por Américo Paim
Desconfiada com aquele silêncio todo, Felícia foi até a varanda e a encontrou vazia. Iria avisar ao marido Sandoval que o bolo de chocolate, o preferido do neto Jorginho, estava quase pronto. A dupla deveria estar no quintal, colocando armadilha para passarinho, claro. Incomodada, queria contar por que não preparou tudo na véspera, segunda-feira. Foi dar assistência a Sara, a vizinha, que teve outra crise de gota. Afinal, ela morava sozinha depois de viúva, a saúde andava pregando peças e não lhe custava dar atenção à amiga de mais de trinta anos. Entendia que ela vivia um momento difícil. Por isso o bolo ficou para a terça mesmo.
Voltou à cozinha e sentou-se na cadeira cansada. Ela mesma também parecia. A pele enrugada, os cabelos, agora curtos, escondidos sob o lenço estampado. As finas sobrancelhas davam melancolia ao rosto magro. O vestido azulão quebrava um pouco. Enquanto pensava nos detalhes da receita, passada geração após geração pelas mulheres talentosas da família da mãe dela, refletiu sobre sua vidinha de sempre. Pensou muito no que houve com Sara. Argemiro morrer daquele jeito, atropelado na saída do mercadinho, foi ao mesmo tempo ridículo e cruel. Um choque ela ter que dar a notícia à vizinha. Elas sonhavam em envelhecer juntas, filhos já criados, conversando nas varandas. Ou por cima do muro mesmo. Foi assim muitas vezes. Lamentou para si mesma como em Sara só havia um silêncio perdido, sem sorrisos ou disposição, murcha. Como ela contava, cada palavra demorando na boca, sobre as visitas dos filhos cada vez mais escassas.
Enquanto sentia a cozinha se perfumar de bolo, os pensamentos de Felícia mudaram para os próprios filhos. Geraldo, o mais velho que voltou a morar na cidade após a separação da mulher, era uma presença menos rara. Aparecia para comer, aqui e ali. Mais livre, sem filhos, com seu bom humor permanente e a paixão por música. Shirley era o oposto. Estressada, sem tempo para nada, com um casamento que ninguém dava fé. Suas visitas eram cada vez mais espaçadas. Como apareceu com o neto naquele início de dezembro, ficou a sensação que, outra vez agora, só depois do ano novo. Felícia concluiu que eles passariam o Natal com a família do marido dela. Mais um fim de ano sem o Jorginho, alegria dos avós.
– Tá demorando, Vô!
– Calma, agonia, tá quase pronto.
– Será que ele vai entrar?
– Claro que sim!
– Anda logo!
– Tem que ter paciência pra preparar, moleque.
– Meninos, olha o bolo!
O grito de Felícia com uma batidinha na panela, bastou e Jorginho correu para a avó. Sandoval protestou, lá mesmo do quintal. Sua voz grave e potente combinava com a barrigona e o bigode cheio e branco.
– Ô, Licinha, não podia chamar sem barulho?
– Ué, se tu não escuta direito, homem?
– Assustou o passarinho.
– Bem-feito. Já falei que tenho pena dos bichinhos.
– Quem tem pena é ele.
– Engraçadinho.
Ela não deixou Jorginho entrar na cozinha e ordenou que se lavasse e não corresse pela casa para não acordar a mãe. Acontece que já era tarde. De pé, em frente à porta do quarto que usou quando menina, Shirley mostrava no amassado do rosto e no cabelo abandonado, o quanto não estava feliz. Sua boca era uma fenda, lacrada. Se seus dentes fossem brancos, amarelos ou azuis ninguém saberia. Alheio a tudo isso, feliz por vê-la, Jorginho puxou a mãe pelo braço, todo elétrico, lhe chamando para brincar, para lhe mostrar a arapuca montada no quintal, o esconderijo em que ficou com o avô, toda o plano para captura do arisco passarinho. Ela foi meio arrastada, como fazia sempre.
