Conheci tio Martín no Natal de 1972, quando eu tinha sete anos. Ele chegou na casa dos meus avós de braço dado com tia Ema, e não sei o que causou mais estranheza nos presentes, se o fato de a solteirona da família ter enfim arrumado um namorado, ou a própria figura do namorado.
Ele não se parecia com nenhum dos meus parentes. Tinha a pele escura e áspera. Os cabelos lisos e pretos de indígena tinham um brilho artificial, como se tivessem recebido uma camada extra de brilhantina. O rosto quadrado e de nariz chato não era digno de nota, mas os olhos espelhavam um lago cor de cinza. Sob a camisa aberta no peito, vi que usava uma corrente com um crucifixo dourado na ponta. Meus olhos de criança ficaram fascinados com os vestígios de duas tatuagens que vazavam das mangas curtas: uma âncora no braço esquerdo e uma coroa de flores no direito.
Foi naquela noite que ganhei meu primeiro relógio. Sei disso porque nas fotos apareço fazendo pose para exibir a pulseira do Mirvaine presenteado por meu avô. Mas o que me lembro de verdade é do tio Martín. Na fotografia principal da festa, que mostra a família em volta da mesa decorada, todos sorriem, menos ele.
A primeira coisa que estranhei foi que o tio Martín não bebia. Também quase não falava, e nas vezes que pude ouvir sua voz, em tom baixo e pausado, achei o sotaque esquisito. Ele se apresentou como uruguaio, mas seu castelhano era diferente do único gringo que eu conhecia, o seu Juan da mercearia.
“É claro, besta. Seu Juan é galego”, me disse o primo Aldo, que do alto de seus quinze anos não perdia a chance de zombar da minha inexperiência.
Nos meses seguintes, encontrei tio Martín algumas vezes na casa dos meus avós. Quase sempre às sextas-feiras, dia especial para mim, porque não havia lição de casa e eu podia ficar lendo gibi no quintal. Ele dizia trabalhar numa mecânica em outro bairro, mas parecia estar sempre de folga. Bem diferente do meu pai, que de segunda a sexta pegava o ônibus para o centro antes das sete da manhã e só voltava às oito da noite.
“O primo Aldo disse que tatuagem é coisa de quem ficou preso no Carandiru”, falei para o tio uma dessas tardes mortas.
“Bobagem. Yo era realmente un marinero.” Ele tinha tirado a camisa para aproveitar o sol de outono. Eu admirava as imagens gravadas em seu tronco compacto como quem lê uma revista do Tarzan.
Com o dedo pousado na âncora, contou que costumava navegar no Rio da Prata, onde também aprendeu a consertar motores. A coroa no outro braço representava sua breve carreira de boxeador: “Incluso entrené con Rubén Cáceres en el Palacio Peñarol”. Indiquei o desenho estilizado de um punhal que acompanhava o rastro de uma cicatriz sobre as costelas. “Legión extranjera, África”, respondeu secamente. As costas eram tomadas por um grande coração circundando algumas letras que pareciam borradas, como se o autor tivesse se arrependido de sua obra. Não tive coragem de perguntar o significado, mas consegui ler o nome “Maria”.
Mesmo sem entender metade do que ele falava, pelo acento esquisito e referências obscuras, eu adorava ouvir as histórias do tio Martín. Acho que ele também gostava de mim, porque quando saía de viagem, o que acontecia com frequência, nunca deixava de me mandar postais. Não escrevia nada neles, apenas meu endereço. A imagem de uma praia de Punta del Este estampada em maio de 1973. A bandeira tricolor estrelada tremulando à frente do Cerro Provincia, com carimbo de agosto do mesmo ano.
Mesmo algum tempo depois que ele desapareceu de vista, após romper o noivado de dois anos, continuei recebendo cartões-postais em branco e sem assinatura. O vulcão Mototombo à beira do Lago Manágua, com selo de junho de 1979. A pintura de uma igreja colonial em Concepción de Ataco, postada em fevereiro do ano seguinte. A última foto que chegou antes de eu mudar de casa mostrava uma lhama diante do Deserto do Atacama, com data de junho de 1980.
Tia Ema nunca mais se recuperou da separação. Permaneceu solteira o resto do tempo que viveu, quarenta anos dedicados a cuidar das obras assistenciais na igreja e a mimar os sobrinhos. Na semana passada, depois da cerimônia no crematório, a família se reuniu para dividir os poucos bens que ela deixou. A mim coube uma arca de madeira que eu nunca tinha visto antes.
Estou agora sentado no chão rodeado de pastas contendo as fotografias e envelopes que tirei do baú. Não me decidi ainda se tenho o direito de ler as cartas, escritas em espanhol com letra caprichada e uma leve inclinação para a esquerda. Quanto às fotos, todas têm o mesmo arranjo. O primeiro plano é sempre ocupado por um homem atarracado, de cabelo raspado e nariz rombudo, que nos olha do passado.
No verso, as datas e locais me fazem lembrar das aulas de história. Remetem aos muitos golpes, sedições e lutas pelo poder que tumultuaram a América Latina na última parte do século passado. Uruguai, 1973. Chile, 1973. Argentina, 1986. Nicarágua, 1979. El Salvador, 1982. Bolívia, 1980. Granada, 1983. Panamá, 1989.
Tio Martín surge vestindo uniformes militares de várias cores e formatos. Sob os quepes, boinas e barretes, os olhos cor de chumbo exibem a placidez de quem finalmente descobriu seu propósito no mundo. Ele exibe para a câmera revólveres, fuzis e até um lança-chamas. Nas imagens, não dá para ver suas tatuagens.
