Depois da morte em Vila Isabel


(Bruno Vicentini)



A notícia deu no rádio. Quem tava na cozinha veio correndo pra sala, secando as mãos em panos de prato, enquanto brotavam cabeças curiosas dos batentes das portas do corredor imenso. Vô Donato foi quem pontificou:

– O Getúlio.

Faustino nunca tinha visto seu avô chorando. Uma lágrima gorda, pendurada na ruga mais funda do seu rosto rachado de sol por um momento a mais, como uma sobrevivente redonda, e que depois ele varreu com as costas da mão. Logo percebeu que o avô não era o único: os adultos todos se abraçavam e consolavam uns aos outros. Os priminhos menores ficaram meio perdidos, sem saber como lidar com aquilo, uma súbita inversão de papéis. Ninguém lhes explicou nada. Sentado no chão, em busca de uma resposta, puxou a saia da mãe que passava.

– Getúlio. O Getúlio! É uma tragédia.

Deu-se um corre-corre, como se um defunto fosse ser velado ali mesmo, na sala de casa. Chegaram vizinhos e com eles outras crianças, ainda mais assustadas. Os adultos se amontoaram em volta do rádio. Não era normal que os pequenos fossem deixados em paz por tanto tempo, sem a vigilância implacável dos adultos, Faustino sabia.

– Vão ler a carta. Ele deixou uma carta.

Vô Donato puxou a garrafa de aguardente. Sacou a rolha e comandou silêncio, só depois mexeu no volume do rádio. Quando ia começar a leitura, a mãe o percebeu por ali, meio acororado por detrás de uma poltrona, e chamou Mirna num grito, pra que ela tirasse dali de dentro todas as crianças. Que as levasse pro quintal. Nenhum dos miúdos teve a coragem de reclamar.

Mirna enxugou os olhos na barra do avental. Os primos de Faustino, junto com as crianças dos vizinhos, corriam pelo jardim, subiam nos galhos da goiabeira branca, ansiosos por aproveitar cada minuto daquela reunião extraordinária, de uma folia de sabor inédito. Alguém era a mulher do padre. Mas Faustino não. Ficou sozinho e olhava pra Mirna, a empregada mais nova, sentada numa mureta do quintal com as pernas cruzadas. Não sentia pressa em aproveitar o tempo, queria antes desperdiçá-lo. O menino não compreendia o grave da situação, mas existia dentro de si uma impressão muito forte: algo fundamental, um alicerce, tinha se rompido, tinha acabado.

– Sai, garoto. Deixa disso. Vai brincar também.

Deu a volta na casa e entrou pela porta da frente, se esgueirando pra dentro do seu próprio quarto. Na cama se cobriu por inteiro, respirou fundo o mais que pôde, e fechou os olhos com toda a força.

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