Desculpe se não me levanto 

(Leticia Eboli)

Venho até aqui pra me sentir sozinha. Olhar sentada a torcida que canta, se lixando se tenho boca ou língua. Ninguém se importou quando eu com meus dez anos fiquei com um picolé de uva colado na língua por estar muito congelado tentando gritar “socojo”, “socojo”. Nem sei se existe isso de estar muito ou pouco congelado. A cadeira está há muitos anos congelada. É herança cativa da nossa intimidade aos domingos quando eu colecionava secretamente meleca debaixo do assento e ódio por você me limpar com cuspinho no dedo uma sujeira no rosto. 

Na pouca memória que me cabe, até hoje me lembro da minha estreia aqui muito mais do que meu primeiro Valisére. Você disse “fecha os olhos com força” e me levantou no colo como o Simba do Rei Leão ao abrir a porta do elevador. 

No domingo após a sua morte, o telão “Suderj Informa” anunciou com a voz gravemente atrasada palavras que até hoje soam inéditas: “Um minuto de silêncio a Oswaldo Camargo”. 

“É o meu pai!” “É o meu pai!” “Ele não é ninguém famoso não!” “É o meu pai!” “Não era dirigente não!” Eu fiquei os seus sessenta e oito segundos de vida gritando descontrolada ao lado da Luiza, que como boa irmã postiça veio comigo ao jogo interar o coro. Os jogadores seguiam dando pulos de aquecimento, se alongando, fingindo preocupação pra justificar o salário antes do apito do juiz. A torcida torcia. 

Entre um escrito e outro no bloco de notas do celular eu também costumo comer e reclamar, que era o que a gente fazia melhor juntos. Venho aqui para reclamar. Do cachorro quente Geneal, que não se faz como antigamente, pão esfarelento dos infernos; dos hétero top; do “juiz filho da puta do caralho”. Eu já não sei mais os nomes dos jogadores e até hoje sou a anta do impedimento. Você morreu antes do VAR. Mas do que importa VAR em tempos de tanta fake news. 

Pai, a estética das fake news é inacreditável, as pessoas estão cegas. O mundo foi evoluindo na direção da Idade Média, voltamos a era dos trípticos binzantinos. A família só sobrou um terço depois dessas eleições. Não por acaso, aprontou novamente a ala tricolor. Bando de pó de arroz racista como a expressão, se sustenta na pobreza feudal “O PT arruinou minha vida”. Sim, ainda moram na Vieira Souto e tem o apartamento de NY. Só empobrecem de espírito. 

Tô com mais raiva deles do que a gente tinha do PC Vasconcellos. De vez em quando cruzo com aquela Tartaruga Ninja comentarista na rua. Você deve saber que ainda não tive a competência de colocar o pé na frente para que tropeçasse como já muito planejamos. Puta que pariu pai, o Flamengo segue trazendo alegrias e eu to achando que você não era tão pé quente quanto acreditava. Sinto muito, mas de lá pra cá foram duas libertadores e somos Octas. Você sempre falava que o problema todo era a vovó Arlete. Ela ligava lá pra casa na hora do jogo e você ficava louco, se encolhia de nervoso ao lado da caixa de som. Lembranças ridiculamente boas. Concordo que não dá pra isentar a sua sogra, mimou demais o filho caçula, que virou um adulto bem do babaca. Faltou Maracanã na criação pra ele entender a potência da multidão. Como é bonito ver o povo cantando feliz num domingo e saber que nem tudo na vida é sobre a gente. Pouquíssimo é. Tem gente que nunca vai entender isso. Entender é solitário. Gostei disso. Vou incluir na nossa lista de frases de lápide, que até hoje não ganhou companhia melhor do que aquela que você fez pro cara educadinho mala da Mesbla: “Desculpe se não me levanto.”

E sentada permaneço. A Raça vai desaparecendo no bandeirão de suor e melancolia, num mundo que cabe tão pouco em palavras.

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