Sebas me levou num restaurante japonês lá na Liberdade, disse que apesar do ambiente ser simples, a comida era ótima. Nenhuma luminária de papel de arroz e muito menos um aquário com peixes coloridos. Três fileiras de mesas de fórmica azul-clara pelo salão, as paredes cheias de fotos de lutadores de sumô, parecia que alguém tinha colado as páginas de um álbum de um bebê gordo e no fundo, um balcão de alumínio. O garçom mal falava português, rabiscou o pedido num bloquinho como se ele próprio estivesse cortando os sashimis com a caneta. Assim que trouxe os saquês, Sebas e eu fizemos um brinde ao nosso reencontro, só aí eu comecei a me sentir melhor, como se as formigas tivessem se embebedado e adormecido. Mais relaxada, permaneci um bom tempo olhando para as mãos do Sebas que se movimentavam no ar como duas garças.
A comida realmente era boa. Em menos de meia hora, com as ovas estourando na minha língua, eu já tinha um panorama completo da vida do meu ex-colega de classe: depois de largar a faculdade de Jornalismo, fez Direito, trabalhava num dos maiores escritórios de advocacia de São Paulo. A esposa e a filha tinham ido passar uma semana na Patagônia, mas não sei por quê imaginei que estavam na Sibéria hospedadas num iglu. Ele teve um contratempo num processo importante, elas foram mesmo assim. Enquanto o Sebas falava, minha impressão era de que se ele assoprasse no meu rosto, ele ia se desmanchar, meu nariz e minhas orelhas iam cair ao lado dos sushis e dos uramakis.
– E os seus pais, Nina? Gosto muito do seu pai, uma figura.
– Eles morreram.
– Não sabia, desculpa.
– Não precisa pedir desculpa. Faz uns quatro meses. Foi um susto e tanto. Uma noite, telefonei para eles e ninguém atendeu, achei estranho. Depois de ligar várias vezes, resolvi ir para lá, eu tinha a chave. Sebas, que horror. Os dois estavam mortos. Chamei o SAMU na hora. Mais tarde disseram que eles pararam de respirar, botulismo. Fui vasculhar o lixo para ver o que eles tinham comido, não achei nada diferente, mas quando abri a geladeira, vi um embrulhinho ao lado de um iogurte. Sabe essa mania de guardar resto de comida? Pois é. Um patê verde, só faltava sair umas perninhas de dentro. Pelo jeito eles ainda pretendiam comer aquilo mais uma vez.
– A vida tem dessas coisas. Sinto muito.
Ainda bem que nesse momento um casal entrou no restaurante rindo, aquela risada boba de começo de namoro. Sebas mudou a conversa, por sorte, não perguntou da minha vida amorosa, era o último assunto de que eu queria falar. Falou dos livros que tinha lido recentemente. Contei do meu romance, estava empolgada com as primeiras páginas e não saber como a história ia terminar me dava ainda mais vontade de seguir adiante.
– Olha só! É sobre o quê?
– Uma mulher vira uma serial killer depois que faz um tratamento estético e fica com o rosto todo deformado.
Achando graça, ele pôs as mão nas bochechas puxando uma para cima e a outra para baixo – De noite, fico no computador escrevendo, sempre gostei de escrever, às vezes acho que não devia ter largado o Jornalismo. Tenho alguns texto prontos. Você não quer ler, Nina? E dar sua opinião?
– Posso ler, sim.
O inferno tem porta giratória? Tudo de novo? Me levantei dizendo que precisava ir ao banheiro, queria lavar o rosto, quem sabe a água fria me tirava desse pesadelo. O delineador escorreu dos meus olhos, o papel toalha era uma lixa e as olheiras pretas foram substituídas por dois vergões vermelhos. Me deu vontade de chorar, não sei como me segurei. As formigas acordaram e picavam o meu pé, ainda bem que faltava pouco para o jantar terminar, queria era ir embora, não aguentava mais. Ao voltar para mesa, o casal continuava com as risadinhas e estava mais grudado do que o gohan, o arroz papa. Sebas olhava o celular quando me sentei.
– Melhor, você lê e faz uma revisão. E me dá algumas dicas. Acho que até pode sair um livro. Combinado? Me diz o seu pix.
– Nem começamos e você já quer me pagar?
– Fala seu pix e o seu Whatsapp.
Depois de um café morno e horrível, o garçom fechou a conta numa rapidez ainda maior do que tinha anotado os pedidos. Tirei minha carteira da bolsa. Ele não deixou que eu pagasse a minha parte, mas percebi que deu algumas vaciladas.
Apesar de não ser tão tarde, quando saímos não havia mais nenhum luminoso acesso nem ninguém na rua,. Fomos ouvindo Bill Evans no caminho e quase não falamos, ainda bem, eu estava exausta. Sebas parou o carro em frente do meu prédio e se despediu dizendo que foi ótimo me encontrar que logo ia começar a mexer nos textos. Me deu um beijo no rosto e partiu. Quando passei as grades do portão, achei que eu ia despencar.
Ao abrir a porta do meu apartamento, arranquei os sapatos jogando cada um para um lado, meus pés doíam muito. Fui para a cozinha beber água mas não consegui encher o copo no filtro, comecei a chorar tanto que em questão de segundo eu parecia uma criança ramelenta. Aos poucos meu abdômen foi se dobrando até que me sentei no chão. Só pensava no Bruno e em tudo que tinha acontecido naquela maldita exposição. Lógico que não demorou para as formigas ficassem agitadas e subissem pelas minhas pernas, mas agora me davam pequenos choques. Elas percorriam o caminho das minhas veias e por mais que eu tentasse esmagá-las, era impossível. Por que ele fez aquilo comigo? Nunca na minha vida tinha me sentido tão humilhada.
De tanto que eu soluçava, minha cabeça começou a latejar. Os ossos do meu crânio eram as paredes de um salão onde o Bruno dançava. Depois de algumas piruetas, ele abraçou a mulher obelisco e os dois se atracaram sem se desgrudar mais. Por mais que meus olhos acompanhassem tudo da cavidade ocular, eles não estavam nem aí. Eu chorava mais e mais e nem sei quanto tempo permaneci no chão da cozinha. As formigas agora arrancavam uns pedaços da batata da perna. Não era mais fácil devorar logo o coração?
Acordei no meio da madrugada com frio, o rosto grudado no azulejo e com uma baba grossa saindo da minha boca. Ao ver que eu não tinha sido devorada, me senti menos miserável, apesar da sensação de ter me transformado num escorredor de macarrão. Fui me arrastando para a cama, só queria uma única coisa: esquecer que o Bruno existia.
