por Américo Paim
É improvável que a festa literária de sua cidade seja mais estranha que a Flivelha. A não ser que também tenha um banquete de abertura com uma brincadeira de amigo secreto e alguém como Tonho da Sunga à frente. Amigos mais próximos do finado vereador arriscaram explicar a programação bizarra.
Para Beto Prenha foi de propósito: Tonho queria mandar o tal do recado para Luciana, a nora, o que aconteceu, com consequências trágicas, embora a maioria ache que a morte dele foi puro acaso, no máximo fruto do conjunto da obra das traições à mulher. Isso é outro assunto. Firmino Notre Dame disse ser só mais uma maluquice de última hora. Juca Mentira tinha a teoria mais doida: Tonho queria reunir suas diversas amantes e a patroa. Conseguiu. Tal imprudência teria sido a causa da sua morte matada, coisa de Maria Piaba, a esposa. Assim dizia o povo, mesmo sem que se encontrassem provas.
Nesse cenário aconteceu o pedido de Abílio. Uns acharam fofo. Outros, apenas estranho. Na vez dele na brincadeira, descreveu a amiga secreta como “a mulher mais linda e maravilhosa”. Acertaram fácil: Denise. Ficou com cara de marmelada. Eles namoravam há pouco menos de um ano, mas muitos achavam que tinha caroço naquele angu. Não era um relacionamento de muita quentura, sabe? Dona Ermelina, fofoqueira, falou na hora com Sulamita, diante da mesa de doces:
– Num tá vendo que foi tudo armado?
– Oxe, e é?
– Mita, ali é só interesse.
– Que veneno, viu? Achei romântico.
– Ela é a filha do banqueiro. Tô lhe dizendo.
– Mas ele parece tão apaixonado.
– E eu sou Papai Noel. Acorda, mulé!
Abílio, cheiroso e em impecável roupa social, segurando uma caixa preta aveludada, ajoelhou-se diante de Denise. Houve comoção, com palmas, assobios e gritos. Eles se falavam, mas a zoada em volta engolia tudo. Por causa de um grito de Denise, porém, parou-se de falar de repente e a saída de Barnabé em rompante chamou muita atenção. Pareceu que chorava. Umas pessoas ligaram os pontos e voltou o burburinho com ainda mais força. Tonho, já troncho de cachaça, falou ao microfone que era a vez dele. Apesar do constrangimento, a brincadeira continuaria. Denise, linda em seu vestido estampado com cores vibrantes, correu para uma mesa afastada. Abílio foi atrás. Ela falou.
– Por que fez isso?
– Quero me casar com você, ué?
– Tá vendo? De novo! Nunca diz que me ama.
– Mas eu… se lhe fiz um pedido, não é a mesma coisa?
– Oxe, claro que não! E por que essa pressa?
– Nada demais, só achei que…
– Que um anel ia resolver?
– É o que, rapaz?
– Quero brilho no seu olho!
– Escute, você não gosta de mim?
– Não inverta a pergunta!
– Eu gosto de você!
– Só isso, seco assim? Confessa duma vez!
– O quê?
– O que tá na cara!
– Não tô entendendo.
– Tem alguém, outra pessoa!
– Quem lhe disse isso?
– Viu? Não negou! Assuma logo, por favor, acabe com isso.
– Repare, você está nervosa.
– É Lisiane, né? Safada, amiga da onça!
– Hein? Não, nunca!
– Então é Marinalva! Só pode ser aquela puta!
– Ei, calma. Ela é minha prima de segundo grau. Peraê…
– Fala o nome da vadia!
– Se acalma, mulher! – ele já perdendo a linha.
– Porra nenhuma, quero o nome, o nome!
– Para com isso, véi!
– Fala, fala de uma vez, fala, que inferno!
Seus gritos causaram silêncio imediato e todos olharam para a mesa do casal. Ele, encurralado e muito nervoso, nem pensou muito, só deixou fluir:
– Barnabé.
