Na sala

por Leonardo Neiva

A tromba surge sobre a xícara transparente de café, mergulhando com a elegância de um canudo. Adentra o líquido já meio morno pelo tempo e o frio que faz na sala de estar, que só não parece ela mesma um corredor porque o corredor que leva à cozinha é ainda mais estreito e escuro, mas menos frio. Suga o café com voracidade, quase amorosamente. A mulher não sabe de que expressões é capaz uma tromba, mas a impressão é de que lhe sorri meio zombeteira.

Animado, Domingos fala de livros e filmes, dos vizinhos, do clima lá fora, mas nunca do clima aqui dentro. Segura a xícara sem sentir a pressão da tromba. Quando de vez em quando a leva à boca, inclinando a borda de encontro aos lábios, dá para ver a borra escorrendo no fundo. Então retorna à pose de estátua e à sua ladainha feito alguém que bebeu bem mais que pó mal dissolvido, como quem dá uma vírgula, mas nunca um ponto final, num parágrafo eterno. Nessas pausas, a tromba se assusta e encolhe até sumir detrás do encosto do sofá. Em seguida, reaparece e volta a descansar no interior da xícara.

O rosto de Domingos a esposa não saberia descrever, pois não o vê, nem agora nem há tempos. O olhar dela se perde num ponto pouco acima do tecido amarelado do sofá, à direita dos ralos cabelos dele. Como toda a gente, quando ele pronuncia seu nome, ela só balança resignadamente a cabeça e murmura concordâncias sem saber com o que está concordando. Satisfeito, ele continua, até notar o fim precoce do estoque de cafeína. Levanta-se, se inclina como quem pede desculpas e depois realmente pede desculpas antes de desaparecer nas trevas do corredor que leva à cozinha.

À saída dele, o animal emerge em toda sua magnitude, ostentando a superfície deserta de seu couro, as presas de um marfim desbotado que por pouco não tocam o lustre e os olhinhos quase invisíveis metidos no crânio enorme. Ela não precisa nem deslocar o olhar para encará-lo nos olhos, que já a observam, não tão interessados quanto obedientes a ela. O bicho abaixa a cabeça numa mesura colossal, ela abaixa a cabeça numa mesura bem menos impressionante.

Quando Domingos retorna, a xícara cheia do líquido sujo e frio, não dá pela presença do animal. Aliás, há anos que senta no mesmo ponto do mesmo sofá, sem nunca lançar um olhar às costas. Não olha também quando a tromba se enrola em seu pescoço quase tão enrugado quanto a couraça que agora está em contato direto com a pele.

Ela não se move, não se surpreende nem quando a tromba aperta, e Domingos, em vez da conversa interminável, lança ruídos de sucção que lembram o nome dela: Maria. Mas, desta vez, Maria não mostra nenhuma concordância. Segue observando a pupila do animal, enxergando, por trás dela e da carne e do cérebro e de quilos de pele grossa, a parede onde ainda resta o retrato de uma criança. Da criança. E Maria finalmente percebe o café pelo que é. Respira aliviada, como se, com o cheiro que tanto ela quanto ele odiavam em cumplicidade, seu garoto também invadisse a sala uma última vez.

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