Uma sombra da infância

Carlos Henrique Schroeder, 50, é um escritor de Trombetas (SC), Bolsonaristão profundo. Gosta de cruzar a História em suas histórias, como nos contos de As Certezas e as Palavras ou Aranhas, ou no premiado romance As Fantasias Eletivas, em que aborda a biografia de um escritor trans argentino, Copi. Pedi que ele escrevesse na Morel uma ficção explicando a fixação da região no ideário fascista. Mandou este conto:

A sombra.

De vez em quando a irmã aparecia na varanda da casa e gritava: “E agora?” E ele respondia, aos berros, no meio da rua, chutando uma ou outra pedra, e com os braços para cima: “Nada”. O garoto estava irritado porque aquele não era um sábado normal, quando geralmente acompanhava o pai e o irmão mais velho no rancho, para limpar e organizar as ferramentas ou reformar o estábulo e o poleiro.

O pai saiu cedo, foi buscar o tão propalado porquinho, e o irmão aproveitou para escapulir. E agora ele estava ali, na frente de casa, com gosto de terra na boca e com os olhos ardendo por causa das nuvens de poeira que surgiam a cada carroça que passava. Ele não queria ver o porquinho, mas sim dizer ao pai que o irmão saíra de casa vestindo “aquela roupa”. Pensou muito, durante toda a espera, em como contar ao pai, que não gostava de floreios: quanto menos palavras, melhor.

Por fim ele apareceu no horizonte, à frente de uma nuvem de poeira. Sabia que era o pai pelo chapéu largo de palha e também pelo trote do Ito, o cavalo. Era um trotear diferente, lento e desengonçado (ainda mais agora que estava bem gordo e nem de longe lembrava os tempos juvenis quando ainda se chamava Cavalito).

O menino se apressou em abrir a porteira, para que o pai pudesse entrar na propriedade e ir diretamente ao estábulo. E se surpreendeu com a habilidade do pai, segurando as rédeas com uma mão, enquanto a outra ajudava a equilibrar a caixa de madeira onde estava o porquinho, à frente de seu corpo.

“Eu não tenho dinheiro”, disse o pai para a filha e seu pretendente, no almoço do domingo passado, quando pediram permissão para se casar.

“Mas dá para engordar um porco”, disse a mãe para corrigir a indelicadeza do pai.

E agora o pai estava ali, com o porquinho.

“Ele saiu, com a roupa”, disse o caçula, berrando, para que se fizesse ouvir, já que os grunhidos do porquinho eram altos e desesperados. O patriarca franziu o cenho e com um movimento rápido desceu do cavalo: colocou a perna direita no estribo, com uma mão equilibrou a caixa, e com a outra segurou na cela. E colocou os pés no chão e por fim pôde pegar a caixa com as duas mãos.

“Segura, já volto”. O moleque segurou as rédeas e viu o pai ir para o rancho com a caixa. Suas mãos eram pequenas, como de qualquer criança de nove anos, mas fortes, já que desde os sete anos ajudava na plantação de batatas.

Ao sair do rancho, o pai encontrou a mãe e a irmã, e pela forma como gesticulava, e como a todo instante tocava no chapéu, estava muito, mas muito bravo. Afinal, avisara o primogênito: nada de sair com aquela roupa, nada de política. Não que ele entendesse alguma dimensão da política ou fosse de posição antagônica, mas porque na cabeça dele isso atrapalhava o trabalho, e era isso que importava, o trabalho. O resto era distração. Ou empecilho. E agora o filho tinha opinião para tudo. “Isso ajuda a plantar batatas?”, disse ele uma vez, à mesa.

Tudo piorou depois daquela ida para Blumenau*, quando o mais velho dormiu fora de casa, por dois dias, bem na semana do aniversário de oito anos do mais novo.

O pai deixou a mãe e a irmã falando sozinhas e veio na direção do pequeno. Pegou as rédeas da mão, rispidamente, um pé no estribilho, um meio-salto e estava em cima do Ito. Estendeu a mão. “Vem”, disse entre os dentes. O pai era forte e com a puxada o meninote praticamente voou para a parte traseira do pobre Ito. E assim seguiram pela estrada de chão esburacada, para o centro da cidade.

