O último beijo

Ivana quer um último beijo. Disse assim mesmo, ao telefone, como se não estivesse me empalando com um espeto em brasa. Vitor, vamos nos encontrar na catraca do metrô, dar um beijo de despedida. Perdeu o interesse em mim, prefere ser apenas amiga e pede um amasso? Pé na bunda com troca de saliva, tudo formalizado, o aperto de mãos que sela um acordo de paz no final de uma guerra. Pode isso? É o cúmulo do sadismo me oferecer os lábios molhados enquanto limpa a sola dos sapatos no meu peito. De forma alguma aceitarei essa refeição do condenado antes da forca. Cuspo no prato.

Se me encaminho agora à estação do metrô, sob uma garoa de esguichos, sem guarda-chuva ou capa, é só para ela não achar que me derrubou. Nada disso, sou experiente, coleciono histórias com mulheres ainda mais lindas e apaixonantes, gringas gemendo em outros idiomas, modelos fenomenais provocando torcicolo por onde passam, moças recatadas que soltam os demônios na cama. Participo de orgias. Bem, orgia, uma vez. Mas foi bacanal de corar o Marquês de Sade. Respeite o grisalho sobre minhas orelhas. Não será por uma jovenzinha sardenta que voltarei ao útero materno em prantos.

Vamos colocar um ponto final de maneira civilizada, adulta, sim senhora, somos adultos, eu sou. Te espero sorridente, fazendo troça desse casinho de poucos meses, uns, quanto?, cento e cinquenta e quatro dias, pouco mais, pouco menos. Abraço até rola. De amizade, com menos contato físico do que os esbarrões trocados com esses trabalhadores na entrada da estação. Vou deixar meio corpo entre nós, um Grand Canyon de indiferença. E, da minha parte, não espere nem bitoca. Se a pequena fizer beicinho, aquela pinta delicada no buço crescendo para cima de mim, olhos semicerrados, pescoço esticado, na ponta dos pés, olha, se me fizer de cabideiro, deixo no vácuo, juro. Largou o pedaço de bolo pela metade, então também não lambe a cobertura na assadeira.

O último beijo é passado, está lá atrás. Quando mesmo? Talvez antes daquela viagem de trabalho. Marquei um piquenique no parque, horas antes de ir ao aeroporto. Ali a gente se beijou, tenho foto na grama e tudo. Ela ainda estava inteira comigo, puxando a barba como se quisesse virar meu rosto do avesso. Beijava até com o nariz, farejando feito bicho, em busca do meu cheiro natural que tanto dizia curtir, a junkie do CC. Tentei fechar os olhos, mas queria gravar no cérebro seu sorrisinho sacana, aquele de quando puxo seu coque alaranjado. Era um-dois para fincar as unhas nos meus ombros e destrinchar a carne. Sobraram apenas feridas secas. Uma semaninha fora e parece que passamos anos longe um do outro. Ivana sabia que era a última vez?

Um rápido afastamento e perdi o lugar. Quem sabe antes. Mas foi nessa semana que ela me esqueceu em uma gaveta. Conheceu outro, certeza. Um cara jovem igual a ela, com tatuagens pelo corpo iguais as dela, de calça velha e camiseta rasgada, esbanjando estilo e presunção, igual ela. Eles vão ouvir as músicas da palylist que Ivana criou para mim, assistir aos filmes e séries que colocamos na nossa lista do streaming, ir às festas dos seus amigos a quem ela queria me apresentar. Todas as pessoas que me olham ao cruzar essa catraca sabem que estou fazendo papel de trouxa aqui, enxugando o rosto com um guardanapo de papel do quiosque de esfiha. Coitado, pensam, levou um fora, ela vem não.

Eu podia ter me atrasado. Ou ficado observando de longe. Ivana deveria estar plantada aqui me aguardando. Não é ela que tem pressa de jogar tudo para o alto? O beijo foi só uma armadilha. Se acabou, não tem último beijo, óbvio. Inacreditável ter caído nessa. Com 45 anos nas costas, pagar um mico desses. Amanhã vamos nos encontrar no escritório. Ela passará por mim como se eu fosse um colega qualquer. Como se a gente não costumasse se pegar escondido na sala de reunião tarde da noite. Como se eu desse carona a ela quase todos os dias só por gentileza. Como se não tivéssemos emendado feriado juntos na praia, voltando na manhã direto para o trabalho, com marcas de um bronzeado caótico e areia por todo o corpo. Espero cinco, dez minutos no máximo, nem um segundo a mais.

Bem que Rodolfo me avisou. Vitão, você tá enfeitiçado, não enxerga que é só um passatempo pra ela. Mas combinamos que seria algo leve, sem estresse, compromisso nenhum. Ela havia terminado um namoro longo, não queria complicações. E por um tempo eu servi. Posso ter errado em querer sair a toda hora, ido esperá-la sem avisar na porta da pós, dado uma joia cara no aniversário, comprado de surpresa uma viagem para Salvador. Ela devolveu o presente, era um sinal. Desistiu de viajar na última hora, outro sinal. Nas últimas duas semanas, evitou me ver, até inventou uma gripe que nunca passava. Não acredito, por que pediu um último beijo? De jeito nenhum chego perto daquela boca. Fim de papo. Se aparecer, não precisa nem sair da catraca. Dou tchau, passe bem, página virada. Beijo, nunca mais.

É ela. Reconheço de longe os cachos ruivos revoltosos, dançando nas passadas largas. Faz cara blasé, idiota. Deixa vir até você. Mão no bolso da calça. Não, para fora. Uma para dentro, outra fora. Sorria. Não muito. Isso, sem dentes. Olha só ela, achando que vou catar suas migalhas. Está saindo, tudo bem, se segura. Em hipótese nenhuma, beije essa mulher.

Então, beijo. Sem dizer nada. Um abraço que a envolve inteira, pressionando seu corpinho contra o meu, como se fosse possível absorvê-la pelos poros. E não solto, pois é beijo derradeiro, de sabor amargo, que dura mais tempo na língua. O tempo de um mergulhador em apneia descer à escuridão do oceano e se sentir uma criatura abissal. Tento engolir sua face? Talvez possa mastigá-la aos poucos até digerir Ivana por completo, levando-a comigo, minha proteína. Mas falta fôlego acabar e nos soltamos, devagar, terminando o tal beijo de despedida com um chupão meu e uma mordiscada dela, que chega a tirar sangue.

Digo de supetão que pretendo largar minha mulher, ter uma conversa séria com meus filhos, procurar um canto onde a gente possa ser estupidamente feliz juntos. Ela responde que é uma ideia besta, que não se encaixa em nada nos seus planos, agradece pelas lembranças boas e se despede com um afago quase fraterno no meu ombro. Roda a catraca de volta e não olha para trás nem para testemunhar o momento da minha implosão.

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