Sandoval anunciou que iria à venda, ali perto. Não ia demorar. Felícia lhe gritou que não bebesse. Enquanto filha e neto estavam no quintal, imagem que ela não se furtou a apreciar de longe, embora não visse aquela cena entre ela e a filha na memória, o telefone da casa tocou.
– Dona Felícia? É Chino.
– Oi, meu filho.
– Cadê Geraldinho?
– Foi pra fazenda de Seo Ferreira ver um negócio. Volta hoje não.
– Naquele buraco? Eita, lascou então.
– O que foi, menino?
– Diga a ele que tá mundo arrasado aqui porque John Lennon morreu.
– Quem?
– John Lennon, aquele músico.
– Hein? Não tô entendendo.
– Eu preciso desligar, tá uma confusão aqui no centro cultural.
– Veja só…
– A senhora fale com ele, por favor. Obrigado.
A ligação, ruim, caiu de vez. Ela apavorou e gritou Shirley, que veio correndo com o filho. Encontrou a mãe lívida. Pediu ao menino que pegasse água. Colocou açúcar e deu à mãe, que bebeu rápido. Depois, a ajeitou no sofá da ampla sala. Felícia nem conseguia falar direito. Preocupada, a filha tentava compreender. A avó chorava e o menino foi entristecendo junto, segurando a sua mão.
– Mainha, fale o que foi, pelamordedeus!
– Um amigo de Geraldinho que morreu.
– Ave maria, quem foi?
– Eu num conheço. Tô é aflita porcasodisso.
– Que amigo, mãe?
– Gileno.
– Conheço não.
– Juleno?
– Oxe, piorou. Mainha se acalme, pare de chorar.
– Meu jesus, que eu juro que num lembro desse amigo dele.
– A senhora não se atrapalhou não?
– Não, não! E agora? Será que Sara se lembra?
– Não, mãe. Fale de novo a história devagar.
– Juleno, Juleno.
– Repare, mãe. Pare de chorar.
– Num tem mais jeito pra mim. Num lembro nem dos amigos de meu filho.
– Olhe, tente de novo. O nome vai chegar.
Sandoval entrou, de volta da venda. Colocou o jornal e um pacote em cima da mesa. Parou diante da mulher. Perguntou o que aconteceu. Felícia lhe pediu para chamar Sara. Ele desconversou, que se tranquilizasse que não era necessário. Jorginho cada vez mais assustado, sem entender nada. Foi quando Shirley desviou o olhar para o jornal, que mostrava em sua primeira página: “Morto John Lennon!”.
– Não acredito, mataram John Lennon!
– Isso, filha – levantou a mãe de um pulo – é esse o nome do rapaz.
– Que tragédia – agora Shirley chorava também.
– Você conhece ele, filha?
– Sim, claro. Todo mundo sabe quem ele é.
– Meu deus, só eu que num sei?
Shirley foi à varanda. A mãe desabou a chorar no ombro de Sandoval, gemendo que não conhecia mais os amigos de Geraldinho. E como ia ser para avisar lá em Seo Ferreira? O marido lhe deu mais água com açúcar. Ela soluçava e pedia que chamasse Sara pelo muro, que ela ia lhe ajudar.
Observando a cena, Jorginho, com olhos de choro, foi atrás da mãe e lhe perguntou:
– Mãe, quem é Joleno?
– Um músico importante, filho. O nome é John Lennon.
– Por que cê tá chorando?
– Eu gostava muito dele.
– Mãe, não tem bolo.
– Jorginho, fica quieto.
– Mas vó chamou.
– Ela se enganou.
– E quem é Sara, mainha?
– Uma amiga antiga de sua avó.
– Mas ela falou vizinha.
– Sim, foi o que ela disse.
O menino deu uns passos pela varanda, olhando o grande vazio em volta. Virou-se e falou:
– Ué, mas a casa de vovó não tem vizinho. Não tem.