O pai açoitava o cavalo e berrava, para que fosse cada vez mais rápido. E o pobre Ito relinchava e correspondia, entregando sua velocidade máxima. A viagem, então, tornou-se desconfortável, pelo trepidar seco sob a cela. Mas o garoto estava feliz por saber que o irmão por fim teria uma lição à altura. Onde já se viu, desobedecer ao pai. E imaginava a surra, as broncas, os castigos que caberiam ao irmão. E só saiu do mundo da imaginação quando escutou um barulho estranho, que não parecia vir da ferradura arranhando a terra. E percebeu a sombra.

Uma enorme sombra que vinha lambendo tudo: a estrada, as plantações, os morros. Quando o menino percebeu, parecia que ela e Ito estavam na mesma velocidade, pois a sombra acompanhou a cavalgada por alguns instantes. Mas rapidamente tomou dianteira e foi se adiantando. O pai até que tentou competir com ela, mas não teve jeito. Logo estava tudo sombreado e o barulho aumentou. O mais estranho, é que olhando para a frente, não havia uma nuvem no céu azul turquesa .

Foi o garoto quem viu primeiro. Olhou para o alto, reto, apenas colocando a cabeça para trás, e não acreditou. Começou a gritar e a apertar o pai.

Um enorme mamão branco** flutuando no céu. “É maior que o morro atrás de casa”, ainda conseguiu lembrar o menino.

Rapidamente estava tudo palmilhado pela sombra e o mamão havia ultrapassado o trio. O pai, hipnotizado e horrorizado por ver o céu tomado por essa aparição, imediatamente, em questão de segundos, reviu todas as imagens que as missas domingueiras o haviam suscitado desde a infância: fogo, demônios, o apocalipse.  E então pensou que o fim do mundo havia começado, fechou os olhos, se inclinou e abraçou o pescoço de Ito, que se sentiu acuado e saiu da estrada.

Voaram, os três, para o arrozal lamacento.

O garoto ficou coberto de lama. Somente os olhos estavam limpos (fechados durante a queda), mas mesmo vendo não sabia o que fazer. Escutar era pior. Ito, relinchando e urrando de dor, com as duas pernas dianteiras esgarçadas, quebradas, e com parte do rosto na lama, tentava se levantar. E seu pai, segurando um de seus braços com a mão, mancando, e se locomovendo com dificuldades na lama, vinha em sua direção.

Então o menino tampou os ouvidos e voltou a olhar para o grande mamão branco que deslizava pelo céu. Se agachou, pegou um pedaço de lama e jogou para o alto, na direção dele, como se quisesse acertar a figura que estava cada vez mais longe.

“Vá embora!”, gritou o garoto. O pai chega e o abraça.

A sombra continuou. Por estradas. Pastos. Lagos. Rios. As vacas, os bois, os patos, os gansos e nem as cobras se importaram. Era apenas mais uma sombra. Como das nuvens. Em alguns lugares a sombra passou e ficou, para sempre.

Na área central, no vale, as janelas abriam-se, pessoas gritavam e chamavam outras para ver. E, na praça, uma multidão aguardava a chegada da sombra. Homens, mulheres e crianças. Uma festa. Com música.

Quando o mamão despontou sob a montanha e a sombra logo chegou na praça, a banda da cidade, perfilada no coreto, começou a tocar uma marchinha animada. Vários grupos, usando camisas verdes, saudaram o visitante que rasgava o céu. Bandeirolas e faixas com os dizeres “Deus, Pátria e Família” foram agitadas. Flâmulas. Estandartes. Os que estavam de verde eram os mais festivos, cantavam, gritavam “Anuê”, e tomavam praticamente toda a praça. O irmão mais velho estava com eles, e com o uniforme completo: camisa da cor verde, em cujo braço esquerdo, no terço médio, estava fixado um círculo branco com borda preta, no centro do qual figurava um Sigma também preto; gorro verde da mesma cor da camisa; calças pretas e cinto e sapatos pretos. Quando o mamão se aproximou, ele abraçou alguns de seus colegas, igualmente vestidos com rigor, e observaram o movimento suave e gracioso da figura no céu.

“Está chegando, está vindo”, disse ele, com a boca cheia, e com um sorriso que permaneceu por muito tempo. E então o irmão mais velho e seus amigos começaram a pular e a dançar.

