A conta é de quem?

A conta é de quem? (Carol Schettini)

Tem gente que tem sorte. Tem gente que tem dinheiro. E sorte. Não é o nosso caso. Nem eu, nem Billy, nem Zeca. Nunca tivemos dinheiro. Muito menos sorte.

Veja o Billy, o que está sentado perto da parede na entrada do bar. Naquela mesa da calçada, quase atrapalhando a entrada. É o Billy. Nasceu com as pernas tortas. Igual ao jogador de futebol. Só não sabe chutar bola. Nem galinha. Billy ficou um tempo numa roça, um tempão. Pegou tanta poeira que mudou de cor. Antes, ele era meio bege. Hoje é todo alaranjado. A poeira colou de um tanto, nem se lavar a pele com palha de aço, não sai. Tá lá batucando o dedo e fingindo ler o jornaleco da esquina. Nem sei se enxerga. As pernas são tortas, os olhos também. Se tivesse tido sorte, teria o dom de jogar bola. Se tivesse dinheiro, teria operado a vista. Enfim. Beberica seu copo de água de quando em quando. Se vai pagar a conta hoje, não sei.

Do lado dele, no meio, está o Zeca. O Zeca trabalhou em fábrica. Ajudou a fundar partido político, brigou na rua, jogou pedra nos outros. Ele sempre repete: nos outros. Zeca fala como se houvesse um hiato entre uma letra e outra. Depois, faz uma pausa dramática, encerra com: já foi; bora lá. Uma vez, confessou ter se arrependido. Deveria ter jogado pedra na lua. Não tinha dinheiro. Na hora agá, não passou da rodoviária. Exterior? Coitado! Plástica? Nem pra comprar água oxigenada na farmácia. Escrevia tão bem os panfletos da causa. Podia ter escrito um livro. Um livro enorme de mil páginas, com rimas, história oculta, sem advérbios. Com tanta história na bagagem, tinha clichês para mais de metro. Mocinha enganada. Mocinho filho da máfia. Mas, foi considerado persona non grata. Anos e anos sem conseguir emprego. Um bico aqui outro ali. Agora tá assim, olha, sentado. Os ombros pra baixo de tanto carregar saco. Chapa. Não teve sorte. Se vai pagar a conta hoje, talvez.

Falta eu. Eu estou sentado na outra ponta. Posso sair mais fácil. Se passar alguma mulher bonita. Mulher bonita com dinheiro. De pobre, basta um. Dividir pobreza com outro, pão com vento, água de bica. Coço de pensar. Eu sou o mais falante. E o mais bonito.  De longe. De nós três, nado a braçadas. Tenho olho azul. Sabe como é difícil ter olho azul nesse mundo? Pouquíssimos. Uma mutação desligou o mecanismo do olho castanho. Sou tipo um wolverine dos trópicos.  

— Sabia que vão demolir uma das casinhas da vila? — Zeca informa. Encosta na cadeira, os olhos vão ao passado. Com certeza lembrando do tempo que a gente corria na calçada da antiga favela, hoje, classe média alta.

Nenhum de nós consegue comprar nada lá. Nem alugar quarto na casa dos outros.

— Inventando. Foi arquiteto estrangeiro que projetou. Bolonha, pamonha, um nome assim.

Falo para ver se tiro a sombra que insiste em turvar seus olhos tal catarata mal cuidada.

— Eu vi. Tem casa já com cerca. 

— Denuncia, ora. — Billy, sempre Billy. Se pudesse, Billy passaria o dia na delegacia dando queixa do mundo, do universo, do gato preto atravessando a calçada justo na hora em que ele ia passando.

— Tem razão. Tira foto e leva lá. Melhor, leva na prefeitura. — Dou corda.

— Como chama aquela menina sua conhecida?

— Não tá mais. Saiu quando o prefeito saiu. Saiu tudo. 

— Arruma outra. 

Billy dá uma risada alta, bate as mãos nas coxas, se levanta e segue ao banheiro. Zeca continua com os olhos de névoa. Se ele começar a chorar agora, antes da primeira pinga, vai se afogar às onze horas.

— Deixa o povo ser feliz, Zeca. A gente divertiu na vila. É hora das madames. Taí uma boa cantada pra mim. Vou procurar uma viúva ou solteira e mudo pra lá. Te convido. 

— Promete?

— O quê? Arrumar a mulher ou te convidar?

Zeca não responde. Puxa um cigarro da carteira, bate várias vezes no maço, acende e só fala alguma coisa depois de soprar uma fumaça pro alto.

— Tá ficando velho. Não vai ser fácil mais não.

— Aposto com você. Daqui pro final do ano, mudo pra lá. Mudo com mala e tudo. Levo os trapos, os retratos, o guardanapo, igual na música do poeta. Arrumo ainda uma amiga procê dar uns pegas. 

— Arruma pra mim também, ora.

Balanço a cabeça. Coitado do Billy. Feio desse tanto. Vai ser bem mais difícil. Só se der droga pra mulher. Os dois olham para o outro lado da rua.

— Selminha vem lá.

Chegando como uma aparição no meio do terreiro, Selminha. Saia curta, salto alto, cabelo escovado, maquiagem de artista de novela. Deixei ela uma, duas, quatro vezes. Por essa bobagem mínima, ela não fala mais comigo. Conversa com Billy e com Zeca. Nem tento. Ou ela parte pra ignorância, grita algo grosseiro, tipo: com corno não falo. Ela vai ver. Quando me mudar pra casa de madame na vila, ela vai ficar de fora. Nem cheirar meu cangote vai poder. Bem feito pra ela. Perdeu, playboy. 

É a vida. Não tenho sorte. Mas, tenho o olho azul. Deixa quieto. Já já chega minha hora. Soube que vão votar uma lei criando um auxílio pra quem tem olho azul. Enquanto isso, eu não vou pagar a conta. Deixa arrumar uma paquera. Tem duas coroas sozinhas numa mesa lá dentro, perto da sinuca. Uma delas traz a bolsa colada ao corpo, no colo, como se segurasse um gatinho de estimação. O gatinho dela já já vai ser eu. Deixa eu me preparar aqui e jogar um charme na velhinha apegada. Estou com sede e alguém tem que descer uma cervejinha pra nós.

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