A selfie (texto de Carol Schettini)
Se alguém olhasse pela janela, veria o homem olhando para o coelho e o coelho olhando para o homem. Um não gostava do outro e o outro não gostava do um.
Quando Renan soube que Joana criava um coelho em casa, logo se lembrou do caçapo que sumiu da festa junina na faculdade. Não poderia ser Joana a sequestradora. Joana é programada. Não faz nada errado. Não leva canetas para casa nem risca os livros da biblioteca. Marcar as páginas dobrando o cantinho, seria um sacrilégio. Além disso, Joana é um poço de gentileza, tem um caderninho onde guarda as senhas das velhinhas que não conseguem acessar o site para pegar notas e boletos e sempre as ajuda. Imaginar Joana com um capuz preto cobrindo o rosto e luvas na mão para raptar um coelho encardido era coisa inconcebível.
Pois bem, estava Renan passeando no parque num domingo em que as nuvens escaparam do céu para o sol seguir sem empecilhos quando viu, ao longe, Joana. Ela carregava Chico, o coelho, como uma mãe macaca carrega seus filhotes, encaixado na cintura, embaixo do braço.
Renan ficou observando tal qual um policial em tocaia. Viu quando ela compra um picolé de limão. Viu quando o sorveteiro entrega o pacotinho verde a ela. Viu quando, naquele calor, Joana morde um pedaço de cima e coloca o cubinho de gelo na boca de Chico, o coelho. Uma antipatia! Quem dava picolé para um saco de pelo que não servia para nada, não latia, não arranhava, passava os dias roendo coisas e esperando o horizonte baixar?!
Do lado de Chico, em uma das visitas que fez a Joana, Renan repara: o coelho tampouco tem simpatia por ele. Podia apostar, se fosse um porco espinho, Chico teria atirado flechas em todo o corpo de Renan, acertando suas pintas como um míssel acerta seu alvo sem nem olhar.
Num dia qualquer, na hora do intervalo, talvez, zapeando nas redes sociais, Renan dá de cara com uma foto de Chico, o coelho, na página do Instagram de Joana. Na legenda, ela se gaba: Chico sabe fazer selfie. Ora, ora. Uma cara redonda com olhos puxados, dentes para frente e orelhas em pé. Que foto é essa?! Renan acha aquilo de tão mau gosto, como pintar as paredes de azul e desenhar ondas do mar. Aquele detalhe mínimo, o limite que transforma uma casa num local chique ou num circo.
No resto do dia, Renan não consegue trabalhar. Passa as horas se esforçando para fazer uma boa selfie. De frente, de lado, estica o braço, encolhe, muda de cenário. No espelho. Embaixo das árvores. Na biblioteca. Abre olho, fecha olho. Sorri. Boca sem dentes. Dentes descobertos. Escolhe a melhor e posta. Numa competição, com certeza, estaria na frente.
Passado um tempo, examina melhor a foto e se arrepende. O problema é, apesar de ser um hacker, não sabe ainda brincar na internet, como editar, como excluir uma foto, essas coisas. Pede ajuda. Para Joana.
— Meu Deus, Renan! Você está a cara de Chico!
Se alguém olhasse o aplicativo, veria um homem com cara de coelho e um coelho com cara de homem. Renan e Chico, o coelho, um não gosta do outro. O outro não gosta do um. Mas, são bem parecidos.