Em menor número, os grupos que usavam as braçadeiras com suásticas, olhavam com espanto e desdém para a festa dos verdes, mas assim que o mamão se aproximou entraram no clima e começaram a cantar, a gritar e assoviar também. Alguns choravam de emoção. Batiam em suas braçadeiras, com orgulho. A pátria deles, Heimat, estava ali, acima, naquele mar sem água.

Quando o mamão estava bem próximo, o irmão mais velho e seus amigos correram para o final da praça, onde os jovens das braçadeiras de Sigma se misturaram com os de Suásticas, e juntos pegaram um colossal rolo de tecido. E de forma orquestrada, desenrolaram a bandeira, de vários metros, com a sigma e a suástica, lado a lado***, que cobriu grande parte da pracinha. Debaixo da bandeira, o agrupamento se espremeu. E ali, com as mãos no tecido, o irmão mais velho suava torrencialmente; quase sufocado pelo calor, excitação e a ansiedade. Pálido, não conseguia respirar direito e lutava para não desmaiar.

E antes de apagar ele se viu, planando, no céu, acima do mamão, muito próximo, e percebeu que sua sombra tinha um formato estranho na cabeça. Aproximou-se para ver melhor e entendeu, enfim, tratar-se da sombra de um chapéu de palha, como de seu pai, sob o branco quase cintilante. E tudo escureceu****.

* Nos dias 7 e 8 de outubro de 1935, Blumenau sediou o primeiro Congresso Integralista das Províncias Meridionais, que reuniu mais de quarenta mil integralistas. O congresso deixou um legado: nas eleições municipais de 1936 a Ação Integralista Brasileira foi o segundo partido mais votado em Santa Catarina,  e elegeu prefeitos em Joinville, Blumenau, Jaraguá do Sul, Timbó, Harmonia, São Bento, Rio do Sul e Rodeio. E vereadores em 23 dos 43 municípios catarinenses. Em Blumenau, dos 15 vereadores eleitos, 11 eram integralistas.

**Em 1936, o dirigível alemão Hindenburg, com seus 245 metros de comprimento e quase 42 metros de diâmetro, realizou diversos voos no Brasil. Era usado pela Alemanha Nazista como propaganda do avanço tecnológico do país. Em Santa Catarina, o Hindenburg sobrevoou as ex-colônias fundadas por imigrantes alemães, que agora eram cidades. A aeronave exibia quatro enormes suásticas nas laterais do leme.

*** O primeiro registro de um Partido Nazista em solo brasileiro é de 1928, em Timbó, em Santa Catarina. Mas a sede estadual se mudaria para a vizinha Blumenau, a 30 quilômetros, algum tempo depois. Os Nazis eram puristas e não aceitavam no partido os descendentes de alemães, somente os nascidos na Alemanha. O Integralismo conseguiu amealhar grande parte desses descendentes desprezados. Em Rio do Sul a sede da Ação Integralista Brasileira chegou a ter as duas bandeiras, a nazista e a integralista, lado a lado.

**** Sinto que sou ninguém salvo uma sombra/De um vulto que não vejo e que me assombra,/E em nada existo como a treva fria. (Fernando Pessoa, Súbita mão de algum fantasma oculto).

PROPOSTA

É isto o que você vai fazer: vai atravessar um fato histórico na memória de uma criança.

Explico: a criança viveu um fato histórico que, na época, não compreendeu direito.

O conto vai ser contado do ponto de vista desta criança.

O fato histórico talvez não seja a coisa mais importante do seu conto.

Você vai narrar um fato fortuito que tenha acontecido à criança (uma ida a um parque, um dia na escola, uma visita aos avós, um passeio pela cidade, um encontro com um amigo na rua, uma brincadeira ou jogo).

Portanto você vai dar conta de contar duas histórias:

  • o evento fortuito na vida desta criança;
  • o evento histórico, que só muitos anos depois ela viria a entender.

Você pode escolher narrar em um destes modos:

  • no momento presente, isto é, no momento em que ambas as coisas acontecem;
  • no momento futuro, isto é, a criança agora virou adulta e se debruça sobre o passado, se lembrando dos dois eventos que lhe aconteceram – e, talvez, os relacionando com o seu presente de adulto.

Você também pode escolher entre contar na primeira pessoa (sempre do ponto de vista da criança) ou da terceira (como um narrador onisciente ou no discurso indireto livre).

Use poucas cenas, bem definidas; use diálogos e descrições.

Em uns 6 mil toques, mais ou menos.

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