
Juan Pablo Villalobos é um escritor mexicano que vive em Barcelona e já passou uma longa temporada no Brasil, em Campinas, já que sua mulher é paulista. Seus principais romances são Festa no Covil, narrado pelo filho de um traficante de drogas, Como Se Vivêssemos em Um Lugar Normal, sobre a obsessão de sua família com discos voadores e a crônica falta de grana, o hilariante Ninguém Precisa Acreditar em Mim, sobre a escrita de sua tese de doutorado na Espanha enquanto é acossado por bandidos, e outros livros cheios de bom humor – sim, JPV deve ser um dos escritores mais engraçados do nosso tempo. O conto abaixo saiu na Morel 3 e trata de uma paixão nacional: Juan Rulfo. Trata também de outra paixão, esta mundial: a corrupção.
Diga pra me passarem logo o cheque
Me disseram que era urgente e eu corri – literalmente – para a
sede da Comissão do Centenário, porque, iludido, imaginei que já
tivessem assinado o cheque do adiantamento. Mas, bem, assinar
cheques neste país, você sabe, nunca foi uma emergência.
– Sente-se – disse o presidente do Comitê do
Centenário do Escritor Centenário quando entrei na
sala de reuniões, depois de me fazer esperar por quase
três horas, talvez para enfatizar a urgência da situação.
Obedeci, suando: gotículas pingavam da minha
testa e, sobretudo, dos meus bigodes (aqueles bigodes
mal diagramados que eu havia deixado crescer para
contrariar a suposta semelhança que, segundo diziam os
críticos provincianos, até meu rosto tinha com o rosto
do Escritor Centenário). E como meus bigodes suavam!
Acho que o ar condicionado deles estava quebrado,
embora provavelmente só tenham instalado as aberturas,
o orçamento para os aparelhos deve ter morrido em
algum bolso por ali.
Por alguns segundos ninguém disse nada:
tive tempo de pigarrear contra o silêncio e olhar
alternadamente os três membros do Comitê do
Centenário em busca de uma pista. Pareciam muito
impenetráveis em sua passividade de burocratas.
– Há um problema no discurso – disse o presidente
do Comitê do Centenário.
– Um!? – gritou a vice-presidenta.
Olhei suplicante para o secretário do Comitê,
que foi, afinal, quem me meteu nessa confusão, quer
dizer, quem me recomendou para esse trabalho. Nós
deveríamos ser amigos, o mais próximo que dois
escritores podem ser. O secretário, é claro, fez uma
demonstração da amizade que nos unia mantendo um
estrito silêncio.
– Isto – continuou a vice-presidenta, enquanto
depositava desdenhosamente sobre a mesa quatro
páginas impressas em papel reciclável que eu tinha
enviado na tarde anterior por e-mail –, isto – repetiu
ela, para que não houvesse dúvidas –, não é isto que foi
solicitado.
Meu amigo secretário abaixou-se para pegar
uma mochila do chão, abriu-a cerimoniosamente e,
enquanto eu esperava que ele extraísse as provas para
minha defesa, tirou um chiclete, que meteu rapidinho
na boca.
– É o centenário do Escritor Centenário – disse
o presidente –, e esperávamos – disse ele –, esperamos
– corrigiu-se, mudando o verbo para o presente para
destacar que estavam me dando uma segunda chance
– um discurso comemorativo que celebrasse a grandeza
e o significado de sua obra, a influência decisiva que
exerceu nas letras municipais, regionais, estaduais,
nacionais, internacionais e universais. Além disso, não
se esqueça de quem vai ler o discurso.
Lambi meu bigode salgado antes de falar.
– Exatamente – eu disse.
O som do meu celular pulou na sala de reuniões,
me interrompendo.
Pedi desculpas e quando o silenciei consegui ler a
mensagem de Andrea: “Te deram o cheque? Se o banco
fechar, no posto de gasolina eles trocam pra você”.
Relembrei todas as elipses de nossa despensa, a sintaxe
torta das ameaças de cobrança que os mais diversos
escritórios de advocacia depositavam com persistência
maníaca em nossa caixa de correio. E a cara da minha
sogra toda vez que ela vinha nos presentear com uma
caixa de fraldas.
– Me pareceu que a melhor homenagem – comecei
a dizer, não muito convencido – seria sublinhar o efeito
castrador que a figura do Escritor Centenário e sua
obra exerceram nas gerações subsequentes – não sei por
que usei a palavra “subsequente” de forma inadequada,
como se os escritores estivessem todos alinhados desde
meados do século 20 até hoje, mas registro aqui como
uma modesta homenagem ao realismo. – É como se
nada pudesse ser escrito depois dele – continuei –, ou
como se cem anos tivessem que passar, ou duzentos, até
mil – exagerei, lembrando do cheque perdido –, para
encontrar uma maneira de superar sua influência.
