Vi não

por Américo Paim

Eu saio do hospital de manhã cedo três dias depois do acontecido. Continuo corno, agora com dores aqui e ali e o curativo da facada na bunda. Sorte que aquele ricardão desgraçado era brelo e não me cortou onde podia matar. Ficaram uns arranhões e vou passar uns dias sentando de ladinho, só isso. Dá para contornar. Não vou atrás do miseravão. Não agora. Só penso na mochila cheia de dinheiro. Chego manso em casa. Dete não está. Sá Menina me abre a porta. Nem pergunta sobre minha saúde. Já vai cobrando.

– Agora que o sinhô já tá bom, Seo Melquíades, tô sem receber…

– Bom dia também. Dete não lhe pagou?

– Disse que num era com ela, não.

– Ah, tá… O negócio dela é cornear.

– Aí já num é assunto meu…

– Tá certo, até parece. Quer me dizer que num sabia de nada?

– Oxe e era da minha conta?

– Ele entrou aqui com ela, na minha cama, e cê não viu nem ouviu nada…

– Se nem aqui eu tava? A madame sabe fazer as coisa…

– Epa. Tá querendo dizer o quê?

– Eu não… É o povo que tá falando…

– Como assim? Quem?

– Ai, ai, o sinhô me deixe, vu… Todo mundo sabe e é de tudo…

– Impossível! O delegado me garantiu que ninguém ia saber.

– Quem? Junta Mole?

– O nome dele é Dr. Teófilo.

– Oxe, ele mermo. Minha irmã já pegou o infeliz. Ali mente que só a disgrama…

– E essa agora…

– Mas num se avexe não. Falaram só umas bestage…

– Tipo o quê?

– Ah, o sinhô sabe, aquela coisa do avantajado do rapaz…

– A senhora me respeite!

– Oxe, é a natureza, sou eu não. Se o moço é daquela forma?

– Que absurdo!

– Num é? Aquilo tudo num home só… A gente entende a madame…

– Está passando dos limites!

– É por isso que chama o artista de Pé de Mesa. Eu nunca vi, mas diz que é um negócio…

– Ah, chega, Sá Menina. Vá se ocupar que é bom.

– Alembre de me pagar, vu?

Eu fico retado quando penso que fiz corretagem de graça pra essa debochada. Só não mandei embora essa gaiata porque Dete pediu. Isso agora me dá uma coceira na cabeça… Tenho certeza de que ela acobertou a traição. Mas volto ao foco: a mochila. Decido ir à garagem checar, só que ouço o barulho da chave no trinco e a porta se abrindo. Vou rápido à sala. Só pode ser ela.

– Oi, meu amor, já chegou?

– É o quê?

– Foi tudo bem no hospital? – ela passa por mim, beija o rosto e segue para o quarto.

– Ei, peraí, que porra é essa? Volta aqui!

– Ah, Mel, que estresse. Preciso de uma ducha.

– Banho é o cacete! – falo a palavra e me arrependo na hora…

– Que agonia… Enquanto eu tô no banho você fala.

– Hein? Eu, nesse antro de cornitude aí? Nem a pau!

– Que bobagem é essa, Mel?

– Não me chame assim. Vem logo. Tem conta pra acertar.

Ouço o barulho da água caindo. Ela me ignora de novo. Mesmo puto, prefiro esperar. Sento na cadeira da sala e levanto de um pulo porque a bunda dói. Eu devia entrar no box e matar a vadia, mas entendo que não é a melhor ideia. E aí me toco que tô lento demais: véi, ela chegou e foi direto para o banho. Devia estar com o tal Rodrigo de novo. Ele teve alta do hospital antes de mim. Confirmei na recepção quando saí. Aí é foda. Cada vez mais corno. Vou buscar uma cerveja e me deparo com quatro sacos com a logomarca do Armazém do Louro sobre a bancada. Assim já é demais.

– O que significa isso? – falo com Sá Menina. Por que comprou nesse lugar?

– Oxe, num sempre foi?

– Mas agora é diferente. É lá que o Pé… quer dizer, o Rodrigo trabalha.

