“Então, como passou a eleição?”
Eu já me acostumei a ser abordado por mulheres desconhecidas desde que passei a levar minha filha, hoje com seis anos, ao parquinho do bairro. Acontece que não quero discutir política ali, naquela hora, passados dois dias da mais extraordinária vitória eleitoral da história da República. Muito menos com uma estranha.
Olho para identificar a dona da voz às minhas costas. É a Bonitinha do Lenço.
“Passei bem”, respondo seco.
Claro que eu já tinha notado antes aquela mulher alta e magra, de pele clara e cujos dentes brilhavam quando sorria. Calculo que passou pouco dos trinta, como eu. Usa roupas esportivas e nunca a vi sem bandana, que usava ora prendendo o cabelo, ora no colo à maneira dos motoqueiros. Na pandemia, o pano serviu para lhe tampar a boca, sempre deixando de fora o narizinho bem esculpido. A peça de hoje é verde com listras amarelas.
“Estou aliviada que o período de campanha suja tenha acabado”, diz piscando para mim os grandes olhos castanhos. Ela permanece de pé. Não a convido a se sentar no banco que ocupo.
“É, foi difícil”, resmungo na tentativa de encerrar o assunto.
“Então! Acho que nenhum dos dois ia fazer nada de bom para o povo. Sem pobreza fica difícil ser eleito.”
De onde estou, consigo ver que o pirralho dela está na dividindo a gangorra com minha filha. Como é maior, ele dá impulsos mais fortes que o necessário na tentativa de desequilibrar a Maria e fazê-la cair na lama que a chuva havia formado. Não me preocupo com isso.
“Cadê seu pai que nunca mais vi no parque?”, pergunto num rompante. O resultado é melhor do que eu esperava.
“M…m…meu pai? Quem vinha comigo aqui era o meu marido.”
“Ahhh… Aquele senhor de cavanhaque branco é seu marido? Sério?”
“Era. Nos separamos.”
Pelo canto do olho, percebo que Maria me lança um meio sorriso do alto da gangorra. Sei que ela está tramando alguma peça.
Um animal pequeno sai do mato lateral e passa voando sobre o tênis branco da mulher da bandana. Ela dá um gritinho: “Que é isso? Esquilo?”
“É um gambazinho. Tem uma família que vive no mato.”
“Que susto! Por isso que acho que tem que privatizar tudo.”
“Já é”, informo.
“Como?” A mulher faz que não ouviu e chega mais perto ainda.
“Já é privatizado”, informo. “O parque.”
“Ah, sei! Posso me sentar?”
“Fique à vontade. Aproveita que ainda não estão cobrando por isso…”
“Você perguntou do meu marido”. Ao se acomodar ao meu lado, ela volta ao assunto que lhe interessa. “Já eu nunca vi sua mulher.”
“Não mesmo.”
“Ela não vem aqui?”
“Ela quem?” Faço cara de sonso.
“A… a mãe da menina… aquela menina é sua filha, não é?”
“É.”
Um barulho surdo faz com que ela vire a cabeça para trás. O garoto está caído de barriga para baixo sob o assento do brinquedo, com a cara mergulhada na poça marrom. A mulher corre para levantar o filho. Eu permaneço onde estou.
“Ela… pulou… sem avisar!” – ele geme entre soluços, cuspindo lama. Além do rosto, sua camiseta amarela recebeu uma cobertura extra de chocolate.
De pé sobre um montinho de grama, Maria observa a cena com sua cara mais lambida.
A mulher do lenço segura o braço do filho com medo de se sujar também: “Enrico! O que ela fez com você, essa… essa gambazinha!”
“Pode parar, minha senhora. Foi o menino que provocou a queda. E ele é bem maior do que minha filha.”
“Essa… pretinha!”
“Sim, nesse sentido, a senhora tem razão. Os gambás costumam ter a pelagem preta, sim. E agora, vê se vai embora antes que eu preste queixa. Racismo é crime.”
A mulher dispara dois ou três palavrões antes de arrastar o garoto lambuzado pelo portão afora.
Fingindo cara de bravo, caminho na direção de Maria.
“Precisava fazer isso? Coitado do menino…”
“É que me deu uma vontade…” Ela rebate fazendo um bico debochado.
“O Enriquinho não tem culpa de ter aquela mãe daquele jeito.”
“Sabe, pai, até que fiquei com inveja dele.”
“Como assim?”
A resposta dela vem em gestos. Maria tira a sandália e pisa na argila fresca que se acumula nos trechos onde a grama desapareceu. Também fico descalço e afundo o pé em todas as poças à vista. Chafurdamos juntos, achando engraçadíssimo quando o barro vermelho esguicha por entre nossos artelhos. Voltamos encharcados e de mãos dadas. Com o tênis amarrado no pescoço, recolho do chão a bandana verde e amarela que a mulher deixou cair. Vai ser útil para limpar os pés antes de entrarmos em casa.
