(Angélica)
Há quem ache que ir para uma clínica psiquiátrica é o mesmo que entrar num reality show, ledo engano. Quando disse que algumas internas surtavam, não expliquei que isso acontecia raramente e as enfermeiras nunca deixavam que o fogo se alastrasse na caixinha de fósforos. Além do mais, a medicação fazia com que o estado de torpor que vem depois de um almoço pesado durasse vinte e quatro horas.
Como já disse, meu cérebro tinha dado um tilt na hora que entrei na clínica, uma árvore de Natal com várias luzinhas queimadas e as que ainda piscavam iluminavam o mesmo lugar: a Polícia Federal e o Sebas. A Rádio Maluco Beleza anunciava que em breve eu não ia precisar ser protegida, os mafiosos seriam liquidados e no dia que eu tivesse alta, o Sebas estaria lá fora me esperando. O resto, que resto? Não existia mais nada.
Eu falava pouco, na verdade, não tinha vontade de tirar os pés do carrossel que girava na minha cabeça. Passava a maior parte do tempo sentada numa das banquetas do refeitório sozinha e às vezes conversava com a única amiga que fiz lá, a Clara. Ela era bem mais jovem do que eu, cabelo curto ondulado, magrinha de tudo e um olhar que vinha partido em mil pedaços. Não só a magreza fazia ela parecer frágil, Clara era um passarinho e estava sendo atacada por algum pássaro negro que devorava seus miolos como se eles fossem um emaranhado de minhocas. A sombra da asa desse corvo ou urubu escurecia o rosto da Clara, a impressão era de que o sol nunca ia corar suas bochechas. Só quando atendia os telefonemas do irmão e ele passava os recados da sua namorada, o passarinho começava a voar, as penas que tinham caído do seu corpo miúdo desgrudavam do chão e se espalhavam como confete pela gaiola. Mesmo nestes curtos instantes de felicidade, as olheiras continuavam fundas.
Ela já devia ter sido internada, ninguém coloca livros na mala de quem é internado pela primeira vez. Acabou me emprestando Toda Poesia Paulo Leminski. O que me ajudou muito na falta do que fazer e também para não ter que conversar com as outras internas. Pensando agora, nem sei como permitiram a entrada do livro, dava para matar alguém com uma tijolada laranja na testa. Se algum poema tivesse a ver com a minha história e a do Sebas, eu pegava um giz de cera fininho e copiava num sulfite, depois dobrava a folha e punha debaixo do travesseiro. Talvez acreditasse que a fada do dente ia me fazer uma surpresa. Clara sabia em que página estavam os versos que ela queria dedicar a namorada, por isso nunca copiou nenhum, apenas lia para mim.
O problema era que no lugar da fada aparecia o Doutor Abelardo. Toda visita eu implorava para ser transferida para a ala aberta, queria caminhar pelo jardim. Quem sabe mais para frente. O senhor veio me dar alta? Quem sabe mais para frente. Depois ele ria, fazia algumas perguntas, analisava o meu prontuário e desaparecia. Nada de pé de camundongo, língua de lagarto e unha de Schinauzer, o que me davam era um remédio azul e dois brancos que entalavam na minha garganta. Clara tinha outro médico, que também atendia outras internas.
– O doutor Cavalão está te esperando na sala ao lado, Clara – dizia uma das enfermeiras.
Só de ouvir seu nome eu me assustava. Não sabia se ele atuava num filme pornô brasileiro ou sobre a ditadura militar. Qualquer um podia estraçalhar a minha amiga ainda mais. Essa cisma passou no dia que ele foi até a saleta da enfermaria e ficou checando umas pastas. Apesar de afobado, tinha cara de gente boa. Mas mesmo assim eu não parava de me perguntar por que ele não mata o pássaro preto?
Além dessa nossa cumplicidade no quesito amoroso, Clara gostava quando eu dizia que tinha aprendido a abrir portas sem tocar nelas; visto minha tataravó, que também se chamava Nina, na varanda do prédio que dava de frente para o meu e chegado a uma conclusão magnífica: qualquer objeto numa magia precisa ter um par. Ela arregalava os olhos querendo saber mais.
– É como um espelho, por isso eu usava dois coadores de café.
Entenderam? Não é para entender. Nos contentávamos com essas loucuras e ponto.
Minutos antes da Clara ter alta, vimos por entre as grades da janela os pais dela acenando para nós do gramado. Foi bom constatar que havia gente alegre e colorida no mundo. Em seguida, nos abraçamos e ela fez o que todas mais queriam. Ainda permaneci lá mais alguns dias.
Só um tempo depois, quando eu estava na casa do meu tio, o Doutor Abelardo deixou que eu acessasse a internet. Uma das primeiras coisas que fiz foi adicionar a Clara no Facebook. Trocamos algumas mensagens nesse dia. Perto do Natal nos falamos de novo e ela me perguntou como eu estava. Melhorando aos poucos, respondi. E você?
– Eu não sei se estou bem.
Clara continuava com o pássaro preto.
Trouxe as poesias comigo, ficaram guardadas na gaveta do criado-mudo da casa do tio até o dia que vim para o apartamento que estou agora. Abri cada folha e depois de sentir pena da criança que desenhou corações ao lado das letras tremidas e esperava a fada do dente, rasguei tudo e joguei no lixo. Tentava não pensar no Sebas, no meu presente perdido.
