A professora nos pediu para ficar em pé. Em pé? Foi isso? Acho que sim. É como eu me vejo, ao lado da primeira carteira, prestando atenção ao aviso das aulas suspensas. E é em pé que eu também me vejo surda para o resto do que ela disse quando desatei a chorar.
– Que foi? – ela veio até mim.
Dona Maria devia ter a idade de minha mãe, talvez um pouco menos. Usava vestidos meio soltos ajustados por cintos do próprio tecido. Cabelos curtos com volume. Olhos castanhos. Os da minha mãe eram azuis. Penso que era experiente e eu mal conhecia uma escola. Entrei direto numa classe de primeiro ano sem passar pela educação infantil.
A sala era dividida por cores de acordo com as competências dos alunos. Cores que usávamos numa fita presa à camisa do uniforme. Verde, amarela e vermelha. Forte, médio e fraco. As primeiras noções de discriminação aprendemos na escola. A professora era a mãe de Iraíma, a colega que, como eu, usava a fita verde e assistia à minha cena de choro com o canto dos olhos.
– Meu pai está trabalhando. Ninguém pode me buscar – consegui responder.
Morávamos no Cambuci e fui matriculada longe de casa porque íamos mudar em breve para a Vila Prudente, no outro lado do rio, o Tamanduateí. Meu pai já trabalhava por lá, na empresa de equipamentos de segurança e me deixava de carro na porta da escola logo antes do trabalho.
Não sei dizer como a professora contornou a agitação na sala e as minhas lágrimas com soluços. Nenhum outro aluno chorava. Aos sete anos, quase todos voltavam para casa sozinhos ou acompanhados dos irmãos mais velhos das outras séries. Arrumamos nossos cadernos, livros e estojo nas malas e seguimos em fila. Era cedo, antes mesmo da hora do lanche. Dona Maria segurava minha mão enquanto todos os outros se dispersavam na calçada tomando os seus caminhos para lugares que talvez fossem verdes, amarelos e vermelhos como as fitas nos uniformes.
– Você sabe ir para a sua casa?
Sabia. E sabia por que tinha feito o trajeto com minha irmã mais velha. Recém-formada na Escola Normal, fui com ela fazer o cadastro de professora substituta. Minha irmã poderia ser professora na minha escola como acontecia com a Dona Maria e a Iraíma. Era com o ônibus laranja e verde que se ia e voltava. O Intermunicipal São Caetano do Sul- Praça Clóvis. São Caetano era logo ali, umas quadras descendo a rua. O Autobus passava na Avenida Dom Pedro e eu aprendi o caminho.
Devia ser o mês de março. Tinha sol e céu limpo. Que dia diferente. Iraíma no colo da mãe e eu no assento ao lado. Meu choro tinha passado faz tempo, a companhia da amiga me agradava. Da janela, mostrávamos que já sabíamos ler e deciframos três vezes o “ Abaixo a Ditadura” sem a noção do significado. Ninguém corrigia a nossa associação automática com a palavra dentadura. Ninguém nos explicava. Ela estava na parede do viaduto, na parede enegrecida onde um caminhão de combustível tinha sido queimado e no trajeto a pé para minha casa.
Dona Maria deve ter consultado meu endereço nos arquivos da escola, mas assim que entramos em casa e minha mãe lhe levou um copo de água, ela disse que eu era muito esperta e tinha ensinado o caminho. Levei Iraíma para o quintal. Que dia diferente. Brincamos um pouco e bem poderia ser mais, mas Dona Maria mudou seu caminho para me levar e precisava voltar para casa. Minha irmã e eu a acompanhamos até a esquina com a Heitor Peixoto. Ainda aproveitei para brincar com Iraíma mais um pouco pela calçada. Fomos juntas porque minha irmã ia usar o telefone do bar para avisar o meu pai que eu já estava em casa. Foi quando eu ouvi a palavra bomba. O ano era 1968 e em casa, a palavra só entrava pelos telejornais.
Minha irmã desligou o telefone do bar e fomos para casa. Aproveitei o resto do dia livre e sem tarefa. No dia seguinte, as aulas voltaram ao normal eu relia nos muros as mesmas frases que levei dez anos para compreender. A ditadura tinha mesmo que ir abaixo. Quando virei professora, passei a desconfiar que Dona Maria, mãe de Iraíma também queria a ditadura abaixo e recebeu a sala mais heterogênea dividida por fitas coloridas como uma quase punição. Ela não levantava a voz, unia os diferentes e não usou a palavra bomba no dia em que voltamos para casa mais cedo.