Terminei meu discurso com o gosto agridoce
das mentiras pretensiosas. A verdade era que o Matías
tinha cólicas que começavam diariamente às duas da
manhã, que Andrea brigava comigo de segunda a sexta
enquanto dava duro no escritório (porque “alguém tem
que trabalhar nesta família”, ela dizia), que nossa cozinha
parecia uma planície desolada e que já cheguei a níveis
de fome que me deram pesadelos onde comia sapos e
rãs como se vivesse dentro de uma história do Escritor
Centenário. Em resumo, desse jeito não dá pra escrever
coisa que preste. Então, na tarde anterior, saquei um
caô de última hora fazendo da falta uma virtude: como
eu não conseguia pensar em nada, a ideia central do
discurso era que ninguém mais poderia pensar em nada,
tão monumental era a sombra (a literal sombra de um
monumento) do Escritor Centenário.
– Mas não foi isso que lhe foi pedido – insistiu
a vice-presidenta, e pegou as tristes quatro páginas e
dobrou-as para dentro, escondendo o discurso para
sempre e revelando as práticas ecológicas dos escritórios
do Comitê do Centenário.
– É um discurso negativo – disse o presidente.
– Um discurso perverso – interrompeu a vicepresidenta
–, fruto de ressentimento e rancor.
– Concordo que pode ser um discurso
desconfortável – disse –, desconfortável como a verdade.
Porque também era verdade. A verdade é que
desde aquele livro de contos que eu havia publicado há
mais de dez anos, que me rendeu tantos elogios e tantas
comparações com o Escritor Centenário, eu não tinha
conseguido escrever mais porra nenhuma.
A culpa, como já disse, deveu-se em parte às
condições de produção, afinal por algum motivo eu
estudei marxismo na faculdade, mas a opressão do
legado do Escritor Centenário e a pressão da crítica,
mais as vagas expectativas dos meus muito hipotéticos
leitores, me condenaram a uma esterilidade que já
parecia perpétua.
– A verdade é sempre desconfortável – eu disse
novamente, reorganizando as palavras da frase.
– Não é essa a ideia que queremos transmitir
– disse o presidente da Comissão. – Além disso, não
queremos deprimir os participantes, é uma festa, um
motivo de comemoração.
– E o presidente não gosta de mensagens
pessimistas! – completou a vice-presidenta, referindose
não ao presidente da Comissão, mas ao verdadeiro
presidente, o próprio dito-cujo, que leria o discurso
no dia seguinte ao inaugurar a biblioteca com o nome
do Escritor Centenário (uma biblioteca, diga-se de
passagem, que estava vazia porque não conseguiram
comprar os livros, um mero detalhe).
– Você está confuso, amigo – acrescentou
o presidente, ao mesmo tempo aumentando
exponencialmente sua condescendência –, você vê um
fardo onde há um tesouro, você vê um obstáculo onde
há um trampolim, você vê repressão onde há libertação,
você vê um problema onde há solução – finalizou,
orgulhoso de sua retórica de exploração neoliberal
disfarçada de discurso motivacional.
Meu amigo secretário afinal abriu a boca, tirou o
chiclete e o devolveu devidamente mastigado ao pedaço
de papel de onde o havia extraído.
– Juan querido – ele me disse, com a familiaridade
e o carinho com que os amigos escritores se falam, como
se tivéssemos ido juntos à pré-escola, saídos do mesmo
ventre –, não me faça repetir o que você já sabe: você é
a única pessoa neste país que soube lavrar o caminho
idealizado pelo Escritor Centenário, não foi em vão que
você nasceu na mesma região –, juro que ele usou o
verbo rural “lavrar” e eu não estou pedindo uma licença
poética, talvez ele achasse que aquele verbo teria sido
aprovado pelo Escritor Centenário ou, pelo menos,
por seus herdeiros. – Seu livro é o único que soube
interpretar sua herança – continuou, sugerindo que o
sujeito intérprete era o livro e não o autor. – E todo
mundo sabe que esse romance que você está escrevendo
é a continuação de sua tradição – concluiu ele, cacofonia
incluída.
Dediquei alguns segundos à memória desse
suposto romance que eu supostamente estaria
escrevendo e que em teoria todos esperavam com tanta
ansiedade.
– A cerimônia é amanhã – disse o presidente,
enquanto começava a se levantar –, acho que você já
entendeu o que precisamos.
A vice-presidenta, conciliadora, me entregou
uma folha de papel.
– Aqui – ela me disse –, para inspirá-lo.
Olhei para o conteúdo da página: uma lista
de palavras. Puchero1. Tejabán2. Ruidazal3. Tepeche4.
Colmilludo5. Tremolina6. Camichines7. Resuello8.
Chamuco9.
– São palavras usadas pelo Escritor Centenário
em sua obra imortal – esclareceu, desnecessariamente,
a vice-presidenta, já caminhando para a porta,
acompanhando o presidente em seu voo.
– Uma pergunta – eu disse, antes que eles
escapassem, mas o presidente também escapou. O
cheque do adiantamento já está assinado?
