda habitava o recôndito da floresta. Considerando as lacerações deixadas pelos nós já soltos, prossegui à soltura dos nós que enforcavam a virilha, evitando cortá-los. Já àquela altura eu queria preservar tudo o que pudesse para submeter à análise, como é o nosso costume e nossa vocação. Mas os nós estavam muito apertados, comprometendo inclusive a circulação do sangue. Me afastei por um segundo para pegar a tesoura, e quando voltei à maca para libertar a perna, o homem grunhiu e levantou a mão esquerda, agarrando meu punho. Depois tentou balbuciar alguma coisa, mas os lábios não se abriam. Então voltou a dormir – a mão, já sem força, grudada no meu braço. O certo era que aquela corda amarrada à perna era algo muito importante para ele.

Resolvi deixá-lo como estava e prosseguir às anotações, monitorando seu estado ao longo da manhã. Não fosse a fraqueza, ele teria se levantado e arrancado a tesoura da minha mão, dilacerando talvez as minhas pernas e braços para que eu não pudesse segui-lo enquanto ele voltava a vagar pela floresta. Não o fazia porque estava aprisionado no corpo, porque a biologia era o limite máximo da sua existência. A humanidade livre das fronteiras do corpo – para isso nosso departamento foi criado, e nele ainda se depositam as esperanças de transcendência, colegas, apesar dos ataques sistemáticos de tantos detratores.

Detido em reflexões, rascunhando o que agora vocês leem, não vi a tarde passar. O homem permanecia dormindo, apenas a cabeça fora da pele quente de chacal. Tudo o que fiz foi trocar as bolsas de soro e monitorar seus batimentos. Talvez fosse a hora de tentar alimentá-lo, fazê-lo reagir. Confesso, colegas, que temia sua morte antes que pudéssemos conversar o mínimo necessário para reconstruir sua história até a chegada na cabana. Decidi, então, recorrer a um tratamento de choque: peguei as frutas que tinha no frigobar do Laboratório, um liquidificador e, pronto, fez-se o barulho.

Quando me aproximei da maca com o copo de vitamina, o homem já grunhia. Passei a esponja úmida por cima dos seus olhos, motivando-o a abri-los, mas foram seus lábios que se movimentaram. Água, ele pediu, como era de se imaginar. Subi o encosto da maca e dei-lhe água. Ele finalmente abriu os olhos, ergueu as mãos e esfregou o rosto com a dificuldade de um quase-morto. Olhou em volta com espanto, talvez por não saber onde estava, talvez por estar vivo. Depois baixou os olhos até a perna esquerda, e se fixou ali por um tempo. Quando voltou a olhar para mim, colegas, disse a primeira coisa estranha: Não deixa ela correr de mim.

Não pediu comida, não perguntou onde estava, quem eu era. Disse isto: que não deixasse a perna correr dele. Queria tomar nota daquilo, com medo de esquecer, mas preferi oferecer-lhe a vitamina para que não se sentisse um animal de laboratório. Ele bebeu cerca de metade do copo e me devolveu. Inclinou o corpo até a perna esquerda e começou a mexer na corda. Tentei impedi-lo, lembrando de seu estado paupérrimo, mas ele ignorava meus apelos e continuava a amarrar os nós que faltavam com muito esforço, de forma profunda, não obstante as lacerações na pele.

Depois se deixou cair no encosto da maca e suspirou. Você tem que colocá-la para dormir, disse e, contrariado, repetiu mais duas ou três vezes, pois me era impossível ouvir naquele tom de voz de cadáver. Colocar para dormir?, perguntei, e a resposta foi um fechar de olhos preocupante, que eu não sabia se seria derradeiro ou momentâneo. Ouça, eu disse, você precisa se alimentar, e depois precisamos saber de onde você vem – e aproximei o canudo do copo da sua boca. Mas ele recusou. Não pode ser coincidência eu ter chegado a este hospital, ele disse, agora com a voz um pouco melhor. Não é um hospital, respondi, é quase o contrário disso. E dei uma leve risada.

Ele não deve ter gostado do gracejo, porque abriu os olhos e suspirou de novo. Então começou a contar sua história, colegas, e só de anunciá-la neste relato já sinto um calafrio na espinha. Tomando alguma licença poética, vou reproduzir o que o homem me contou de maneira linear e sobretudo compreensível, porque, no estado em que se encontrava, as palavras saíam desordenadas e pelas metades; me desculpo, mais uma vez, mas vou me abster de tentar narrá-la com toda a trama e penduricalhos de que mereceria se estivesse a cargo de um literato.

