Seu Tanaka na padaria

(Bruno Vicentini)

O pai ergueu o garoto pelos sovacos e o botou sentado na banqueta alta, na frente da vitrine dos salgados.

– Escolhe, menos fritura. Tua mãe me mata.

A padaria quase vazia àquela hora, no balcão só o pai e o comprador, quem sabe. O café era servido numa xícara quente, que as moças tiravam de dentro de uma cuba com água fervendo. O pires era de alumínio. Julinho ficava olhando quieto, pra não atrapalhar os negócios.

– Café pode, pai?

A moça trouxe uma esfirra de carne, varreu os farelos do balcão com um pano sujo. Sorria pro pai o tempo todo, e o chamava de Julinho. O menino ficou confuso, porque Julinho era ele, isso sim. Mas o pai não dava bola, seguia tentando vender o sítio.

O português da caixa, cara fechada, atento ao movimento da rua:

– Vem lá o Seu Tanaka.

O garoto já tinha visto aquele velho uma vez e outra pelas ruas do Centro, um dia que sua mãe trocou até de calçada. Andava com uma bolsa a tiracolo cheia de papéis, as mesmas roupas imundas. Mas sorria, ao contrário dos outros mendigos. Tava sempre rindo, os olhinhos estreitos ainda mais apertados.

– Já viu mendigo japonês?

Na padaria ele entrou fazendo festa. Puxou do bolso um maço de notas novinhas, amarelas. Beijava as mãos das atendentes e entregava uma nota, às vezes duas, pra cada uma delas. Puxava as notas do maço como se fosse um mímico puxando uma flor. As atendentes enxugavam o carinho nas fraldas do uniforme, nos panos de prato, com nojo. Mas guardavam o dinheiro. Julinho viu que uma delas guardou a nota no jarro das gorjetas, outra meteu o dinheiro por dentro do avental.

– É aposentado. Se ele quer entregar a grana toda por aí, que mal é que tem?

O da caixa mandou Tanaka sair, parar já com aquilo. Tumulto no seu estabelecimento logo cedo. As moças aos poucos foram se acalmando, retomando o serviço. Faziam planos pro fim de semana.

O pai não venderia o sítio naquele dia, ainda não. Ao fim, pagou a despesa e saiu, de mãos dadas com Julinho. Do outro lado da avenida, o garoto viu Tanaka sentado na calçada, em cima de um lençol imundo, as duas mãos estendidas à frente, e sorrindo.

Deixe um comentário