– E eu num sei? Tinha até fila. A mulherada toda querendo ver o afortunado…

– Ele tava lá, é?

– Igual celebridade, o sinhô precisava de ver. Sorriso pra lá e pra cá. Até selfie…

– Como é o negócio?

– Seo Louro até perguntou pelo sinhô…

– Cara de pau! Não compre mais nada lá.

– Então tá.

O telefone toca. É Quebra-queixo. Nem me ligou quando eu tava no hospital. Amizade fraca da porra. E ainda nem me pagou o serviço do mês passado.

– Grande Tramela! E aí, tudo na paz?

– Sem deboche. E o nome é Melquíades.

– Que é isso, véi? Já disse que é difícil falar isso. Repare, vamo ali tomá uma.

– Eu aqui cheio de ferida e galho e tu quer beber?

– Oxe, é pra esquecer a porra toda. Nem é a primeira vez…

– Puta que pariu, tu é meu amigo?

– Véi, num zangue não. Daqui a pouco o povo esquece.

– Nunca. E eu vou esquecer quando?

– Bora lá, a rapaziada vai também.

– Aí é que num vou mermo. Nem fudendo.

Desligo ainda mais puto. Lembro da mochila, mas não dá tempo. Ela me aparece na sala, cabelo molhado e aquela cara satisfeita. Me controlo e peço que sente. Ela sorri de um jeito filho da puta. Não posso perder a cabeça. Vou até a cozinha e trago água com gás para ela. Sempre gostou. Ouço a risada de Sá Menina. Nem ligo mais. De frente pra Dete, antes de cobrar de forma dura, ela me fala macio.

– Melzinho, por que tá tão nervoso?

– Me corneou de novo! Queria o quê?

– Você supera. Já conversamos sobre isso.

– Tá muito confiante, um dia a gente cansa…

– Se eu tô aqui com você, por que reclama?

– Tá pela grana, isso sim.

– Tem novidade? Isso aí já conheço.

– Por que aqui em casa?

– A culpa foi sua. Quem mandou voltar mais cedo da pescaria?

– Que porra de conversa escrota é essa?

– Tem mais: se me achasse aqui sozinha, peladona, ia dar conta? É ruim…

– Eu já tô cuidando disso aí. Você podia aliviar.

– Não é o que tô fazendo?

– Mais respeito, né?

– Você respeitou no caso do seu tio?

– Pera, pera, fala baixo! Assunto morto.

– Quem morreu foi o velho e não foi morte morrida, você sabe…

– É uma ameaça?

– Só lembrando. Eu sei de onde vem seu dinheiro.

– Pare de apertar minha mente.

– Você fica procurando conversa. Posso ir até a delegacia e aí…

– Não, não, Detinha. Tá tudo certo.

– Então, para de me encher o saco.

– Falar em saco, achei um cheio de dinheiro.

– Sério?

– Se eu lhe der metade agora, você para de me cornear?

– Depende. Quanto é?

– Muito. Vou lhe mostrar.

Pego ela pela mão. Me sinto confiante em mudar o jogo. Vamos até a garagem. Ela parece curiosa. Vou até o canto onde deixei a mochila. Não está lá. Corro o lugar todo e nada. Em desespero, olho para Dete. Ela balança a cabeça desaprovando.

– Que feio, Melzinho mentiroso…

– Mas tava aqui! Eu coloquei, juro.

– Se foi no meio de uns sacos velhos, mandei Sá Menina dar fim em tudo.

– Que merda foi essa?

– Precisava de espaço pra bicicleta nova que ganhei de presente.

– Quem foi que lhe… deixa pra lá! Sá Menina, Sá Menina, vem aqui agora!

– Oxe, que gastura é essa? – chega ela.

– Cadê os sacos que tavam aqui?

– Aquela nojeira? Tudo no lixo.

– Porra, véi… Quando foi isso?

– No dia que o senhor tomou o cor… quer dizer, foi pro hospital.

– Viu uma mochila junto?

– Uma marrom, toda véia e acabada, com uma alça preta.

– Sim, sim!

– Vi não.

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