Sem rodeios: o homem era um degredado. Tinha sido enviado, junto com outros condenados, para trabalhar num empreendimento do qual não sabia os detalhes, na verdade não sabiam nada, nem sequer os nomes uns dos outros. O canteiro de obras era um descampado, cercado por redes de alta tensão, através dos quais se podia ver os arredores repletos de árvores e lagos. Para isso havia correntes e guardas. Os degredados eram marcados na pele com um número de série, e este número passava a ser um nome. E assim os homens trabalhavam, um dia após o outro, recebendo comandos simples, apenas para aquele dia. Para uns, estavam construindo um enorme prédio, ou um complexo de prédios; para outros, uma igreja, ou um estacionamento com vários andares. E quem iria estacionar naquele fim de mundo? A única resposta que tinham vinha na ordem do dia: algo chamado de Seção 7. A promessa era que, após a conclusão da obra, os condenados seriam reintegrados à sociedade, tendo as penas perdoadas.

Um dia, uma explosão no outro canto do descampado, talvez a mais de um quilômetro do homem, não se sabe se acidental ou planejada – os guardas não pareciam surpresos. O homem, no entanto, estranhou um aspecto daquele fogo: era gelado; de onde estava, mesmo longe, ele sentiu um vento invernal contra o peito. De todo modo, a explosão marcou o fim das obras. Os degredados foram alocados numa vila recém-construída, não muito longe dali, para esperarem a reintegração.

Desnecessário dizer que as promessas não foram cumpridas. Havia abrigo e mantimentos para todos, mas a espera só levava a mais espera. Uma noite, enquanto bebiam a esmo ao redor de uma fogueira, os degredados ouviram um homem gritando. Acontecera antes: tomado pela ansiedade, alguém decidia testar a força dos fios de alta tensão, tentando ultrapassá-los. Dessa vez, porém, não era uma bola de fogo que um corpo de homem havia se tornado; era apenas um corpo de homem, quase intacto, não fosse a mão decepada. Não foi a ausência da mão que assustou o bando, mas o relato daquele recém-aleijado de que a sua mão direita havia cortado a esquerda enquanto ele dormia.

Não demoraria para o pânico se alastrar. Mãos, olhos, dentes, pernas rebeldes que tentavam se separar do corpo-mestre. As anomalias se espalhavam e nem mais os guardas protegiam o perímetro. A vez do homem, do nosso visitante, chegou durante o sono. Ou melhor, durante o sonho, porque passou a sonhar que se arrastava pelo chão como se fosse uma cobra. E acordou assim, se debatendo de ponta-cabeça no chão, sua perna esquerda escalando a parede. Na vila, os degredados já amputavam-se uns aos outros, e o chão parecia um mosaico de membros. Seu companheiro de quarto chegou a se oferecer, com um machado na mão que restava, livrar-lhe do inconveniente. Mas se quisesse fugir dali, o homem precisaria da perna. Resolveu amarrá-la, ou estrangulá-la, e quando as cercas elétricas já não funcionavam mais, conseguiu fugir, apoiando o corpo num cabo de vassoura.

Caminhando durante vários dias pelas floresta, aprendeu que a perna esquerda tinha mais força de vontade do que ele. Ela rompia a corda seguidamente, trançava o pé no pé direito para derrubá-lo, pisava em espinhos e galhos pontiagudos para fazê-lo sentir dor. Perdido numa mata fechada, com fome e sede, o homem já não raciocinava. Havia apenas uma alternativa: desamarrar a perna esquerda para que ela achasse um caminho. E ela encontrou, deslizando como uma cobra entre os arbustos da montanha, até chegar à cabana, já quase sem energia, carregando o corpo do homem. E este é o começo da nossa história, colegas.

Quando terminou de contar, o próprio visitante ilustre pediu a vitamina e a bebeu num só fôlego. Lá fora, a noite avançava. Percebi que não tinha comido nada o dia todo e, apesar da história macabra contada pelo homem, eu estava com fome. No frigobar não havia mais nada, eu teria que deixar o Laboratório e subir para a cabana. Eu não confiava naquela perna. Mas a fome não era desprezível. Decidi que aplicaria uma dose cavalar de anestésico em vários pontos da perna, ainda que pudessem fazer o homem dormir talvez por dias. Ele não era contra.

Perto da maca, a perna estava imóvel, mas não como antes. Estava enrijecida, talvez trêmula. Comparada ao corpo do homem, parecia ainda mais saudável do que quando chegou. Quando tirei a ampola do bolso e ergui a seringa, ela acordou. Devia estar ouvindo o tempo todo e apenas esperando um momento de descuido. A perna começou a se debater, rompendo a corda e derrubando a seringa e o anestésico no chão. Tentei contê-la pondo meu corpo inteiro por cima dela, mas fui expulso com um chute na altura da costela. O homem explodiu o copo já vazio na canela, mas não adiantou, a perna continuava a se retorcer e pular, até atirar o corpo do homem no chão. Depois o arrastou pela Laboratório, derrubando todos os meus instrumentos de trabalho. Só parou junto da porta, que não conseguiu abrir. O homem já não se mexia. Levantei devagar, peguei outra seringa e outra ampola e me aproximei. Com certeza ele estava morto. Ocorreu-me que, embora tenha me contado toda a história, não tinha me contado seu nome. De modo que, colegas, para fins acadêmicos, vamos chamá-lo de Sr. X. Já sua perna esquerda parecia viva, retorcendo-se junto à porta como um verme.

Deixe um comentário