– Quando terminar, entregamos junto com o
pagamento final – respondeu a vice-presidenta, e saiu.
Rapidamente meu amigo secretário fechou a
porta da sala de reuniões, por dentro, infeliz.
– Que porra é essa, ô idiota? Assim você me
fode, seu bosta – ele me xingou, enquanto resgatava um
cinzeiro escondido em uma mesinha de canto e acendia
um cigarro.
– Me dá um? – pedi.
– Aqui não pode fumar – respondeu ele, enquanto
soltava fumaça pelo nariz.
– Preciso da grana – disse –, você me prometeu
que me dariam os seis mil pesos antes de começar.
– O recurso ainda não desceu – ele disse, como se
o orçamento do governo estivesse completando os ciclos
menstruais.
Ele pegou a mochila do chão novamente, mas
desta vez, em vez de mascar chiclete, ele tirou algumas
folhas de papel.
– Dá uma olhada nisso – disse.
Era um discurso em que usava frases como
“contribuição narrativa”, “fronteiras semânticas”,
“ruralismo vanguardista”, “festa lexical”, “mausoléu da
memória”.
– Peguei na internet – esclareceu –, é de um
professor de uma universidade de um caralho de uma
aldeia da França. Eles fizeram um colóquio lá faz
uns dez anos, pra comemorar os 90 anos do Escritor
Centenário. Ninguém vai saber.
Li aleatoriamente algumas frases, entre as quais
excentricidades tão notórias quanto terminar uma frase
com uma preposição.
– Você traduziu? –perguntei.
– Já estava em espanhol – respondeu.
– Isso não é espanhol.
Ele deu de ombros, como se um dos requisitos
do discurso não fosse que pudesse ser entendido por
falantes da mesma língua.
– Está muito mal escrito – eu disse.
– A leitura do presidente não vai ser notada –
ele respondeu, sorrindo maliciosamente –, com aqueles
problemas de sintaxe que ele tem ao falar.
– Se é que ele consegue ler…
– Imprimimos em letras grandes.
Devolvi as páginas e peguei meu celular para ver
a hora. Vi que havia seis mensagens de Andrea. Fiquei
alarmado, mas era só uma lista de compras.
– Cinquenta e cinquenta – disse meu amigo
secretário.
– Quanto? – perguntei.
– Quando te pagarem, você me dá metade.
– Não brinca.
– Vai escrever um discurso melhor? Além do
mais, você vai conseguir escrever alguma coisa? Vai
conseguir, seu merda?
Fui até onde ele estava, peguei o cigarro
fumegante de sua mão direita, dei uma longa tragada e
disse em um tom que não aceitava negociação:
– Sessenta e quarenta.
01 Puchero: ensopado de carne e legumes muito popular nos países hispânicos.
02 Tejabán: telhado de casa pobre.
03 Ruidazal: bagunça, balbúrdia, furdunço.
04 Tepache: bebida de baixo teor alcoólico, parecida com a cerveja, só que doce.
05 Colmilludo: que é astuto e tem muita experiência para perceber más intenções nos outros.
06 Tremolina: confusão, algazarra, festa.
07 Camichines: árvores grandes, de sombra, típicas da região de Tepic, México.
08 Resuello: ronco.
09 Chamuco: Diabo, como se diz no México.
PROPOSTA
O conto acima trata de corrupção – mas de corrupção em vários níveis. O narrador, que é o próprio Villalobos, está passando por apuros financeiros e escreve um texto em homenagem ao centenário de um escritor que não é nomeado, mas adivinhamos: trata-se de Juan Rulfo. Porém, a sua homenagem sai arrevesada, pois ele trata de fazer uma leitura crítica da obra de Rulfo – algo que a comissão não aceita. O discurso será usado politicamente, então ele deve antes louvar o objeto do que fazer uma leitura crítica. Embora tenha já produzido o seu material, ele é rejeitado pela comissão. que só vai pagá-lo quando ele entregar um novo discurso, este laudatório e escrito de maneira medíocre. Percebe-se aí uma ironia da corrupção – a corrupção do pensamento: quem paga tem o poder de dobrar o pensamento de quem produz, para que pense à sua maneira. A segunda corrupção é que o amigo que arrumou o frila para Villalobos também quer o seu, e pede metade do pagamento. A segunda camada irônica é que toda essa maracutaia trata de uma grande homenagem a um dos maiores autores mexicanos, e que era conhecido por sua austeridade e autoridade moral.
Bem, é isso o que você vai contar: um causo de maracutaia.
Tente lembrar de alguma tramoia, cambalacho, patifaria, mutreta ou velhacaria em que você ou alguém que você conhece esteve envolvido.
Centre sua história na… proposta, na oferta, na negociação.
Conte na primeira pessoa, usando uma ou duas cenas no máximo, e estruturando sua história em diálogos.
Seu personagem vai topar ou não a proposta?
Em… tantos mil caracteres (a negociar).
